Professora Associada de Relações Internacionais no Centro Universitário FACAMP. Diretora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Relações Internacionais (CERI-FACAMP).
O Acordo de Parceria entre o Mercosul e a União Europeia (UE) insere-se entre os mais longos processos de negociação do comércio internacional contemporâneo. As tratativas iniciais remontam a 1999, passando por três fases principais (2000-2004; 2010-2012; 2016-2019), e culminando, em 2019, em um acordo preliminar entre o Mercosul e a Comissão Europeia. Esse entendimento previa, especialmente, a redução de tarifas sobre produtos manufaturados do Mercosul e a liberalização do comércio agrícola no mercado europeu.
Entretanto, a pandemia de Covid-19 influenciou as prioridades dos blocos e atrasou a negociação de pendências do acordo. Foi apenas em 2023, no terceiro mandato de Luís Inácio Lula da Silva, que houve a retomada das negociações em uma quarta fase (2023-2024), como prioridade do governo brasileiro e do Mercosul.
Nesse processo, foram negociados temas sensíveis, como o comércio e o desenvolvimento sustentável, com o reforço dos compromissos ambientais, sociais e econômicos. Além disso, avançou-se na liberalização tarifária de bens industriais e agrícolas, com prazos diferenciados (que vão desde a liberalização imediata a 4, 7, 8, 10 e 12 anos), incluindo setores estratégicos como o automotivo e o de veículos elétricos, bem como maior flexibilidade na exportação de minerais críticos, com o Brasil garantindo o direito de aplicar restrições, se o julgar apropriado.
Em 6 de dezembro de 2024, os líderes de ambos os blocos anunciaram a conclusão das negociações do Acordo de Parceria Mercosul-UE (EMPA), mais amplo, e do Acordo Interino de Comércio (ITA), que concentra as questões comerciais. Contudo, a conclusão não produziu efeitos jurídicos imediatos, na medida em que dependia de etapas formais subsequentes, incluindo revisão legal (consistência e correção linguística), tradução para as línguas oficiais do Mercosul e da UE, assinatura, internalização e ratificação parlamentar.
Mais especificamente, o EMPA requer que todos os Estados-membros da UE o assinem e ratifiquem para entrar em vigor, enquanto o ITA requer apenas a assinatura do Conselho Europeu, o que ocorreu em 17 de janeiro de 2026, por meio do Comissário para o Comércio da UE Marcos Šefčovič e dos representantes do Mercosul, em cerimônia realizada em Assunção, no Paraguai.
Apesar da assinatura do ITA, as regras da UE exigem que o Parlamento Europeu expresse seu consentimento em relação ao acordo e que, posteriormente, o Conselho Europeu emita uma decisão final sobre sua adoção, o que marcará sua entrada em vigor de forma definitiva. Na sequência, o ITA expirará.
Diante de tais regras, o Parlamento Europeu adotou uma posição distinta da do Conselho Europeu, decidindo travar o avanço do acordo em 21 de janeiro, por meio de uma resolução que solicita um parecer jurídico ao Tribunal de Justiça da UE (TJUE). A resolução foi aprovada com 334 votos a favor, 324 contra e 11 abstenções. Uma segunda resolução, que também exigia uma avaliação jurídica, foi rejeitada com 225 votos a favor, 402 contra e 13 abstenções.
O Parlamento Europeu e o Acordo Mercosul-UE
O Parlamento Europeu, como importante órgão representativo da UE, responde a pressões políticas internas, especialmente de setores agrícolas e de organizações ambientalistas europeias. A resistência de países como França, Hungria e Polônia, e de grupos políticos do Parlamento, ilustra essas preocupações, particularmente em relação a padrões ambientais, ao uso de agrotóxicos e aos impactos concorrenciais que o acordo poderá acarretar.
Logo, o pedido ao Tribunal de Justiça da UE é uma estratégia de judicialização que revela uma tensão institucional significativa, pois, conforme as regras de procedimento do Parlamento, a votação sobre o consentimento do órgão em relação ao acordo deve ser suspensa até que o TJUE emita seu parecer, o que pode levar até dois anos. Assim, para os grupos políticos e representantes contrários ao acordo, esse adiamento é essencial para manter e aprofundar a mobilização.
Atualmente, o Parlamento Europeu conta com 720 eurodeputados, que se organizam em 8 grupos políticos, de acordo com suas filiações políticas e não com base em nacionalidade. Nesse contexto, vale ressaltar a posição de alguns desses grupos em relação ao acordo Mercosul-UE.
O grupo The Left, que conta com 46 membros, iniciou a escrita da resolução solicitando o parecer do TJUE, recebendo o apoio de 145 eurodeputados de outros grupos do Parlamento, com destaque para Greens/European Free Alliance (Greens/EFA), Socialists and Democrats (S&D), Group of the European People’s Party (EPP) e Patriots for Europe (Patriots). Juntos, mobilizaram o apoio de diversos outros representantes, o que levou à vitória da iniciativa.
