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  • 8 de agosto de 2025
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    O acordo entre Trump e von der Leyen: uma perspectiva política

    O acordo entre Trump e von der Leyen: uma perspectiva política

    PALAVRAS-CHAVE EUA, Política Comercial, Trump, União Europeia, Ursula von der Leyen

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    Eduardo Moyano Estrada

    Sociólogo e Doutor em Agronomia. Professor de Investigação (Catedrático) Aposentado do Consejo Superior de Investigaciones Científicas (Espanha).


    Na semana passada, em 27 de julho, foi assinado na Escócia o acordo sobre tarifas entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e a presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen – no exercício das competências comunitárias que tal instituição europeia possui em matéria de política comercial.

    O referido acordo – que é mais propriamente um pré-acordo, pelas questões que deixa em aberto – suscitou forte controvérsia dentro e fora dos círculos europeus. Alguns chefes de governo – como o espanhol Pedro Sánchez – mostraram-se cautelosos, limitando-se a uma falta de entusiasmo com o que foi acordado; enquanto outros, como o primeiro-ministro francês François Bayrou, foram mais contundentes em sua rejeição.

    Além disso, numerosos artigos analisaram de forma detalhada o seu conteúdo, sobretudo, no que diz respeito aos aspectos econômicos.

    Um acordo desequilibrado… teria sido possível outro?

    De modo geral, a maioria dos analistas avalia o acordo de forma negativa por considerá-lo desequilibrado, já que significa aceitar a imposição, por parte dos EUA, de uma tarifa de 15% sobre os produtos europeus – salvo isenções em produtos estratégicos ainda por definir – e de uma tarifa “zero” para um grande número de produtos americanos que entram na UE – também a confirmar.

    Além do mais, a União Europeia (UE) compromete-se a comprar dos EUA bens energéticos e materiais de defesa por valores ao redor de 700 bilhões de euros nos próximos três anos.

    Critica-se ainda com dureza a encenação do acordo, pelo fato de a presidente da Comissão Europeia ter ido à propriedade privada de Trump, na Escócia, num gesto de submissão que irritou muitos dirigentes da UE e, igualmente, cidadãos europeus.

    Não nego os fatos, mas também não farei disso um drama. O importante é a lua, não o dedo que a aponta.

    Tais analistas afirmam que o impacto do acordo será muito diverso, conforme os produtos afetados, razão pela qual consideram ainda prematuro tirar conclusões definitivas.

    Além disso, os analistas explicam que haverá dificuldades para colocar em prática alguns dos compromissos assumidos, sobretudo, os relativos à energia, já que a UE não dispõe de instrumentos para executá-los, uma vez que quem compra os produtos são as empresas, e não a Comissão Europeia nem os Estados.

    Recomendo, pelo caráter didático, a leitura do resumo feito pelos serviços econômicos da BBC.

    Diante das críticas, a Comissão Europeia divulgou um comunicado explicando algumas das razões que justificariam o acordo. Neste comunicado, destaca-se a importância da parceria transatlântica como “artéria principal da economia mundial”, afirmando que se trata da “relação bilateral de comércio e investimento mais importante do mundo”.

    A Comissão Europeia justifica o acordo entre a UE e os EUA pelo fato de que “restabelece a estabilidade e a previsibilidade para os cidadãos e as empresas de ambos os lados do Atlântico”, bem como “garante a continuidade do acesso das exportações da UE ao mercado norte-americano, preservando cadeias de valor fortemente integradas – muitas das quais dependem das pequenas e médias empresas – e salvaguardando, de fato, postos de trabalho”.

    É significativo que a Comissão Europeia destaque, em seu comunicado, que o acordo estabelece as bases para continuar a “colaboração entre a UE e os EUA”. Talvez, e reconheço que possa ser um excesso de otimismo da minha parte, isto indique a intenção de reativar o ambicioso tratado comercial TTIP (Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento), suspenso em 2017, durante o primeiro mandato de Trump, quando estava prestes a ser assinado. Se assim for, seria uma boa notícia.

