Em 20 de janeiro de 2025, começou formalmente o mundo trumpista. Dada a personalidade de Donald Trump e seus recentes anúncios hostis, que vão de ambições com a Groenlândia a tarifas ameaçadoras até mesmo para os aliados mais próximos dos EUA, como o Canadá, é uma incógnita o que ele fará nos próximos meses.
No entanto, a política comercial é uma questão que Donald Trump tem sido consistente ao longo de décadas. Ele é um autoproclamado “homem das tarifas” – cerca de 40 anos atrás, Trump tornou pública uma proposta de taxar as importações do principal concorrente na época, o Japão (CNN, 1987). Uma segunda consistência é seu desdém por sutilezas legais como as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Isto, compreensivelmente, gerou ansiedade em Bruxelas. A União Europeia (UE) é a maior exportadora do mundo, até maior que a China. As exportações da UE representam cerca de 25% do PIB da UE, muito mais do que nos EUA. Os EUA também são o maior mercado de exportação da UE. Tudo isto parece sugerir que a Europa tem muito a temer no cenário comercial.
Contudo, após uma análise mais detalhada, o governo Trump II pode, se bem conduzido, apresentar mais oportunidades do que ameaças para a Europa.
A política comercial é uma das poucas áreas em que a UE pode atuar em bloco (isto quer dizer, pode atuar em nome dos 27 países-membros). Agora, a questão-chave é saber como a UE reagirá às ameaças de uma “enxurrada” de tarifas dos EUA. A análise econômica revela que reagir a uma tarifa estrangeira com uma tarifa própria só produz mais danos. As duas justificativas para uma estratégia de retaliação econômica são tradicionalmente a de que isto pode demover o outro lado de iniciar uma guerra tarifária e a de que é necessário mostrar aos grupos de interesses locais, que estão perdendo com as tarifas estrangeiras, que seus interesses estão sendo levados em consideração.
A análise tradicional foi útil no passado, quando os países usavam o instrumento tarifário como estratégia para proteger indústrias específicas. No entanto, desta vez as coisas são diferentes. Parte da obsessão trumpista com tarifas é a de que os EUA estão perdendo no comércio global, já que outras nações têm tarifas muito mais altas. Se os EUA têm ou não tarifas mais baixas (especialmente depois das tarifas que o próprio Trump instituiu) do que a UE ou a China é algo muito controvertido. O que importa é que Trump tem a impressão de que as tarifas da UE são 50% mais altas do que as dos EUA (Trump, 2023). Logo, tarifas mais altas para a UE dão a impressão de um valor alto, mas os 50% são a diferença relativa entre uma média de 3,5% para os EUA e 5% para a UE (Puccio, 2015). Essas tarifas baixas foram normalmente aceitas como ponto de partida quando, algum tempo atrás, a UE e os EUA estavam negociando o acordo transatlântico de investimento e livre comércio (da sigla em inglês, TTIP).
Dada a obsessão de Trump na reciprocidade, ainda pode valer a pena oferecer a redução de algumas das tarifas restantes da UE, principalmente, o imposto de importação de 10% sobre veículos (European Commission, 2024). Assim, Bruxelas deveria oferecer a redução desta taxa para os 2,5% cobrados pelos EUA (Congressional Research Service, 2021), ou levar até zero.
Os líderes da UE podem ter que “engolir o orgulho”. Desta maneira, devem seguir o exemplo da abordagem usada pelo antecessor de Ursula von der Leyen, que neutralizou com algum sucesso uma guerra comercial transatlântica no primeiro governo Trump (Gros, 2018).
Se isto for feito, a Europa poderá se beneficiar substancialmente de um segundo governo Trump, que aumentará as tarifas sobre as importações da China. Tarifas de 60% sobre todas as importações chinesas (e cerca de 10-20% para outros países) foram discutidas durante a campanha eleitoral (Cass, 2024). Ninguém sabe ao certo quais tarifas Trump imporá. Mas, um elemento é claro! Embora Trump desdenhe a Europa e acredite que ela deva pagar pelo guarda-chuva de segurança americano, a hostilidade generalizada em relação à China é muito mais forte e bipartidária. Portanto, é provável que, em qualquer caso, as tarifas sobre a China sejam muito mais altas do que as tarifas sobre a Europa.