O The Left aproximou, historicamente, representantes alinhados à esquerda. A defesa dos direitos dos trabalhadores foi uma constante de sua agenda e, atualmente, o grupo se posiciona contrariamente às políticas de austeridade, privatização e desregulamentação da UE que, como apontam, prejudicam os trabalhadores e favorecem o “big business”. É nessa chave que o The Left considera o acordo Mercosul-UE como o pior acordo de livre comércio já negociado pela UE: costurado às portas fechadas entre a Comissão Europeia e o Mercosul, afirma que o texto final foi imposto e que, portanto, não conta com apoio democrático.
Para o grupo, o acordo prejudicará trabalhadores e agricultores europeus, pois as regras trabalhistas, ambientais e sanitárias dos países do Mercosul diferem em grande medida das europeias, por exemplo, em questão de salários e uso de agrotóxicos que são proibidos na Europa. Ainda segundo o grupo, isso criará uma concorrência desleal de importações, as quais terão sido produzidas em condições que seriam consideradas ilegais no território da UE.
Curiosamente, um grupo alinhado à direita apresenta críticas semelhantes. Os Patriots for Europe, que conta atualmente com 86 representantes no Parlamento Europeu, advogam pela soberania nacional e opõem-se ao que chamam de “crescente centralização do poder da UE”. Também defendem medidas rigorosas contra a imigração ilegal para preservar a “identidade cultural” europeia, sob o lema “Make Europe Great Again”.
Nesse contexto, consideram que o acordo UE-Mercosul “constitui um ataque direto à segurança alimentar e à soberania alimentar europeias” e que a Comissão Europeia “contornou sistematicamente o escrutínio democrático” ao negociar dois instrumentos jurídicos distintos (ou seja, o EMPA e o ITA), de modo a evitar os procedimentos nacionais de ratificação e reduzir a supervisão dos parlamentos nacionais a uma mera formalidade.
Entrada em vigor em 1 de maio
Os membros do Mercosul receberam o bloqueio do Parlamento Europeu com cautela, mas enviaram o texto para ratificação parlamentar com sucesso. No Brasil, isso ocorreu em 17 de março de 2026. Entretanto, é importante destacar que o presidente Lula assinou, em 4 de março, o Decreto No. 12.866, que regulamentou mecanismos de salvaguarda comercial para proteger setores industriais e o agronegócio em casos de aumento repentino de importações, o que indica que tensões semelhantes às de diversos eurodeputados também são compartilhadas por aqui.
Apesar do entrave apresentado pelo Parlamento Europeu, o ITA entrou em vigor neste 1 de maio de 2026. Em relação ao EMPA, resta acompanhar os processos de ratificação nacional por parte dos 27 Estados-membros da UE, bem como o caminho até a emissão do parecer do TJUE e, finalmente, o posicionamento final do Parlamento e do Conselho Europeu.
Este texto está sob uma licença Creative Commons Atribuição-SemDerivações 4.0 Internacional. É permitida a reprodução total ou parcial do conteúdo sempre que a fonte original for citada.
Do lado europeu, a ratificação pelos 27 países-membros ainda percorrerá um verdadeiro labirinto institucional, marcado por críticas persistentes e protestos da sociedade civil, sobretudo de agricultores, além da forte oposição de lideranças políticas relevantes, como o francês Emmanuel Macron.
É importante recordar que, em 9 de janeiro, o Conselho Europeu – instituição que reúne os chefes de Estado e/ou de Governo da UE – deu o aval político ao Acordo UE–Mercosul, autorizando a Comissão Europeia, braço executivo do bloco, a proceder à sua assinatura com o Mercosul em 17 de janeiro, marcando a conclusão formal das negociações.
Porém, assim que a Argentina e o Uruguai ratificaram o Acordo UE-Mercosul, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, emitiu uma declaração de que “quando eles [os sul-americanos] estiverem prontos, nós [europeus] estaremos prontos”, confirmando que a UE adotará a “aplicação provisória”, mesmo diante de sua judicialização e dos vários protestos dentro do bloco.
O fato é que o acordo avançou de forma significativa, mas ainda está longe de alcançar sua implementação definitiva.
Para os europeus, o acordo é mais político-estratégico do que econômico
Em dois artigos anteriores, argumentamos que tanto a validação do Acordo UE–Mercosul quanto sua posterior confirmação foram impulsionadas pelas pressões tarifárias e pelo contexto geopolítico imposto pelos EUA.
Isto quer dizer que as ações constrangedoras de Trump levaram a UE a redirecionar suas energias diplomáticas para o cenário global, intensificando a negociação de vários acordos comerciais: com o Mercosul, a Índia, a Suíça, a Nigéria, a Austrália, a Malásia, o Canadá, entre outros.
