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  • 27 de janeiro de 2026
    Insights
    A invasão da Groenlândia seria um erro geopolítico histórico

    A invasão da Groenlândia seria um erro geopolítico histórico

    PALAVRAS-CHAVE Geopolítica, Groenlândia, Otan, Trump, União Europeia

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    Filipe Prado Macedo da Silva

    Professor e Pesquisador do Instituto de Economia e Relações Internacionais (IERI) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Analista Internacional de Europa e União Europeia. Líder do “Conexão Bruxelas | Grupo de Estudo sobre Europa e União Europeia”. E-mail institucional: filipe.prado@ufu.br


    A hipótese de uma invasão da Groenlândia por parte dos EUA, direta ou disfarçada sob o argumento de “segurança estratégica”, é diplomaticamente indefensável e irracional.

    Caso venha a concretizar-se, conformará um dos maiores erros geopolíticos do mundo contemporâneo, comparável apenas às decisões tomadas pela Alemanha ao invadir a Polônia, em 1939, que precipitaram a eclosão da Segunda Guerra Mundial.

    O problema central não está no custo militar imediato, mas nos efeitos sistêmicos: a erosão das alianças, a perda de legitimidade das normas internacionais e o abalo da ordem liberal sustentada pelo Ocidente desde 1945.

    Nos últimos dias, repetidas declarações de Trump defendendo que Washington, “gostem ou não”, deveria controlar o território groenlandês geraram uma reação inédita da Europa. Inclusive, a Casa Branca alegou que a “intervenção militar sempre é uma opção”.

    A pedido da Dinamarca, já que a Groenlândia é parte integrante de seu território, tropas da Alemanha, Suécia, Noruega, Holanda e Reino Unido anunciaram mobilizações conjuntas na ilha do Ártico. Mesmo assim, a Casa Branca sustenta que o presidente Trump continua tendo como objetivo “tomar” ou “comprar” a Groenlândia.

    Rapidamente, o Parlamento Europeu divulgou uma declaração conjunta dos líderes dos grupos políticos condenando de forma inequívoca as declarações da administração Trump em relação à Groenlândia, “que constituem um desafio flagrante ao direito internacional, aos princípios da Carta das Nações Unidas e à soberania e integridade territorial de um aliado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan)”.

    Na última quarta-feira, autoridades da Dinamarca e da Groenlândia conversaram com o vice-presidente dos EUA, JD Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio. Após o encontro, os dinamarqueses afirmaram um “desacordo fundamental” com Trump sobre o futuro da ilha, embora ambos os lados tenham concordado em discutir as preocupações acerca da segurança dos EUA na região do Ártico.

    O pretexto da segurança no Ártico hoje, a disputa por minerais estratégicos amanhã

    O argumento da segurança tem sido apresentado como a justificativa imediata. Assim, os EUA sustentam que a Groenlândia seria parte central da sua segurança nacional, sob a alegação de que Rússia e China estariam ampliando sua presença e influência no Ártico.

    A China respondeu que Washington utiliza terceiros como pretexto para avançar interesses próprios, enquanto Moscou repudiou o envio de tropas da Otan à Groenlândia, denunciando uma “militarização acelerada” da região.

    Na prática, a retórica oficial enquadra a ilha como um ativo defensivo indispensável diante dos três maiores rivais bélicos da atualidade – EUA, Rússia e China.

    No entanto, esse enquadramento tende a ocultar uma dimensão de longo prazo ainda mais relevante. Para além da segurança imediata, o território groenlandês insere-se num espaço que concentra minerais estratégicos, terras raras e recursos essenciais para a transição energética e para as indústrias de alta tecnologia.

    À medida que o degelo amplia o acesso a essas riquezas, o Ártico deixa de ser apenas uma fronteira militar e passa a ser igualmente uma fronteira econômica.

    Nesse sentido, o discurso da contenção da Rússia e da China hoje pode funcionar como a base política para, no futuro, assegurar o controle sobre recursos minerais estratégicos de valor crescente.

    Um erro estratégico contra aliados, não contra rivais

    O problema central é que, ao procurar defender seus interesses contra “potências rivais à hegemonia”, os EUA podem cometer um erro estratégico grave contra os próprios aliados europeus.

    A Groenlândia não é um território hostil nem um vazio de poder. Não é o mesmo que atacar o Irã, a Nigéria ou a Venezuela. Isto porque trata-se de uma região vinculada à Dinamarca, aliada do Ocidente, membro da União Europeia (UE) e membro fundador da Otan.

    Assim sendo, qualquer ação coerciva contra a ilha equivaleria, na prática, a um ataque a um aliado – minando o artigo 5º da Otan – rompendo o princípio fundamental da segurança coletiva euro-atlântica: a confiança mútua entre os parceiros.