Nesta conjuntura, os produtores da UE estariam entre os principais beneficiários das altas tarifas para a China, já que tais tarifas dariam uma vantagem sobre a concorrência chinesa no maior mercado do mundo. Isto já pode ser observado no mercado automobilístico dos EUA, em que as empresas da UE estão se saindo bem (ACEA, 2024), visto que os carros chineses já foram efetivamente excluídos do mercado norte-americano. Além disso, se o governo Trump II favorecer os carros com motor de combustão interna, isto daria algum alívio à indústria automotiva europeia, cujo ponto fraco são os veículos elétricos à bateria (os veículos elétricos chineses estão sujeitos a uma tarifa de 100% nos EUA).
Outro elemento que torna as tarifas norte-americanas sobre os produtos da UE menos ameaçadoras é o fato de os fabricantes europeus terem grandes investimentos nos EUA. Isto se aplica em particular aos produtores europeus (principalmente alemães) de carros de alta qualidade. Assim sendo, as tarifas norte-americanas sobre carros da UE tornariam as operações das sucursais sediadas nos EUA mais lucrativas. Isto, é claro, prejudicaria o emprego na UE, mas os lucros mais elevados das operações das sucursais em território norte-americano compensariam, pelo menos em parte, as pressões sobre a lucratividade que os fabricantes europeus estão enfrentando no mercado chinês.
Os formuladores de políticas da UE devem, portanto, manter a calma e se concentrar em apaziguar tensões inevitáveis em vez de ficarem pensando em retaliações.
Manter as relações econômicas transatlânticas equilibradas teria pouco efeito se a maioria dos outros países seguissem o exemplo dos EUA. Há cerca de 100 anos, os EUA agravaram ainda mais a Grande Depressão aumentando suas tarifas – iniciando, assim, uma guerra tarifária global que levou a uma espiral descendente do comércio global. No entanto, desta vez, o cenário será muito diferente. A maioria dos outros países não tem interesse em seguir o exemplo dos EUA, já que isto não faz qualquer sentido para muitas das pequenas economias abertas que formam a espinha dorsal do comércio global. Até mesmo a China tem pouco incentivo para impor tarifas sobre importações da Europa ou de outros países. Portanto, é provável que a guerra tarifária que Trump ambiciona vencer continue sendo, principalmente, uma questão bilateral entre EUA e China. Embora estas sejam as duas maiores economias do mundo, o comércio entre elas representa apenas uma pequena porcentagem do comércio global. As importações norte-americanas de bens oriundos da China somam cerca de US$ 500 bilhões, o equivalente a 0,5% do PIB global e 2% do comércio global (World Bank Group, 2025; WTO, 2024).
Assim sendo, os formuladores de políticas da UE deveriam parar de lamentar a morte do sistema comercial baseado em regras e, em vez disso, concentrar-se na “tarefa mundana” de apaziguar o conflito comercial com os EUA, permanecendo abertos ao resto do mundo.
Referências
- ACEA (2024). Fact sheet: EU-US vehicle trade.
- Cass, O. (2024, Sep. 24). Trump’s Most Misunderstood Policy Proposal. The Atlantic.
- CNN. (1987, Sep. 2). Donald Trump: “I don’t want to be president” – entire 1987 CNN interview (Larry King Live) [Video]. YouTube.
- Congressional Research Service. (2021, Oct. 14). USMCA: Motor Vehicle Provisions and Issues.
- European Commission (2024, Jun. 12). Questions and Answers on the pre-disclosure of duties on imports of subsidised electric cars from China.
- Gros, D. (2018, Aug. 6). Europe’s Trade Coup. Project Syndicate.
- Puccio, L. (2015). EU-US negotiations on TTIP: A survey of current issues. European Parliamentary Research Service.
- Trump, D. (2023, Jun. 21). Agenda47: Cementing Fair and Reciprocal Trade with the Trump Reciprocal Trade Act [Video].
- World Bank Group (2025). GDP (current US$) – United States, Euro area.
- WTO (2024). Global Trade Outlook and Statistics.
Este texto foi originalmente publicado no Intereconomics.
Traduzido por Filipe Prado Macedo da Silva.

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