Dessa maneira, o Acordo UE–Mercosul assume, para os europeus, um papel muito mais político-estratégico do que estritamente econômico.
Dados do International Trade Center (ITC) para o período de 2015 a 2024 indicam que, do ponto de vista europeu, o comércio com o Mercosul permanece relativamente limitado: as importações dos sul-americanos representaram, em média, 0,93% do total comprado pela UE, enquanto as exportações para o Mercosul corresponderam a cerca de 0,85%.
Por exemplo, em 2024, o último ano com dados consolidados, a UE registrou importações de US$ 6,62 trilhões e exportações de US$ 6,88 trilhões. Nessa corrente de comércio, que corresponde à soma desses fluxos, o Mercosul respondeu por apenas US$ 121,8 bilhões.
O Acordo UE–Mercosul pode, no longo prazo, ampliar a presença de bens e serviços sul-americanos no mercado europeu; porém, no curto prazo, seu impacto econômico tende a ser praticamente imperceptível para empresas e consumidores na UE.
Isso porque, no comércio internacional, novas relações levam tempo para se consolidar, uma vez que envolvem a negociação de novos contratos, a definição de estratégias de comercialização, a adaptação de rotas logísticas e a formação de novas redes de negócios que não existiam anteriormente.
Além disso, a UE depende muito mais da corrente de comércio de “dentro do bloco” (intra-UE) do que das trocas com parceiros externos (extra-UE).
Figura 1 – Corrente de Comércio da UE (2024) Fonte: International Trade Center (ITC). Elaborado por Filipe Prado Macedo da Silva.
Para os sul-americanos, o acordo é evidentemente econômico
Para os países do Mercosul – Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai – o acordo com a UE tem elevada relevância econômica.
Não por acaso, o processo negociador foi marcado por baixa resistência política interna e por limitada contestação dos setores produtivos, o que reflete um alinhamento amplo em torno dos potenciais ganhos de acesso a mercado e diversificação comercial.
Vale destacar que o Mercosul depende muito mais da corrente de comércio com parceiros externos (extra-Mercosul) do que com os países de “dentro do bloco” (intra-Mercosul).
De cada US$ 100 do comércio internacional do bloco sul-americano, sejam importações ou exportações, mais de US$ 80 correspondem a transações com parceiros externos. Esse dado evidencia o baixo nível de integração comercial intrabloco no Mercosul.
Em 2024, o Mercosul registrou importações de US$ 368,3 bilhões e exportações de US$ 451,8 bilhões. Nessa corrente de comércio, a UE respondeu por 16% das importações sul-americanas (US$ 59 bilhões) e por 13% dos destinos das exportações (US$ 60 bilhões).
É evidente que a UE possui maior relevância comercial para o Mercosul do que o Mercosul para a própria UE.
Figura 2 – Corrente de Comércio do Mercosul (2024) Fonte: International Trade Center (ITC). Elaborado por Filipe Prado Macedo da Silva.
É preciso ter cautela em relação aos benefícios econômicos
Longe da euforia política, o Acordo UE–Mercosul ainda tem um longo e sinuoso caminho de controvérsias a percorrer antes de se traduzir em benefícios econômicos concretos.
Além disso, ninguém sabe ao certo qual será a velocidade e a intensidade dos ganhos para o Mercosul. A materialização dos benefícios dependerá não apenas da entrada em vigor do acordo, mas também da capacidade dos países do bloco sul-americano de se adaptarem às regulações europeias, diversificarem suas exportações e consolidarem novas relações comerciais.
Portanto, mais do que um ponto de chegada, o acordo deve ser entendido como o início de um processo gradual, cujos resultados serão construídos ao longo do tempo.
Este texto está sob uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional. É permitida a reprodução total ou parcial do conteúdo sempre que a fonte original for citada.
Sociólogo e Doutor em Agronomia. Professor de Investigação (Catedrático) Aposentado do Consejo Superior de Investigaciones Científicas (Espanha).
Desde o começo das negociações, há 25 anos, o Acordo de Associação entre a União Europeia (UE) e o Mercosul tem sido, e continua a ser, um projeto louvável de cooperação transatlântica, cujo objetivo é criar uma ampla área de livre comércio (que pode representar quase 20% do PIB mundial) e desenvolver programas comuns de natureza não econômica, mas também política e social.
No entanto, como reflete o longo período de negociação, o processo não foi simples. Ao longo do tempo, o Acordo atravessou fases em que esteve prestes a ser aprovado e outras em que parecia ter sido abandonado, variando conforme as conjunturas políticas em ambos os blocos regionais.