    O objetivo deste artigo não é focar nos aspectos econômicos do acordo, mas sim fazer uma leitura política do mesmo. Defendo a tese de que a sua assinatura (apressada) é sintoma da complexidade da situação internacional e da fragilidade dos laços que unem os 27 países-membros da UE, bem como da urgência em esclarecer o panorama para avançar na negociação do novo orçamento comum europeu (Quadro Financeiro Plurianual, QFP).

    Por isto, na minha opinião, o acordo talvez não seja o mais desejável em termos da ambição europeísta que move muitos de nós, mas considero que é o único possível, diante da conjuntura política e da situação atual da UE. Além disso, creio que abre portas para avançar na relação transatlântica entre a UE e os EUA, sem prejuízo das outras relações estratégicas, como a com o Mercosul.

    Um choque de realidade

    Muitos cidadãos europeus ainda acreditam que a UE é um conjunto de países que avança rumo a uma união política do tipo federal. Falamos de boca cheia afirmações como “mais Europa”, que expressam mais um desejo do que uma realidade.

    É o que chamo de “falácia europeia”, que nos leva a esperar da UE um comportamento compatível com uma estrutura unida e coesa em torno do conjunto de instituições que criamos (Comissão, Conselho, Parlamento, Tribunal de Justiça, etc.), quando, na prática, não é isto que acontece.

    A realidade da UE é muito diferente daquela que gostaríamos que fosse, e devemos aceitar tal fato para não nos decepcionarmos diante de determinadas situações que transmitem uma sensação de impotência, como: o referido acordo sobre tarifas, a incapacidade de definir uma posição comum sobre o tema de Gaza ou sobre as questões migratórias, ou ainda o mesquinho projeto de orçamento comum (QFP) apresentado há algumas semanas pela Comissão Europeia para o período de 2028 a 2035.

    São sintomas de fragilidade e impotência que, na minha opinião, não são recentes, existem a muito tempo; eu diria que começaram com a adesão do Reino Unido, em 1973, e que se acentuaram, especialmente, a partir da entrada, compreensível e inevitável, dos países do antigo bloco comunista em 2004, paralisando desde então as grandes ambições políticas da UE.

    Por isto, o atual acordo com os EUA é um choque de realidade para a UE, que vive, além disso, uma difícil conjuntura política, devido à ascensão de grupos que pretendem minar ainda mais seus frágeis laços de coesão e que aspiram esvaziar o conteúdo, reduzindo ao mínimo, do frágil processo de integração europeia que, com tanto esforço, construímos.

    Além disso, a proximidade da guerra da Ucrânia, que não termina, e a presença ameaçadora de Putin reforçam, especialmente para os países vizinhos da Rússia, a necessidade de manter a proteção da OTAN, e os EUA dentro dela, no que diz respeito à segurança e defesa.

    Porém, acredito que tal choque de realidade deve nos fazer ver o acordo não como uma rendição, nem como um sintoma de fraqueza, mas valorizá-lo como um sinal de que a UE eppure si muove (em português, “e, no entanto, ela se move”), reagindo aos que a acusam de paralisia e inutilidade e, logo, alimentam discursos antieuropeus.

    Nós, europeístas, cometeríamos um erro se, por uma análise pouco realista da situação, caíssemos no desesperança e na indignação, acabando por fazer uma “aliança” com os populismos nacionalistas que exaltam a força de Trump (ou o hard power) e menosprezam a postura soft da presidente von der Leyen (como foi a ironia do húngaro Viktor Orbán).

    A UE não é uma união política

    O primeiro ponto que devemos reconhecer é que a UE não é, pelo menos ainda, e temo que por muito tempo não será, uma união política. Trata-se de uma agrupação de 27 países – alguns com vários séculos de história – com identidades culturais próprias e interesses nacionais nas áreas econômica e geoestratégica, que concordaram em estabelecer um mercado único para toda a UE – com uma zona de livre circulação de bens, serviços e pessoas; além disso, criaram uma união monetária – com o euro como moeda única em 20 destes países – embora ainda não uma união econômica, pois não possuem uma política fiscal comum.