    À luz da teoria do realismo ofensivo, formulada por John Mearsheimer em The Tragedy of Great Power Politics, o comportamento das grandes potências organiza-se em torno de três premissas centrais: a busca permanente pela maximização do poder relativo; o caráter essencialmente instrumental e contingente das alianças; e a baixa tolerância de Estados líderes à autonomia excessiva de seus aliados.

    Sob essa perspectiva, as pressões sobre a Groenlândia revelam menos uma necessidade objetiva de segurança e mais uma lógica de hegemonia e controle estratégico dos EUA.

    O paradoxo é que tal lógica, quando aplicada aos aliados, gera autossabotagem estratégica. Logo, ao sinalizar que alianças são condicionais e reversíveis, a potência líder enfraquece a credibilidade das garantias de defesa, incentiva a Europa a buscar autonomia estratégica e “sepulta” a própria Otan.

    O precedente histórico do colapso normativo

    A história oferece um alerta incontornável. Em 1939, o erro de cálculo estratégico de Hitler foi acreditar que o Reino Unido e a França não reagiriam militarmente à invasão da Polônia. O resultado foi a eclosão da Segunda Guerra Mundial (veja Martin Gilbert, em A Segunda Guerra Mundial: a história completa, vol. 1).

    Evidentemente, a Groenlândia de 2026 não é a Polônia de 1939. Contudo, a dinâmica dos acontecimentos é perigosamente semelhante: quando grandes potências passam a tratar a soberania como variável negociável, o sistema internacional entra em rota de colapso.

    Os custos de uma invasão da Groenlândia seriam menos militares e mais normativos. O Ocidente construiu sua legitimidade internacional no pós-Segunda Guerra Mundial com base na defesa da soberania, da integridade territorial e do direito internacional.

    Nesse sentido, a advertência de Emmanuel Macron é central. “A violação da soberania da Groenlândia acarretaria consequências em cascata sem precedentes”.

    Se ocorrer, a invasão da Groenlândia será lembrada como o maior erro geopolítico do pós-guerra.

    Este texto foi originalmente publicado no The Conversation Brasil.

    Este texto está sob uma licença Creative Commons Atribuição-SemDerivações 4.0 Internacional. É permitida
    a reprodução total ou parcial do conteúdo sempre que a fonte original for citada.


    Insights nº 22 | Artigo em PDF

  • 26 de janeiro de 2026
    Redes Sociais

    Publicação no The Conversation Brasil

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  • 23 de janeiro de 2026
    Redes Sociais

    Publicação no The Brussels Times

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  • 22 de janeiro de 2026
    Redes Sociais

    Publicação no The Conversation Brasil

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  • 22 de janeiro de 2026
    Insights
    Ameaças de Trump confirmaram o Acordo UE–Mercosul apesar da oposição dos agricultores europeus

    Ameaças de Trump confirmaram o Acordo UE–Mercosul apesar da oposição dos agricultores europeus

    PALAVRAS-CHAVE Acordo UE-Mercosul, Conselho Europeu, Parceiro Constrangedor, Revoltas Agrícolas, Trump

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    Filipe Prado Macedo da Silva

    Professor e Pesquisador do Instituto de Economia e Relações Internacionais (IERI) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Analista Internacional de Europa e União Europeia. Líder do “Conexão Bruxelas | Grupo de Estudo sobre Europa e União Europeia”. E-mail institucional: filipe.prado@ufu.br


    Quando o Conselho Europeu – a instituição da União Europeia (UE) que reúne os Chefes de Estado e/ou de Governo dos 27 países-membros – confirmou politicamente a aprovação do Acordo UE-Mercosul, em 9 de janeiro de 2026, tornou-se evidente o ambiente paradoxal no qual a Europa passou a operar.

    No plano interno (dentro das fronteiras da UE), as tensões geradas pela mobilização dos agricultores europeus intensificaram-se a partir de dezembro de 2025, culminando no maior protesto agrícola desde os anos 1990. Na França, os produtores rurais mantêm há mais de duas semanas bloqueios de vias e manifestações contínuas em Paris e em outras cidades, direcionadas contra o Acordo UE–Mercosul.

    Em dezembro de 2025, parecia que o Acordo UE-Mercosul poderia fracassar. Emmanuel Macron, presidente francês, convenceu a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, de que era prematuro ratificar o acordo com os países sul-americanos. Na ocasião, Lula, à frente da presidência pro tempore do Mercosul, criticou o adiamento da conclusão do tratado comercial.

    Porém, a virada do ano marcou uma inflexão: o cenário externo deteriorou-se rapidamente nos primeiros dias de 2026.