A dificuldade associada a esse tipo de acordo – ambicioso em seus objetivos – reside em sua elevada complexidade, tanto política quanto econômica. Por um lado, são acordos de amplo alcance, que afetam uma vasta e diversificada gama de bens e serviços (não apenas agrícolas), muitos deles complementares, mas também outros que são concorrentes. Além do mais, incluem temas de cooperação política e cultural – relacionados a direitos humanos, migração, saúde, mudanças climáticas e bem-estar social – sobre os quais os governos nem sempre fecham consenso, em razão de sua evidente dimensão ideológica.
Por outro lado, a complexidade se intensifica quando há diferenças significativas no nível de desenvolvimento econômico entre os países ou blocos envolvidos, sobretudo quando uma economia é mais diversificada e a outra mais especializada. Nesses contextos, as reduções tarifárias implícitas nesses acordos podem gerar assimetrias na distribuição dos benefícios potenciais, alimentando uma narrativa de vitimização – com forte e eficaz carga emocional – entre os setores potencialmente afetados. Logo, tal narrativa costuma ser sintetizada no slogan “trocar vacas por carros” e instrumentalizada como uma espécie de “moeda de troca” no debate público.
Além disso, a dificuldade é ainda maior quando os acordos não são bilaterais (entre países), mas multilaterais (entre áreas regionais). Nesses casos, sua viabilidade depende da existência de níveis relativamente semelhantes de integração política e econômica entre as partes, de modo a possibilitar um diálogo efetivo entre suas instituições representativas e viabilizar um verdadeiro acordo de cooperação inter-regional. Caso contrário, o resultado tende a ser uma fragmentação do processo em múltiplos acordos bilaterais, nos quais, sob o pretexto do multilateralismo, cada país negocia isoladamente para defender seus próprios interesses, relegando o interesse geral do acordo a um segundo plano.
No caso do acordo multilateral UE–Mercosul, sua elevada ambição, tanto política quanto comercial, sua complexidade (afetando quase uma centena de bens e serviços) e o nível desigual de integração interna em cada bloco – significativamente mais avançado no caso da UE, em razão de sua trajetória mais longa como espaço politicamente integrado – ajudam a explicar as vicissitudes enfrentadas pelo processo de negociação e o inegável atraso em sua concretização.
Do lado europeu, a complexa estrutura de governança da UE tende a retardar os processos internos de tomada de decisão, uma vez que exige a participação obrigatória de múltiplas instituições europeias – Comissão, Parlamento, Conselho e, quando pertinente, o Tribunal de Justiça da UE – o que tem contribuído para a postergação da conclusão do Acordo.
A esse quadro soma-se a instabilidade política crônica de alguns países do Mercosul, que também dificulta a previsibilidade e a continuidade do processo de negociação.
Um acordo controverso
Agora que o Acordo foi assinado na capital paraguaia, Assunção (no sábado, 17 de janeiro), a controvérsia manteve-se intensa, com diversas reações nos círculos de opinião da UE quanto à sua conveniência e oportunidade.
Alguns observadores encaram o Acordo de forma positiva, não apenas pelos benefícios econômicos que acreditam que ele poderá gerar para os países signatários (benefícios que superariam eventuais desvantagens), mas também pelo potencial fortalecimento dos laços culturais entre os dois lados do Atlântico. Além disso, destacam o significado do Acordo como uma demonstração do compromisso da UE com o multilateralismo em um contexto global marcado pelo avanço do protecionismo e por uma tendência a um sistema cada vez mais regido pela lógica da força e pelo interesse nacional.
Outros, por sua vez, opõem-se abertamente ao Acordo, argumentando que a entrada de produtos latino-americanos isentos de tarifas, cujos custos de produção são inferiores aos europeus e cujos padrões ambientais seriam menos rigorosos do que os exigidos pela UE, poderia causar prejuízos significativos a determinados setores sensíveis. Essa posição é particularmente defendida por segmentos do setor agrícola, sobretudo por produtores com propriedades e sistemas produtivos mais vulneráveis à concorrência do Mercosul (como a pecuária), que têm liderado mobilizações e protestos.
Por trás do compreensível temor em relação ao futuro dos agricultores que rejeitam o Acordo, encontra-se um discurso corporativista, receoso da abertura dos mercados e da globalização econômica, e facilmente associável a narrativas populistas de várias matizes políticas (na verdade, os protestos mais recentes envolvendo tratores parecem ter sido organizados por grupos situados fora das principais organizações agrícolas).
Mas, outros segmentos veem o Acordo como uma oportunidade. Alguns agricultores, por exemplo, consideram que pode ampliar o acesso a mercados para determinados produtos agrícolas (como azeite e vinho, sobretudo aqueles com denominação de origem protegida e forte vínculo territorial). Paralelamente, o setor industrial em geral, incluindo a indústria alimentícia, também tende a avaliar o Acordo de forma positiva, entendendo-o como uma via de entrada em um amplo mercado consumidor, no qual podem expandir a oferta de produtos manufaturados, além de serviços diversos, como os financeiros, jurídicos e de consultoria.