    Apenas em áreas muito específicas, como agricultura, comércio, pesca e coesão territorial, os países que compõem a UE delegaram sua soberania às instituições comunitárias de Bruxelas, criando algumas políticas comuns, entre elas a Política Agrícola Comum (PAC).

    Isto explica por que o orçamento comum (QFP), geralmente, gira em torno de somente 1% do PIB da UE-27, financiando as poucas políticas comunitárias existentes.

    Tudo o que a UE realiza, além das políticas comuns, e que não devem ser subestimadas, é fruto da cooperação, que não é fácil, entre os governos da UE para gerir aqueles assuntos que consideram necessário tratar em conjunto, em vez de separadamente, como ocorreu, por exemplo, durante a pandemia de COVID-19 ou a guerra na Ucrânia, liberando para isto fundos econômicos especiais (como o Next Generation).

    Não existem, deste modo, políticas comuns nas áreas de saúde, educação, ciência, meio ambiente, defesa, segurança ou política externa, mas só cooperação intergovernamental.

    Nesta situação, é compreensível que a UE exiba, no contexto internacional, uma imagem pouco coesa, já que a representação em organismos multilaterais (como ONU, OMC, FAO, UNESCO, etc.) não é feita pela Comissão Europeia, mas sim por cada país individualmente, defendendo seus interesses nacionais, não os interesses europeus.

    Este é, e não outro, o panorama atual da UE com o qual precisamos lidar e é, neste contexto, que o acordo sobre tarifas foi negociado. Pensar de outra forma seria apenas nos enganar.

    Considerações Finais

    Por mais desequilibrado que pareça, e de fato é, o pré-acordo entre Trump e von der Leyen não deve ser denegrido, mas avaliado em sua justa medida e no contexto em que ocorreu.

    Acredito que, ao assinar o acordo, prevaleceram outras prioridades, como: esclarecer o cenário para que a Comissão Europeia negocie o novo QFP; evitar uma guerra comercial que seria desastrosa para a UE; preservar a frágil coesão do mercado único europeu que, sem um acordo geral sobre tarifas, correria o risco de ruptura diante da possibilidade de cada país fechar acordos bilaterais com os EUA; e, por fim, preservar o parceiro norte-americano ao nosso lado frente a futuras ameaças militares nas fronteiras da UE (por mais que desejemos transformar a China em um parceiro estratégico, ela nunca será nesta área de defesa).

    Sem dúvida, o acordo reflete a fragilidade ainda presente na integração europeia, mas é melhor reconhecer tal realidade e usar com inteligência estratégica as cartas que temos, do que reagir cegamente ao sonho de uma união política que não existe e não possui qualquer perspectiva de existir.

    Este texto foi originalmente publicado no Plataforma Tierra.
    Traduzido por Filipe Prado Macedo da Silva.

    Este texto está sob uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional. É permitida
    a reprodução total ou parcial do conteúdo sempre que a fonte original for citada.


    Insights nº 11 | Artigo em PDF

  • 1 de agosto de 2025
    Insights
    O maior perigo da Europa é o descontentamento

    O maior perigo da Europa é o descontentamento

    PALAVRAS-CHAVE Desenvolvimento, Eurocéticos, Europeístas, Extrema-direita, Governança

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    Andrés Rodríguez-Pose

    Professor de Geografia Econômica na London School of Economics (LSE). Membro da Cátedra Princesa de Astúrias. Atualmente, dirige o Centro Cañada Blanch na LSE e, anteriormente, foi chefe do Departamento de Geografia e Meio Ambiente. Presidiu o Grupo de Alto Nível da União Europeia sobre o Futuro da Política de Coesão, responsável por moldar a Política de Coesão da UE para o período pós-2027. E-mail institucional: a.rodriguez-pose@lse.ac.uk.


