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  • 13 de março de 2026
    Insights
    Conflito no Oriente Médio pode estimular novos radicalismos contra as instituições europeias

    Conflito no Oriente Médio pode estimular novos radicalismos contra as instituições europeias

    PALAVRAS-CHAVE Geopolítica, Guerra, Oriente Médio, Radicalismo, União Europeia

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    Filipe Prado Macedo da Silva

    Professor e Pesquisador do Instituto de Economia e Relações Internacionais (IERI) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Analista Internacional de Europa e União Europeia. Líder do “Conexão Bruxelas | Grupo de Estudo sobre Europa e União Europeia”. E-mail institucional: filipe.prado@ufu.br


    A escalada recente dos conflitos no Oriente Médio, envolvendo confrontos entre os EUA-Israel e o Irã, entrou na sua segunda semana.

    Longe de qualquer previsão de solução no curto prazo – Washington sinaliza que a guerra está acabando, enquanto Tel Aviv e Teerã afirmam que as ofensivas continuam – as tensões no Oriente Médio já produzem efeitos diplomáticos, econômicos e sociais adversos, e, ao que tudo indica, ultrapassarão as fronteiras da região.

    Em geral, crises no Oriente Médio se traduzem em polarização política, intensificação dos discursos ideológicos e fortalecimento dos movimentos radicais dentro da Europa.

    Vale lembrar que as tensões militares com o Irã se somam às externalidades negativas já produzidas pela invasão russa da Ucrânia – iniciada em 2022 – e pela intensificação da ocupação israelense nos territórios palestinos – desde 2023.

    Todas essas tensões externas acabam catalisando disputas políticas e concentrando a atenção do debate público europeu, mesmo sem o envolvimento formal da União Europeia (UE) e/ou a participação militar direta de qualquer um dos seus 27 países-membros.

    Em termos práticos, esse novo ciclo de instabilidade envolvendo os EUA-Israel e o Irã pode desencadear duas dinâmicas simultâneas: o fortalecimento de radicalismos internos na Europa, especialmente entre movimentos nacionalistas; e a possibilidade de rearticulação de redes extremistas transnacionais.

    UE não apoia o conflito e não possui prerrogativa de defesa

    Para compreender o impacto político desse conflito na Europa, é fundamental considerar a própria estrutura institucional da UE. Diferentemente de Estados nacionais, a UE não possui um exército próprio nem prerrogativa plena de defesa coletiva.

    Atualmente, Bruxelas possui um Comissário para a Defesa e o Espaço, mas a sua função é muito mais estratégica (articulação e financiamento) do que operacional. Isto quer dizer que a operacionalização da política de defesa continua sendo competência primária dos países-membros e das alianças militares que participam, principalmente, da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

    Isso significa que eventuais decisões militares relacionadas ao conflito no Oriente Médio não são tomadas pela UE como bloco, mas por governos nacionais.

    É importante destacar que, no calor dos primeiros bombardeios, em 28 de fevereiro, a UE “apelou para que todas as partes envolvidas atuem com a máxima contenção, protejam os civis e respeitem integralmente o direito internacional”. Posteriormente, em 10 de março, António Costa, presidente do Conselho Europeu, apelou que todas as partes “regressem à mesa das negociações”.

    Portanto, a UE não endossa as ações militares de nenhuma das partes envolvidas, ainda que EUA e Israel sejam parceiros estratégicos de vários de seus países-membros. Inclusive, declararam apoio ao povo iraniano (e não ao regime dos aiatolás) lamentando as perdas de vidas humanas (com destaque para as 165 meninas mortas em uma escola).

    O problema é que os líderes europeus que integram a UE estão com dificuldades em adotar uma posição unificada sobre o conflito no Oriente Médio.

    Alguns países europeus, como a Espanha e a Itália, não apoiam a ofensiva e resistem à possibilidade de que bases militares em seus territórios sejam utilizadas nas operações relacionadas ao conflito. Esses países questionam a legitimidade dos ataques ao Irã.

    Outros países europeus, como a França, a Polônia e a Alemanha, mantêm forças militares e equipamentos em estado de prontidão para eventuais “medidas defensivas”, caso sejam diretamente atingidos. Ainda não há evidências de planejamento para uma participação militar direta, embora Reino Unido, França e Alemanha já considerem possíveis medidas de retaliação. Esses governos também evitaram questionar explicitamente a legalidade dos ataques, adotando uma postura evasiva, em relação ao direito internacional.

    Até o momento, a única medida coordenada entre países europeus foi o envio de forças militares – provenientes da Grécia, França, Itália e Espanha – para reforçar a proteção do Chipre, após uma base aérea britânica na ilha ter sido atingida por um drone. Cabe lembrar que o Chipre é membro da UE e também integra a zona do euro.

    Essa complexidade nem sempre fica evidente no debate público. Em crises internacionais, a UE pode ser percebida como parte de um “bloco ocidental”, sobretudo, quando alguns de seus países-membros se alinham aos EUA-Israel.

