A União Europeia (UE), no conjunto dos seus países-membros, deveria ocupar uma posição de destaque como força geopolítica no cenário internacional. Em 2024, a UE era a segunda maior economia do mundo, atrás dos EUA e à frente da China.
A importância dessas três potências também se manifesta na intensidade de suas relações comerciais. Em 2025, o comércio bilateral entre os EUA e a China alcançou US$ 414 bilhões (£ 307 bilhões). No mesmo ano, as relações comerciais entre a UE e os EUA representaram um terço do comércio global, com um volume de € 1,77 trilhão (£ 1,53 trilhão).
Diante desses números, a ideia frequentemente evocada de um “Grupo dos Dois” (G2), no qual EUA e China funcionariam como uma espécie de comitê conjunto responsável por conduzir os rumos do planeta, parece insuficiente. Na realidade, seria necessário falar em um G3, no qual a Europa também estivesse presente.
Há mais de 30 anos, minha pesquisa examina as relações entre China, Europa e EUA. Ao longo desse período, essas três potências têm demonstrado uma tendência a tratar suas relações de forma separada e compartimentada, quase sempre em prejuízo da Europa. Tal comportamento tornou-se ainda mais evidente durante os dois mandatos do presidente norte-americano Donald Trump.
Quando EUA e China se reúnem, a Europa geralmente fica à margem das discussões, assim como os demais atores internacionais, tentando acompanhar as decisões tomadas por Washington e Pequim. Isso não significa que inexistam canais de diálogo. Logo, China e UE mantêm conversações e, durante um breve período da presidência de Joe Biden, houve inclusive um diálogo entre a UE e os EUA destinado a coordenar suas posições sobre a China e o Indo-Pacífico. Tal mecanismo, contudo, foi abandonado quando Trump retornou ao poder, em 2025.
O que nunca existiu, entretanto, foi uma cúpula trilateral de alto nível envolvendo Europa, China e EUA. Tampouco parece provável que isso aconteça em breve. Quando o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, esteve na China em janeiro de 2026, Trump criticou a visita e afirmou que era “muito perigoso” para o Reino Unido fazer negócios com Pequim.
A postura foi diferente quando o próprio Trump visitou a China, em maio. Naquela ocasião, a numerosa delegação de representantes do setor tecnológico que o acompanhou, somada ao acordo para a compra de 200 aeronaves da Boeing por Pequim, mostrou que, para os EUA, negociar com a China era perfeitamente aceitável. A lógica subjacente é bastante clara: como superpotências, EUA e China consideram legítimo negociar entre si nos termos que julgarem convenientes, enquanto os demais permanecem à margem.
Historicamente, a Europa tem aceitado essa posição intermediária, procurando equilibrar suas relações com os EUA e a China. Essa postura pode ser observada nas sucessivas formulações de alto nível da política da UE para a China ao longo dos últimos 15 anos. A mais recente, apresentada em 2019, procurou conciliar diferentes percepções da China – como parceira de cooperação, adversária e concorrente – revelando uma Europa marcada pela mentalidade ponderada e pela dificuldade de assumir uma posição mais definida.
No campo da cooperação, comércio e investimentos constituem as áreas mais evidentes do envolvimento recente entre Europa e China. Houve transferência de tecnologia nos setores automotivo e industrial, assim como a entrada da empresa chinesa Huawei nos sistemas europeus de telecomunicações. Mesmo nesse terreno, porém, a Europa manteve uma postura cautelosa. A partir de 2020, após pressão dos EUA, o acesso da Huawei aos mercados europeus passou a ser fortemente restringido.
A maneira como Trump passou a confrontar aliados tradicionais também oferece razões concretas para que tal postura seja reconsiderada. No início de 2026, ele exigiu o controle da Groenlândia, além de criticar a Otan e os níveis de gastos militares de aliados históricos. Nesse contexto, a Europa precisa reconhecer que desenvolver uma política própria para a China exige mais do que produzir planos detalhados (algo que os europeus sabem fazer bem). É necessário transformá-los em políticas respaldadas por compromisso político e orientadas prioritariamente pelos próprios interesses europeus.
A Europa diante de seus próprios interesses
Bruxelas e as demais capitais europeias enfrentam agora uma realidade particularmente difícil. De um lado, a relação de segurança com os EUA, a mais importante para a Europa, atravessa profundas mudanças. Do outro lado, a China passa a representar um tipo muito diferente de potencial parceiro, à medida que se consolida como uma potência inovadora e como um importante centro tecnológico e de pesquisa.
Ambos os fenômenos modificam o paradigma fundamental no qual a UE está inserida e estabelecem uma resposta política diferente. Essa nova abordagem precisa reconhecer de maneira mais explícita que, em diversas áreas e por diferentes razões, a China pode ser uma parceira, em vez de ser tratada simplesmente como uma ameaça clara e inequívoca.
Essa proximidade torna-se mais evidente quando se observam algumas questões globais de grande relevância. No enfrentamento ao aquecimento global provocado pela atividade humana e na busca por alternativas aos combustíveis fósseis, por exemplo, a Europa apresenta posições mais próximas das defendidas pela China do que das adotadas pelos EUA.
Há também convergências entre Pequim e Bruxelas na avaliação dos benefícios e dos riscos associados à inteligência artificial. A China passou a defender explicitamente a necessidade de administrar os efeitos dessa nova tecnologia sobre o emprego. Da mesma forma, tanto a China quanto a Europa observam com preocupação o ataque de Trump ao Irã.
Ao mesmo tempo, os europeus questionam a solidez dos compromissos assumidos por Trump. Tal incerteza não se limita à Otan, em relação à qual seu ceticismo já é amplamente conhecido. As dúvidas também se estendem à disposição dos EUA de apoiar Taiwan caso a ilha seja atacada.
Um eventual realinhamento não acontecerá de imediato, e tampouco existe um caminho simples ou um destino claramente estabelecido. O sucessor de Trump na Casa Branca, por exemplo, poderá assumir uma posição mais favorável ao multilateralismo. Além disso, até mesmo a atual administração está discutindo a ampliação de seus acordos nucleares na Europa. Ainda assim, a realidade central é bastante clara.
Com uma economia equivalente a um quinto do PIB mundial e uma população próxima de meio bilhão de habitantes, a Europa não pode continuar assumindo uma postura submissa e predominantemente passiva. Isso é ainda mais importante quando estão em questão suas relações com seus dois maiores parceiros econômicos: EUA e China.
No mínimo, quando essas duas superpotências voltarem a se reunir para dar continuidade às suas conversas, a Europa deverá apresentar argumentos sólidos para também ocupar um lugar à mesa. Em vez de permanecer à margem, tentando acompanhar as discussões junto com os demais países, a Europa precisa assumir uma posição mais ativa nessas negociações.
Este texto foi originalmente publicado no The Conversation.
Tradução revisada por Filipe Prado Macedo da Silva.

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