    Às vezes, filmes sobre romanos nos dizem muito mais sobre o mundo contemporâneo do que ousamos admitir. Em A Vida de Brian, do grupo de comédia Monty Python, há uma cena em que revolucionários anti-romanos indagam retoricamente: “O que os romanos fizeram por nós?”; e, apenas para listar, com crescente relutância: os aquedutos, o saneamento, as estradas, a irrigação, a medicina, a educação, o vinho, os banhos públicos e a segurança pública.

    Por décadas, a União Europeia (UE) foi retratada – ao menos entre seus defensores – como uma força indiscutível do bem. Paz, prosperidade, democracia, progresso social – tudo embrulhado em um pacote tecnocrático bem organizado. Contudo, hoje, muitos cidadãos europeus estão internalizando sua “Frente Popular da Judeia”, resmungando: “O que a EU fez por nós?” Agora, o grande projeto de unidade e estabilidade é visto, em muitos setores, como um burocrata indiferente, cego às queixas daqueles que já não se sentem parte dele. Assim, o momento Romani ite domum (Romanos, voltem para casa), imortalizado por Monty Python, está se transformando em um grito continental crescente de Eurocrati ite domum: ou seja, burocratas de Bruxelas, voltem para casa.

    Tal descontentamento não é apenas retórico. Está remodelando o cenário político europeu com uma rapidez alarmante. Os números falam por si sós. O apoio a partidos fortemente eurocéticos – aqueles que propõem o fim da UE ou questionam os princípios europeus fundamentais, como a primazia do direito europeu sobre o nacional – chegou a quase 15% dos votos nas eleições legislativas nacionais, em 2023. Neste sentido, se adicionarmos os partidos moderadamente eurocéticos, o total de votos, naquele mesmo ano, para legendas contrárias a uma maior integração europeia chegou a 28,5%. Hoje, é muito provável que esse número esteja em torno de um terço do total de votos. Em quatro países – Hungria, Itália, Polônia e França – os eurocéticos comandam ou estão próximos da maioria absoluta. Já governam ou participam do governo na Hungria, Itália, Eslováquia e Países Baixos, atuam como fiéis da balança na Suécia e são o maior partido na Áustria e na Polônia. Diante do cenário atual, é apenas uma questão de tempo até que tais partidos alcancem o poder em muitos outros países europeus. E o perfil dos seus eleitores importa. O crescimento mais forte do apoio ao euroceticismo vem da extrema-direita, cujo peso eleitoral agora chega a 25% do eleitorado – mais do que nos anos 1930; um paralelo histórico que exige atenção e reflexão.

    O que explica tal descontentamento generalizado? Tradicionalmente, tal crescimento tem sido atribuído a elementos culturais (Norris; Inglehart, 2019); pela revolta dos indivíduos — frequentemente homens, idosos, brancos e com baixo nível de escolaridade — que se sentem cada vez mais deslocados em uma Europa muito mais cosmopolita e diversa do que aquela em que cresceram. São pessoas que, segundo a socióloga Arlie Hochschild (2018), sentem-se “estranhas em sua própria terra”. Há também explicações de natureza territorial. As linhas de conflito se estabelecem entre cidades globalizadas e prósperas, de um lado, e pequenas cidades, subúrbios e áreas rurais em estagnação, de outro. (Rodden, 2019, por exemplo). Logo, uma explicação que vem ganhando força é a estagnação e o declínio econômico de longo prazo. Muitos territórios da Europa estão presos no que vem sendo chamado de “armadilha do desenvolvimento”. Conforme definido por meus colegas e por mim (Diemer et al., 2022), um território está em “armadilha do desenvolvimento” quando não tem condições para manter seu dinamismo econômico em termos de renda, produtividade e emprego, ao mesmo tempo em que tem desempenho inferior a seus pares nacionais e europeus nestes mesmos aspectos. Cerca de 60 milhões de europeus vivem em lugares onde o PIB per capita real atual é inferior ao do ano 2000. Aproximadamente um terço da população da UE vive em territórios que estão estagnados, mas continuamente, ficando para trás. A incidência de tal “armadilha” é particularmente alta na França, Itália, Grécia e Croácia, embora esteja presente, de alguma forma, em quase todos os países da UE.