    Isso pode transformar instituições da UE em alvos simbólicos de críticas ou de protestos, mesmo sem participação direta no conflito; além de expor a tensão entre a diplomacia comum da UE, sob a responsabilidade de Kaja Kallas, e as políticas externas e de defesa próprias de seus países-membros.

    Riscos de radicalismo interno: a extrema-direita europeia

    O primeiro tipo de radicalização potencial ocorre dentro da própria Europa.

    Crises internacionais intensificam debates sobre segurança, imigração, identidade cultural e soberania nacional. Temas frequentemente explorados por partidos e por movimentos de extrema-direita.

    A guerra no Oriente Médio pode alimentar narrativas que associam instabilidade externa a ameaças internas, reforçando discursos sobre controle fronteiriço, restrições migratórias e fortalecimento do Estado nacional.

    Nesse contexto, a UE passa a ser retratada por esses grupos como uma instituição fraca ou incapaz de proteger os cidadãos, o que favorece o aumento de posições eurocéticas ou contra a integração.

    Esse fenômeno não é novo: a crise migratória de 2015–2016, desencadeada pela guerra civil na Síria, foi amplamente instrumentalizada por movimentos nacionalistas europeus.

    Se a atual instabilidade no Oriente Médio se prolongar, a polarização política no continente poderá se aprofundar, ampliando o espaço para discursos radicais contra as instituições europeias.

    Riscos de radicalismo externo: novas ondas de terrorismo jihadista

    O segundo risco está ligado à possibilidade de radicalização transnacional estimulada por conflitos no Oriente Médio. Guerras que envolvem atores regionais e potências ocidentais frequentemente produzem narrativas ideológicas exploradas por extremistas.

    Ao longo das últimas décadas, grupos extremistas jihadistas usaram esses conflitos como instrumento de propaganda global.

    O exemplo mais evidente foi a ascensão do Estado Islâmico durante a guerra civil na Síria, quando o grupo conseguiu transformar um conflito regional em uma narrativa mobilizadora capaz de inspirar ataques terroristas em Bruxelas, a capital da UE.

    Nesse contexto, a escalada de tensões envolvendo o Irã pode reativar diferentes correntes ideológicas dentro do universo jihadista. Por essa razão, a Europol (a Agência da UE para a Cooperação Policial) já emitiu um alerta para o aumento do risco de ameaças terroristas no bloco.

    Isso porque as ameaças do Irã à Europa podem desencadear uma nova escalada de terrorismo jihadista. Teerã já alertou que países europeus também poderão se tornar “alvos” se apoiem militarmente os EUA e Israel.

    Assim, conflitos externos podem gerar efeitos indiretos na Europa, ampliando riscos de radicalização ideológica e de ataques isolados.

    O fato é que a instabilidade geopolítica e econômica já está em curso.

    Este texto está sob uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional. É permitida
    a reprodução total ou parcial do conteúdo sempre que a fonte original for citada.


    Insights nº 27 | Artigo em PDF

  • 12 de março de 2026
    Redes Sociais

    Reflexão: Ordem internacional está ameaçada

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  • 11 de março de 2026
    Insights
    Acordo UE–Índia: comércio estratégico em uma ordem mundial fragmentada

    Acordo UE–Índia: comércio estratégico em uma ordem mundial fragmentada

    PALAVRAS-CHAVE Índia, Comércio Internacional, Política Comercial, Política Externa, União Europeia

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    Sangeeta Khorana

    Professora de Política de Comércio Internacional na Aston University (Reino Unido).


    O acordo de livre comércio entre a União Europeia (UE) e a Índia, recentemente concluído, destaca-se por sua escala e ambição. Apelidado de “a mãe de todos os acordos” pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o acordo surge em um momento simbólico: a Índia ultrapassou o Japão e tornou-se a quarta maior economia do mundo.

    O comércio bilateral de bens e serviços entre a UE e a Índia já movimenta cerca de € 180 bilhões. O acordo pretende dobrar as exportações europeias para o mercado indiano até 2032 e criar uma área de livre comércio que abarque aproximadamente um quarto da população mundial (quase dois bilhões de pessoas) e por cerca de 25% do PIB global.

    Em um momento histórico no qual o sistema multilateral de comércio está sob pressão crescente, caracterizado por tarifas, rivalidades geopolíticas e fragmentação econômica, o acordo UE–Índia oferece uma forte mensagem: a era do comércio internacional não chegou ao fim.

    O que se observa, na verdade, é uma adaptação às novas realidades globais. Em vez de abandonar o livre comércio, os países tornaram-se mais seletivos, priorizando acordos bilaterais com parceiros estratégicos. Um exemplo disso é o acordo comercial firmado pelo Reino Unido com a Índia em julho de 2025.

    Tradicionalmente, acordos de livre comércio estabelecem regras sobre como dois ou mais países devem se relacionar no que diz respeito a importações, exportações, investimentos e outras atividades econômicas.

