O partido húngaro Tisza venceu as eleições parlamentares de 12 de abril, encerrando os 16 anos de Viktor Orbán como primeiro-ministro. O resultado representa um verdadeiro abalo sísmico na política interna da Hungria, mas também marca um desenvolvimento relevante na trajetória das relações do país com a União Europeia (UE).
Ao longo de seu mandato, sobretudo desde a invasão russa da Ucrânia em 2022, Orbán tornou-se uma constante fonte de atrito para a UE. Ele desrespeitou normas, valores e legislações europeias enquanto promovia o que denominava um “Estado iliberal”.
Um exemplo emblemático foi sua decisão, em 2011, de reduzir a idade de aposentadoria compulsória de juízes e promotores de 70 para 62 anos. A medida forçou a aposentadoria de grande parte do Judiciário, abrindo espaço para nomeações alinhadas ao governo. Em 2013, o Tribunal de Justiça da UE se posicionou contra essa mudança, mas muitos dos indicados por Orbán permaneceram em seus cargos.
A persistente postura de confronto de Orbán em relação às políticas da UE acabou levando à suspensão de seu partido – o Fidesz – da coalizão do Partido Popular Europeu (PPE) no Parlamento Europeu, culminando em sua saída definitiva dois anos depois. Em 2022, a decisão da Comissão Europeia de reter € 30 bilhões em fundos destinados à Hungria agravou ainda mais o distanciamento entre as partes.
Posteriormente, Orbán buscou explorar a necessidade de consenso dentro da UE para apoiar a Ucrânia e sancionar a Rússia. Neste sentido, a postura húngara de obstrução tornou-se recorrente, a ponto de o país ser descrito por algumas lideranças europeias como desalinhado dos interesses da UE e da Ucrânia no que diz respeito à Rússia.
Em uma referência pouco disfarçada a Orbán, durante um discurso no Parlamento Europeu em 2024, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou: “Ainda há quem atribua esta guerra não ao agressor, mas ao agredido; não à ambição de poder de Putin, mas ao anseio de liberdade da Ucrânia. Pergunto, então: culpariam os húngaros pela invasão soviética de 1956?”
Um dos momentos mais críticos nas relações entre a UE e a Hungria ocorreu no início de abril de 2026, quando gravações de áudio vazadas revelaram que Orbán e seu ministro das Relações Exteriores, Péter Szijjártó, mantinham coordenação ativa com o governo de Putin. Os áudios indicam que Szijjártó usava intervalos em reuniões ministeriais confidenciais da UE para telefonar ao seu homólogo russo, Sergei Lavrov, informando-o sobre o andamento das discussões internas.
Szijjártó também é acusado de compartilhar documentos confidenciais relacionados às exigências sobre línguas minoritárias nas negociações de adesão da Ucrânia à UE. O ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot, classificou o episódio como uma “traição”. Caso Orbán tivesse vencido as eleições, as relações entre a UE e a Hungria poderiam ter alcançado um ponto de ruptura.
Ruptura ou continuidade?
Diante desse cenário, é plausível que autoridades da UE tenham recebido o resultado eleitoral com alívio. O primeiro-ministro eleito, Péter Magyar, tem fortes incentivos para restabelecer as relações com o bloco – ainda que impulsionado, em grande medida, pela necessidade de desbloquear cerca de € 17 bilhões em fundos europeus. Um ambiente de maior estabilidade também ampliaria o acesso a outros € 17 bilhões em empréstimos para defesa em condições mais favoráveis.
Considerando as implicações econômicas globais da guerra no Irã e os custos associados à reforma e ao desmantelamento do sistema oligárquico construído por Orbán, o novo governo dependerá desses recursos para aliviar pressões fiscais significativas.
No entanto, o desbloqueio dos fundos está longe de ser automático. Ursula von der Leyen já deixou claro que reformas estruturais serão necessárias e apresentou ao futuro governo húngaro um conjunto de 27 condições a serem cumpridas.
Algumas dessas exigências tendem a ser mais facilmente implementadas. O combate à corrupção, por exemplo, foi um ponto central do programa do partido Tisza. Por outro lado, reformas ligadas a direitos LGBTQ+ e políticas de asilo – áreas que também motivaram a suspensão dos recursos – podem gerar custos políticos mais elevados.
A sociedade húngara permanece profundamente conservadora e mais eurocética que a média da UE. Segundo pesquisa de 2025 encomendada pela Comissão Europeia, apenas 55% dos húngaros consideram positiva a adesão do país ao bloco, abaixo da média europeia de 62%. Reformas percebidas como contrárias aos valores nacionais podem, portanto, enfrentar resistência interna significativa.
Um dos aspectos mais relevantes será a posição de Magyar em relação à guerra na Ucrânia. Ele já sinalizou interesse em reaproximação com Kiev, como parte de uma estratégia mais ampla de realinhamento com a UE e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Entre suas declarações, destacou-se a retirada do veto húngaro a um empréstimo de € 90 bilhões da UE à Ucrânia.
Ainda assim, há indícios de continuidade em relação à política de Orbán. Magyar afirmou que pretende manter a importação de energia russa pelo menos até 2035 e que qualquer eventual adesão da Ucrânia à UE deverá ser submetida a referendo.
Em um contexto em que pesquisas indicam que 50% dos eleitores – e 36% dos eleitores do Tisza – veem a Ucrânia como uma ameaça, um referendo desse tipo teria grande potencial de comprometer o processo de adesão ucraniano.
Sem dúvida, a queda de Orbán representa um avanço positivo nas relações entre a UE e a Hungria. No entanto, apesar do compromisso declarado de Magyar em reconstruir uma relação cooperativa, tal processo deverá enfrentar obstáculos relevantes nos próximos meses e anos.
Este texto foi originalmente publicado no The Conversation.
Tradução revisada por Filipe Prado Macedo da Silva.

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