As divergências em torno do Acordo deslocaram-se para a esfera política da UE, o que se reflete no fato de ele ter sido aprovado por maioria qualificada, e não por unanimidade, no Comitê de Representantes Permanentes dos Estados-Membros (COREPER), em 9 de janeiro.
É verdade que, graças a um artifício jurídico já utilizado em outras ocasiões, que consistiu em separar o pilar comercial do conjunto do Acordo UE–Mercosul, a aprovação desse pilar não exigiu unanimidade. Como as questões comerciais são de competência da Comissão Europeia, foi suficiente a obtenção de uma maioria qualificada.
Ainda assim, a rejeição por parte da França, Áustria, Hungria, Irlanda e Polônia, bem como a abstenção da Bélgica, refletem a divisão existente dentro da UE em relação a este Acordo.
O firme apoio da Espanha e o voto decisivo da Itália garantiram a aprovação do pilar comercial, com ambos os governos reforçando as cláusulas de salvaguarda e assegurando melhorias relevantes para os agricultores, especialmente, no que diz respeito aos auxílios previstos no âmbito da futura Política Agrícola Comum (PAC), cuja negociação coincidiu com a do Acordo com o Mercosul.
Na prática, o que foi assinado em 17 de janeiro, em Assunção, é o pilar comercial do Acordo, que ainda depende da aprovação do Parlamento Europeu para entrar em vigor.
Se passar por este filtro, como se prevê e salvo imprevistos, o pilar comercial com o Mercosul poderá ser implementado imediatamente. No entanto, sua vigência será provisória, uma vez que a plena entrada em vigor do Acordo depende da aprovação integral dos dois pilares, o político e o comercial, o que exigirá a ratificação por cada Estado-Membro da UE.
Em todo caso, e além de admitir sua inegável complexidade tanto em conteúdo quanto em procedimento, o Acordo UE-Mercosul se baseia em duas convicções e várias certezas, mas também levanta algumas dúvidas.
Duas convicções e várias certezas
A necessidade deste Acordo decorre da convicção, que partilho, de que, em uma economia de mercado, o comércio constitui a base da riqueza de uma nação e deve ser promovido em todos os setores econômicos. Logo, mercados abertos de bens e serviços funcionam como motores do desenvolvimento econômico e devem ser estimulados por meio de acordos que reduzam tarifas e permitam o livre fluxo de comércio entre os países.
O Acordo também tem sido elogiado por seu potencial de impulsionar a integração regional entre os países do Cone Sul da América Latina. Para aqueles que compartilham dessa perspectiva, esse impulso torna-se ainda mais relevante no contexto contemporâneo, diante da evidente estagnação do projeto de integração do Mercosul, que estabeleceu um arcabouço institucional limitado e, com exceção da Bolívia, não conseguiu despertar maior interesse entre outros países da região.
O acordo com a UE é visto, assim, como uma oportunidade para revitalizar esse projeto de integração regional, embora isso seja mais um desejo do que uma certeza , e não coincida com outras visões menos otimistas sobre o futuro do Mercosul, como discutirei mais adiante.
Em relação à questão econômica, é certo que, desde a sua criação no final da década de 1950, a vocação da UE sempre foi a de abrir as suas fronteiras ao comércio mundial, permitindo a entrada de produtos de outros países e a saída de produtos europeus para o mercado externo.
Além disso, todos reconhecem a importância real e inegável de criar um espaço comercial comum para mais de 740 milhões de consumidores entre países com raízes históricas compartilhadas e áreas econômicas complementares, o que se reflete nos estreitos laços culturais e comerciais entre as duas regiões. Vale lembrar que a UE exporta € 55 bilhões em bens e outros € 29 bilhões em serviços anualmente para os quatro países do Mercosul, o que representa quase 17% do comércio total do Mercosul.
Deste modo, convém salientar que o Acordo UE-Mercosul está em consonância com o compromisso da UE com o livre comércio, ao qual se deve acrescentar a certeza de fortes intercâmbios econômicos e os intensos laços de afinidade existentes entre muitos países de ambos os lados do Atlântico.
Algumas dúvidas
Mesmo diante das convicções e certezas mencionadas acima, a realidade é que, três décadas após o início do processo de negociação, o apoio ao Acordo UE–Mercosul está longe de ser unânime, como demonstra a já referida rejeição por parte de cinco Estados-Membros.
Com exceção do Brasil, que liderou o processo de negociação até seus momentos finais, o Acordo despertou pouco entusiasmo entre os governos dos países latino-americanos, que passaram a concentrar-se mais em como lidar individualmente com as políticas agressivas e divisivas do presidente Trump do que em promover a integração regional.
