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A ascensão da AfD: a extrema-direita está prestes a governar um estado alemão?

Ed Turner

Professor de Política e Codiretor do Aston Centre for Europe da Aston University (Reino Unido).

Os eleitores do estado da Saxônia-Anhalt, no Leste da Alemanha, irão às urnas neste 7 de setembro para eleger um novo parlamento estadual.

As projeções indicam que a Alternativa para a Alemanha (Alternative für Deutschland – AfD) está a caminho de conquistar cerca de 40% dos votos, praticamente o dobro do apoio obtido pelo partido no estado há cinco anos. Esse avanço coloca a legenda de extrema-direita diante de uma possibilidade inédita: assumir, pela primeira vez, o governo de um estado alemão.

A antiga Alemanha Oriental, que esteve sob regime comunista entre 1949 e 1989, tem se mostrado um terreno fértil para a extrema-direita. A AfD conquistou 34,6% dos votos nessa região nas eleições federais de 2025; enquanto, na Saxônia-Anhalt, tal percentual chegou a 37,1%. O resultado foi muito superior ao obtido pelos partidos tradicionais tanto da esquerda quanto da direita.

Muito já foi escrito sobre as razões do sucesso da extrema-direita no Leste da Alemanha. A desindustrialização, as mudanças demográficas e a perda populacional, especialmente nas áreas rurais, estão entre os fatores que impulsionam tal fenômeno. Soma-se a isso, o fato de existir, no Leste do país, uma discordância muito maior em relação ao apoio da Alemanha à Ucrânia na guerra contra a Rússia do que aquela observada no Oeste, além de níveis mais elevados de oposição aos refugiados.

Talvez, acima de tudo, exista no Leste um forte sentimento de que seus habitantes são “cidadãos de segunda classe” na Alemanha contemporânea, mesmo após três décadas de reunificação. O desemprego na Saxônia-Anhalt está acima da média alemã, alcançando 8,2% em agosto, em comparação com uma média nacional de 6,5%. O salário mediano dos trabalhadores de tempo integral está em torno de € 48.300 (£ 41.400), abaixo da média nacional, de aproximadamente € 52.000.

A eleição na Saxônia-Anhalt ocorre em um momento em que a AfD já lidera as pesquisas de intenção de voto em âmbito nacional e no qual o governo federal e o chanceler Friedrich Merz enfrentam elevados índices de impopularidade, com cerca de 85% dos eleitores afirmando estarem insatisfeitos. Além do mais, a disputa acontece justamente em uma região do país onde a extrema-direita tradicionalmente obtém seus melhores resultados.

A AfD já ficou em primeiro lugar em uma eleição estadual anteriormente, na Turíngia, em 2024. No entanto, não conquistou a maioria das cadeiras. Os partidos tradicionais se articularam e formaram um governo composto pela União Democrata-Cristã da Alemanha (CDU), de centro-direita, pela Aliança Sahra Wagenknecht (Bündnis Sahra Wagenknecht – BSW), de esquerda populista, e pelo Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD).

Para funcionar e aprovar suas propostas legislativas, esse governo depende do apoio do Die Linke (Partido de Esquerda). A CDU, há muito tempo, descarta qualquer cooperação com o Partido de Esquerda nos níveis estadual/regional ou nacional, em razão das ligações históricas deste último com o regime comunista da Alemanha Oriental e das divergências ideológicas que persistem entre as duas legendas. Na prática, entretanto, tanto na Turíngia quanto no Parlamento Nacional, tal posição contrária à cooperação tem se tornado menos rígida.

Na Saxônia-Anhalt, assim como na maioria dos demais estados alemães, os partidos precisam obter pelo menos 5% dos votos para conquistar cadeiras no Parlamento Estadual. Caso fiquem abaixo desse patamar, não conseguem representação parlamentar. Por isso, as atenções estarão voltadas não apenas para os resultados da AfD, da CDU (que, segundo as pesquisas, deverá obter 23% dos votos) e do Partido de Esquerda (com previsão de alcançar 13%), mas também para o desempenho dos partidos menores.

As pesquisas têm mostrado o SPD oscilando em torno da barreira dos 5%, embora seu apoio pareça ter aumentado. O mesmo ocorre com os Verdes, enquanto o liberal Partido Democrático Livre (FDP) aparentemente não alcançará o percentual mínimo necessário. Se os únicos partidos a superar a barreira dos 5% forem AfD, CDU e Partido de Esquerda, a AfD poderá conquistar a maioria absoluta das cadeiras. A BSW, que também oscila em torno dos 5%, já deixou claro que não bloqueará a entrada da AfD no governo.

As propostas da AfD

O programa eleitoral da AfD na Saxônia-Anhalt situa-se claramente na extrema-direita. Propostas como acabar com o direito de asilo e colocar uma moratória sobre a imigração proveniente de países de fora da União Europeia não poderiam ser implementadas pelo governo estadual. Essas são questões de competência do governo federal.

Outras propostas da AfD, porém, são juridicamente viáveis. Entre elas está a possibilidade de alterar o currículo escolar de modo a reduzir a ênfase atribuída ao período nazista – uma proposta que um político da AfD, Hans-Thomas Tillschneider, resume na frase: “Mais Bismarck, menos Hitler”. Trata-se de uma referência a Otto von Bismarck, que conduziu o processo de unificação da Alemanha em 1871.

O partido AfD também sugeriu a introdução do canto rotineiro do hino nacional alemão nas assembleias escolares e o fim do que denomina “inclusão” de crianças com necessidades especiais no ensino regular. A retirada do financiamento destinado à Igreja Protestante, que a AfD acusa de estar em demasia concentrada em questões sociais em vez de questões teológicas, também seria uma possibilidade concreta.

Uma preocupação específica envolve o sistema alemão de “proteção constitucional”, isto é, os serviços de inteligência responsáveis pela proteção da ordem constitucional. Está sendo considerada a criação de estruturas paralelas na Saxônia-Anhalt para resguardar operações sensíveis caso a AfD assuma o governo estadual. Diversos setores e grupos da AfD estão sendo monitorados pelos serviços de inteligência da Alemanha por suspeitas de extremismo.

É quase certo que essa eleição provocará repercussões políticas mais amplas caso a AfD termine em primeiro lugar, e ainda maiores se conquistar o controle absoluto do governo estadual. Qualquer mudança significativa no comando da política alemã provavelmente aguardará as eleições em Berlim e Mecklenburg-Vorpommern.

Os partidos tradicionais provavelmente tentarão preservar alguma aparência de unidade até lá, temendo perder ainda mais votos. No mínimo, entretanto, os rumores sobre uma contestação antecipada à liderança de Merz deverão ganhar ainda mais força.

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