    A captura de Nicolás Maduro na Venezuela e as ameaças de Trump à Groenlândia – parte do Reino da Dinamarca – apenas confirmam, como já argumentei em outro artigo, que os EUA passaram a atuar como parceiro constrangedor da UE e da ordem internacional.

    Diante deste cenário, os líderes europeus optaram por relativizar as pressões internas de seus agricultores e priorizar as ameaças externas dos EUA, deslocando o eixo decisório do plano doméstico para o plano sistêmico. A mudança mais relevante foi no voto da Itália.

    Assim, colocaram em prática o que a literatura de Relações Internacionais denomina de realismo neoclássico, segundo o qual o Estado – ou, no caso europeu, a UE enquanto ator político composto – formula suas escolhas estratégicas a partir das pressões do sistema internacional, ainda que tais escolhas impliquem custos políticos internos significativos.

    Neste enquadramento, os conflitos domésticos não desaparecem, mas são tratados como variáveis de ajuste. Logo, a preservação da posição internacional, a autonomia estratégica e a capacidade de resposta a ameaças externas passa a constituir a prioridade central da ação política.

    No caso europeu, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, já sinalizou a destinação de até € 45 bilhões adicionais em financiamento rural como forma de mitigar resistências e apaziguar a mobilização dos agricultores.

    Trump como choque sistêmico e a lógica estratégica da diversificação

    O realismo neoclássico sustenta que o sistema internacional impõe pressões estruturais que orientam o comportamento dos atores políticos, mas cuja tradução em política externa depende da interpretação das lideranças e dos filtros institucionais domésticos.

    No caso europeu, a presidência Trump operou como um choque sistêmico: ao atacar o multilateralismo, instrumentalizar guerras tarifárias inclusive contra aliados e condicionar a cooperação internacional a ganhos imediatos. Dessa maneira, os EUA deixaram de atuar como parceiro estratégico e passaram a se comportar como um parceiro constrangedor, politicamente coercitivo e estrategicamente imprevisível.

    Esse cenário alterou o cálculo estratégico da UE. A elevada dependência do mercado norte-americano passou a ser vista como vulnerabilidade. Em uma relação assimétrica, os EUA impunham custos, restando à UE responder racionalmente por meio da diversificação de parceiros estratégicos, reduzindo a barganha de Washington. Foi isso, em setembro de 2025, que acelerou a validação do Acordo UE-Mercosul.

    O Mercosul emerge, neste sentido, como parceiro lógico. Mais do que um tratado comercial, o Acordo UE–Mercosul é um instrumento geopolítico, ampliando mercados, assegurando insumos estratégicos e projetando normas europeias nos países sul-americanos.

    Ao aprová-lo, os líderes reunidos no Conselho Europeu concluíram que o custo estratégico da inação superava os custos políticos internos, admitindo que a pressão sistêmica externa passou a orientar a política comercial europeia, acima de interesses setoriais específicos.

    Conflitos domésticos e a administração dos custos políticos

    No realismo neoclássico, os conflitos domésticos não desaparecem: atuam como filtros, atrasos e custos políticos.

    Assim sendo, a oposição dos agricultores europeus foi intensa e relevante, mobilizando protestos, pressionando parlamentos nacionais e fortalecendo discursos protecionistas. Em uma leitura liberal (ou até pluralista), tal resistência poderia bloquear o acordo.

    O que se observa, porém, é um padrão distinto: a contestação interna não alterou a decisão estratégica, apenas condicionou sua implementação.

    A resposta da UE seguiu três mecanismos clássicos. Primeiro, a dilatação temporal, com adiamentos e renegociações pontuais. Segundo, a compensação, por meio do reforço da Política Agrícola Comum (PAC), fundos de ajuste e cláusulas de salvaguarda. Terceiro, a reformulação discursiva, enquadrando o Acordo UE–Mercosul como um instrumento de defesa estratégica do projeto de integração europeu, e não só de liberalização comercial.

    Tal dinâmica confirma que a política externa resulta da interação entre pressões sistêmicas e estruturas domésticas. Os agricultores não definiram o rumo da decisão, mas o custo político de sua execução.

    Em suma, diante de um parceiro constrangedor – os EUA – recuar internamente sinalizaria fragilidade externa.

    A aprovação do acordo, mesmo sob contestação, tornou-se parte de um jogo estratégico, no qual a UE busca preservar credibilidade, reduzir dependências e afirmar sua autonomia em um sistema internacional tensionado.

    Este texto foi originalmente publicado no The Conversation Brasil.

    Este texto está sob uma licença Creative Commons Atribuição-SemDerivações 4.0 Internacional. É permitida
    a reprodução total ou parcial do conteúdo sempre que a fonte original for citada.


    Insights nº 21 | Artigo em PDF

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