Diante desse cenário, alguns analistas avaliam que o Acordo UE–Mercosul chega tarde e em um momento particularmente complexo, sujeito a significativas pressões internas e externas. Isso levanta dúvidas quanto à sua viabilidade e ao impacto prático que poderá produzir nos países signatários.
Internamente, a UE de hoje é muito diferente do que era no início do século XXI, quando as negociações começaram. A maioria pró-europeia que impulsionou os principais projetos e a liderança que os orientou desapareceram; em vez disso, existe uma profunda divisão dentro da UE. Isso dificulta a obtenção de acordos entre os Estados-membros e, mesmo quando acordos são alcançados, como no caso do Acordo UE-Mercosul, eles são recebidos com a rejeição de países importantes, como a França (embora o fato de a unanimidade não ser exigida tenha permitido ao governo francês evitar o envolvimento em uma questão social altamente sensível na preparação para as próximas eleições presidenciais).
Tudo isso implica reconhecer que a busca por tal tipo de acordo, no contexto atual, acarreta um elevado custo político, na medida em que tensiona a vida política interna da UE e alimenta o populismo de diferentes matizes, enraizado na retórica antiglobalização e no recrudescimento do nacionalismo, fenômenos fortemente associados ao trumpismo. Reconhecer esse fato não significa interromper os projetos da UE, mas sim admitir a necessidade de conduzi-los com máxima cautela.
Além disso, a UE contemporânea está mais concentrada na ameaça proveniente do Leste (associada à Rússia de Putin), e mais preocupada com questões de defesa, especialmente após o distanciamento dos EUA de seu papel histórico como parceiro central da Otan. Isso ajuda a explicar o menor interesse dos países da fronteira oriental da UE em um acordo que tende a ser mais relevante para os países da fronteira ocidental. Com exceção da Espanha e de Portugal, por razões históricas, e em certa medida da Itália, os demais Estados-Membros não têm investido grande capital político em um acordo que percebem como periférico aos seus interesses estratégicos.
Do lado do Mercosul, a cooperação regional encontra-se enfraquecida e praticamente estagnada, limitada a quatro países (Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil), que pouco avançaram na construção da estrutura institucional necessária para tornar o projeto de integração uma realidade e torná-lo atraente para outros países da região (o desinteresse do Chile e da Colômbia, que não vão além do status de países associados, é emblemático, sobretudo em razão da relevância desses países no contexto regional).
Assim, alguns analistas, contrariamente às posições mais otimistas, sugerem se não seria mais conveniente estabelecer acordos bilaterais entre a UE e cada um dos países do Cone Sul.
Em termos de contexto internacional, o Acordo surge num momento em que a influência da China na América Latina é inegável e em que o imperialismo estadunidense volta a impor a sua presença no continente latino-americano.
É por isso que alguns analistas duvidam que um acordo regional como o UE-Mercosul possa contrariar tal presença. Talvez pudesse há 30 anos, mas acreditam que dificilmente conseguirá fazê-lo agora, com os países divididos por profundas diferenças ideológicas (basta pensar nas diferenças entre o governo brasileiro de Lula e o governo argentino de Milei), e sob as pressões rígidas de Trump e as pressões indiretas de Xi Jinping.
Em todo caso, considerando que a UE esteve empenhada por 25 anos no esforço hercúleo de viabilizar o Acordo, sua aprovação constitui uma boa notícia, uma vez que o fracasso teria transmitido uma mensagem negativa sobre o papel da UE no cenário internacional.
Considerações finais
Não há dúvida de que a UE precisa diversificar suas relações internacionais e ampliar sua abertura a outros espaços regionais, especialmente em um contexto global no qual muitos países tendem a se retrair em torno das fronteiras nacionais e a relativizar as regras multilaterais de comércio e cooperação.
No entanto, a UE não deve esquecer que o seu próprio espaço geopolítico, com quase 500 milhões de habitantes e um sistema de valores baseado na democracia, no respeito aos direitos humanos e no bem-estar de seus cidadãos, é suficientemente amplo e relevante para sustentar políticas estratégicas de autonomia. Essas políticas devem conciliar a cooperação com outras regiões e a preservação de seu modelo político, econômico e social.
O pilar comercial do Acordo com o Mercosul, que ainda requer a aprovação do Parlamento Europeu, cumpre um propósito relevante, em consonância com o compromisso da UE com o livre comércio. O pilar de cooperação política é igualmente valioso, pois está alinhado com o histórico compromisso europeu de contribuir para o fortalecimento de espaços de liberdade e democracia em outras regiões do mundo.
A assinatura do Acordo representa, portanto, uma mensagem ao mundo de que a UE segue comprometida com a cooperação entre países e áreas regionais, ainda que isso envolva riscos. Por essa razão, e para minimizar os prejuízos que tal tipo de acordo sempre acarreta para certos setores da população (neste caso, os agricultores, embora não exclusivamente), sua implementação deve ser acompanhada das devidas precauções.