    Porém, analisar o acordo UE–Índia sob a ótica do livre comércio clássico seria equivocado. Os acordos das décadas de 1990 e do início dos anos 2000, como o Nafta ou os primeiros acordos da UE, foram impulsionados por reduções tarifárias e ganhos de eficiência. O acordo UE–Índia, por sua vez, foi moldado por pressões geopolíticas e por preocupações crescentes com a resiliência diante de choques comerciais e crises sistêmicas.

    O lento processo de negociação

    As negociações comerciais entre a UE e a Índia começaram em 2007, mas só ganharam novo impulso em 2025, em meio à retomada das ameaças tarifárias por parte dos EUA durante o segundo mandato de Donald Trump.

    Esse contexto aprofundou os desequilíbrios comerciais entre a UE e a China, em razão da estratégia chinesa de maior autossuficiência e da adoção de controles de exportação. Além disso, reforçou as preocupações quanto à vulnerabilidade das cadeias globais de suprimentos. A constituição do Conselho de Comércio e Tecnologia UE–Índia, em 2023, inspirado no modelo UE–EUA, ilustra assim como os acordos comerciais contemporâneos passaram a integrar objetivos econômicos, tecnológicos e estratégicos.

    Em um momento de crescente protecionismo e intensificação da rivalidade geopolítica, o acordo UE–Índia representa uma oportunidade de recalibrar o alinhamento comercial. O acordo também abre espaço para repensar a arquitetura do comércio internacional, ao mesmo tempo em que fortalece a resiliência das cadeias de suprimentos na Ásia, na Europa e no Atlântico.

    Para a UE, o acordo é um pilar central da estratégia de diversificação econômica. Por isso, tornou-se urgente reduzir a dependência em relação à China, atualmente o maior parceiro comercial do bloco.

    Em 2024, mais de 21% das importações da UE tiveram origem na China, enquanto apenas 8,3% das exportações europeias foram para o mercado chinês. Esse desequilíbrio resultou em um déficit comercial de € 304 bilhões com a China.

    Logo, o acordo com a Índia oferece à UE a possibilidade de mitigar sua dependência excessiva da China, reduzir riscos nas cadeias de suprimentos e garantir acesso a um mercado consumidor em rápida expansão. Para as empresas europeias, isto representa oportunidades de crescimento na Ásia em um período marcado pela desaceleração e estagnação da demanda interna no bloco.

    O acordo também facilita a diversificação de fornecedores e a criação de bases produtivas alternativas em momentos de ruptura das cadeias globais. A posição estratégica da Índia no Indo-Pacífico reforça seu valor para a UE, dada a crescente importância das rotas marítimas e da interdependência econômica regional. Isso torna o país um parceiro-chave diante das incertezas sobre o futuro das relações transatlânticas com os EUA.

    Para a Índia, o acordo garante acesso a um mercado estável em um contexto de crescente volatilidade internacional – especialmente após o agravamento das tensões com os EUA, desencadeadas pela ameaça de tarifas de até 500% anunciadas por Trump.

    O acordo eliminará tarifas sobre têxteis e vestuário, oferecendo aos produtores indianos um parceiro comercial confiável quando entrar em vigor. Marcas europeias como Zara e H&M poderão diversificar sua produção, reduzindo a dependência da China e fortalecendo polos industriais indianos. Estima-se que os custos de produção na Índia sejam reduzidos, uma vez que o acordo isentará as peças de vestuário de tarifas.

    O setor farmacêutico também se destaca como uma área promissora. Embora as tarifas da UE já sejam relativamente baixas, o acordo busca simplificar regulações e fortalecer os regimes de propriedade intelectual, o que integrará de forma mais eficiente os produtores indianos de medicamentos genéricos às cadeias de suprimentos de saúde europeias.

    O escopo do acordo vai além de bens, serviços e investimentos. A cooperação em energia limpa alinha o Pacto Ecológico Europeu (estratégia do bloco para alcançar a neutralidade climática) à meta indiana de instalar 500 gigawatts de capacidade renovável até 2030. Isto abre caminho para uma liderança conjunta em áreas como energia solar, energia eólica, redes elétricas e hidrogênio verde.

    Em síntese, o acordo UE–Índia não representa um retorno à ortodoxia do livre comércio, nem sinaliza seu declínio definitivo na atual ordem global fragmentada. Ele evidencia, antes, como o comércio internacional evoluiu para ser uma ferramenta estratégica de geopolítica e segurança econômica. Assim, os mercados continuam se abrindo – de forma seletiva, cautelosa e orientada por interesses estratégicos. Isto reflete uma nova geração de acordos comerciais moldados tanto pelo acesso a mercados quanto pela busca de resiliência e autonomia econômica.

    Este texto foi originalmente publicado no The Conversation.
    Traduzido por Filipe Prado Macedo da Silva.

    Este texto está sob uma licença Creative Commons Atribuição-SemDerivações 4.0 Internacional. É permitida
    a reprodução total ou parcial do conteúdo sempre que a fonte original for citada.


    Insights nº 26 | Artigo em PDF

  • 5 de março de 2026
    Redes Sociais

    Publicação no Interesse Nacional

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  • 4 de março de 2026
    Redes Sociais

    Análise: Por que a Ucrânia ainda não entrou na UE?

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