Nesse sentido, destacam-se as cláusulas de salvaguarda incluídas no texto final para mitigar eventuais quedas de preços de certos produtos, consideradas as mais abrangentes já adotadas pela UE. Da mesma forma, a exigência do cumprimento obrigatório das normas de saúde e segurança alimentar para produtos provenientes do Mercosul, assim como da legislação trabalhista, constitui uma garantia fundamental para preservar condições de concorrência equitativas entre os produtores das duas regiões.
O fato de o Acordo se tornar uma boa oportunidade para avançar nas relações entre a UE e os países do Mercosul, e não uma fonte de discórdia que prejudique a já frágil coesão interna da Europa, depende da conciliação entre, por um lado, a abertura comercial e, por outro , a autonomia estratégica , as exigências ambientais e a segurança e saúde alimentar.
Este texto está sob uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional. É permitida a reprodução total ou parcial do conteúdo sempre que a fonte original for citada.
Professor e Pesquisador da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
Quando o Conselho Europeu – a instituição da União Europeia (UE) que reúne os Chefes de Estado e/ou de Governo dos 27 países-membros – confirmou politicamente a aprovação do Acordo UE-Mercosul, em 9 de janeiro de 2026, tornou-se evidente o ambiente paradoxal no qual a Europa passou a operar.
Diante deste cenário, os líderes europeus optaram por relativizar as pressões internas de seus agricultores e priorizar as ameaças externas dos EUA, deslocando o eixo decisório do plano doméstico para o plano sistêmico. A mudança mais relevante foi no voto da Itália.
Assim, colocaram em prática o que a literatura de Relações Internacionais denomina de realismo neoclássico, segundo o qual o Estado – ou, no caso europeu, a UE enquanto ator político composto – formula suas escolhas estratégicas a partir das pressões do sistema internacional, ainda que tais escolhas impliquem custos políticos internos significativos.
Neste enquadramento, os conflitos domésticos não desaparecem, mas são tratados como variáveis de ajuste. Logo, a preservação da posição internacional, a autonomia estratégica e a capacidade de resposta a ameaças externas passa a constituir a prioridade central da ação política.
Trump como choque sistêmico e a lógica estratégica da diversificação
O realismo neoclássico sustenta que o sistema internacional impõe pressões estruturais que orientam o comportamento dos atores políticos, mas cuja tradução em política externa depende da interpretação das lideranças e dos filtros institucionais domésticos.
No caso europeu, a presidência Trump operou como um choque sistêmico: ao atacar o multilateralismo, instrumentalizar guerras tarifárias inclusive contra aliados e condicionar a cooperação internacional a ganhos imediatos. Dessa maneira, os EUA deixaram de atuar como parceiro estratégico e passaram a se comportar como um parceiro constrangedor, politicamente coercitivo e estrategicamente imprevisível.
O Mercosul emerge, neste sentido, como parceiro lógico. Mais do que um tratado comercial, o Acordo UE–Mercosul é um instrumento geopolítico, ampliando mercados, assegurando insumos estratégicos e projetando normas europeias nos países sul-americanos.
Ao aprová-lo, os líderes reunidos no Conselho Europeu concluíram que o custo estratégico da inação superava os custos políticos internos, admitindo que a pressão sistêmica externa passou a orientar a política comercial europeia, acima de interesses setoriais específicos.
Conflitos domésticos e a administração dos custos políticos
No realismo neoclássico, os conflitos domésticos não desaparecem: atuam como filtros, atrasos e custos políticos.
Assim sendo, a oposição dos agricultores europeus foi intensa e relevante, mobilizando protestos, pressionando parlamentos nacionais e fortalecendo discursos protecionistas. Em uma leitura liberal (ou até pluralista), tal resistência poderia bloquear o acordo.
O que se observa, porém, é um padrão distinto: a contestação interna não alterou a decisão estratégica, apenas condicionou sua implementação.
A resposta da UE seguiu três mecanismos clássicos. Primeiro, a dilatação temporal, com adiamentos e renegociações pontuais. Segundo, a compensação, por meio do reforço da Política Agrícola Comum (PAC), fundos de ajuste e cláusulas de salvaguarda. Terceiro, a reformulação discursiva, enquadrando o Acordo UE–Mercosul como um instrumento de defesa estratégica do projeto de integração europeu, e não só de liberalização comercial.
Tal dinâmica confirma que a política externa resulta da interação entre pressões sistêmicas e estruturas domésticas. Os agricultores não definiram o rumo da decisão, mas o custo político de sua execução.
A aprovação do acordo, mesmo sob contestação, tornou-se parte de um jogo estratégico, no qual a UE busca preservar credibilidade, reduzir dependências e afirmar sua autonomia em um sistema internacional tensionado.
Este texto está sob uma licença Creative Commons Atribuição-SemDerivações 4.0 Internacional. É permitida a reprodução total ou parcial do conteúdo sempre que a fonte original for citada.
Professor e Pesquisador da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
Quando a Comissão Europeia – o braço executivo da União Europeia (UE) e a responsável oficial por negociar acordos comerciais em nome dos 27 países-membros – recomendou a adoção do Acordo UE-Mercosul, em 2 de setembro de 2025, começaram novas ondas de protestos agrícolas dentro do bloco europeu.
Agora, o objetivo dos agricultores europeus é pressionar os líderes políticos reunidos no Conselho Europeu (entre 18 e 19 de dezembro de 2025) e, se possível, adiar a viagem de Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeu, à cúpula do Mercosul (prevista para sábado, 20 de dezembro de 2025, no Brasil).
Ainda assim, as contradições internas europeias persistem e precisam ser enfrentadas. Em primeiro lugar, é essencial tratar o Acordo UE–Mercosul como uma estratégia econômica de alcance continental; em segundo, torna-se indispensável superar visões equivocadas sobre a agricultura sul-americana.
Em nível europeu, o Acordo UE-Mercosul é estratégico
Assim, geopoliticamente, diante de uma política externa norte-americana cada vez mais volátil e orientada por interesses unilaterais – que transformou os EUA em um parceiro constrangedor para a UE – o fortalecimento dos laços com o Mercosul permite diversificar mercados, ampliar sua autonomia geoeconômica e criar uma alternativa à dependência de Washington (a mesma lógica se aplica a Pequim), reforçando a capacidade de negociação multilateral da UE em um bloco com 780 milhões de consumidores.
Agricultores em protesto, mas baseados em “premissas equivocadas”
Agricultores da UE opõem-se ao acordo com o Mercosul sob o argumento de que o pacto os exporia à concorrência desleal, ao abrir o mercado europeu a produtos agrícolas sul-americanos mais baratos, supostamente produzidos sob padrões ambientais, sociais e sanitários menos rigorosos. O temor central recai sobre a entrada de carne bovina, frango, açúcar e soja, que poderiam competir diretamente com a produção europeia e exercer pressão significativa sobre as estruturas produtivas locais.
No entanto, tais protestos partem de premissas distorcidas e equivocadas acerca de como a agricultura europeia pode se interrelacionar com a agricultura sul-americana. Vejamos o caso emblemático da carne bovina (a análise pode ser estendida a outros produtos).
O Acordo UE-Mercosul já prevê cotas limitadas para produtos sensíveis – como a carne bovina — e não uma abertura irrestrita do mercado. Para se ter uma ideia, em 2024, o valor produzido pelo mercado bovino representava 7% da produção agrícola total da UE. Pelo texto original – sem as novas salvaguardas – as importações preferenciais (sem tarifas ou reduzidas) de carne do Mercosul – por exemplo, do Brasil e Argentina – seriam limitadas a uma fração da produção da UE (por exemplo, cerca de 1,5% no caso da carne bovina, o que corresponde a aproximadamente 99 mil toneladas por ano).
O segundo equívoco é afirmar que os produtos sul-americanos não atendem a padrões sanitários e ambientais rigorosos. No caso da carne bovina, os principais exportadores da região já se adequam às exigências europeias de sanidade e rastreabilidade desde os anos 1990, após a crise da “vaca louca”. Ademais, o novo regulamento sobre desmatamento – previsto para 2026, possivelmente adiado para 2027 — imporá controles adicionais a todos os exportadores para o mercado da UE, especialmente no setor bovino.
Por fim, a agricultura europeia e a sul-americana não concorrem no mesmo segmento de mercado. O Mercosul é especializado na produção de commodities em larga escala, com foco, por exemplo, em carne bovina congelada, soja e frutas tropicais. Já a UE se destaca pela diversidade e qualidade de seus produtos com inúmeras “denominações de origem”, circuitos curtos e produtos agro industrializados de alto valor agregado – como vinhos, queijos, azeites e frutas premium (de climas mais frios).
Portanto, o consumidor que compra um vinho Bordeaux, um Roquefort francês ou um presunto de Parma não substitui tais produtos por carne congelada vinda da Argentina ou do Brasil. Trata-se de nichos agrícolas diferentes e, em alguns casos, complementares em uma cadeia agroalimentar global.
Entre os tratores em Bruxelas e a persistência de “mitos” comerciais, a EU precisa mostrar a seus agricultores que os custos desta rejeição não recaem apenas sobre diplomatas e negociadores, mas sobretudo sobre o próprio campo europeu, que abdica de influência estratégica de longo prazo em troca de uma proteção frágil, simbólica e passageira no curto prazo.
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