    E, ao contrário do que acontece, por exemplo, nos EUA, quando uma região europeia entra em uma “armadilha do desenvolvimento”, ela tende a permanecer lá por muito tempo. A estagnação econômica tornou-se uma característica estrutural em muitos territórios da Europa. As pessoas que vivem nestas áreas cada vez mais “invisíveis” (Rodríguez-Pose, 2018) estão impulsionando o crescimento do euroceticismo. Assim, o voto eurocético é uma reação das comunidades em que as perdas individuais são percebidas como perdas coletivas. Está ligado, de forma fundamental, à geografia do declínio (Rodríguez-Pose et al., 2024); a lugares que estão enfrentando perdas econômicas, de emprego e demográficas substanciais ao longo do tempo. A Grande Recessão de 2008 pode ter sido o estopim, mas o descontentamento tem raízes bem mais profundas.

    Então, o que fazer? É possível conter o crescente euroceticismo – a ameaça mais grave ao projeto europeu desde sua criação? Muitos defendem que, se a causa for cultural, é preciso travar guerras culturais. Entretanto, entrar em um Kulturkampf (conflito de culturas) é um jogo perigoso, que pode aprofundar ainda mais as divisões já existentes nas sociedades europeias.

    Uma resposta mais pragmática reside no combate ao declínio econômico de longo prazo. Muitos dos eleitores que migraram para posições eurocéticas vivem em locais que caíram no “vazio” das políticas públicas: são ricos demais para receber os fundos da política de coesão da UE; e, são estagnados e pouco “atraentes” para estarem no centro das políticas nacionais. No entanto, tais territórios ainda apresentam potencial econômico significativo, que segue inexplorado (European Commission, 2024). Os motores da Revolução Industrial e do crescimento no século XX não perderam sua relevância de forma repentina. O problema é, em grande parte, territorial, e exige uma resposta igualmente ambiciosa. Se o declínio econômico continuar sem controle, as consequências políticas serão sísmicas. Isso já não é um debate sobre economia. É uma questão de sobrevivência da própria UE.

    Mesmo diante disso, os responsáveis pelas decisões políticas permanecem voltados para desafios como a perda de influência global, a competitividade, a defesa, as mudanças climáticas e a transição digital — todos, é claro, temas de grande urgência Sem dúvida, precisamos de uma Europa mais competitiva, capaz de se defender e de liderar a luta contra a mudança climática. Mas, não nos enganemos. Todas essas prioridades se tornarão secundárias se o euroceticismo continuar avançando até alcançar a hegemonia. Sem uma UE capaz de sobreviver em sua forma atual, não haverá uma Europa mais competitiva, mais segura ou mais verde; não haverá mercado único funcionando plenamente. Haverá apenas uma Europa muito diferente daquela que foi construída nos últimos 70 anos. Assim sendo, se os seguidores de Trump conquistarem ainda mais poder – ou mesmo se continuarem moldando o discurso político sem sequer vencer – voltaremos ao continente fragmentado do passado; marcado por rivalidades nacionais, regimes iliberais e irrelevância econômica crescente.

    E assim, voltamos a Roma. No filme Gladiador, de Ridley Scott, um imperador frágil, porém sábio e triunfante – Marco Aurélio – pergunta ao seu general mais leal, Maximus Decimus Meridius, por que ele luta pelo Império. Maximus responde: “Eu vi o resto do mundo. Ele é brutal, cruel e sombrio. Roma é a luz!” Do outro lado do Atlântico, os eventos já estão mostrando quão brutal, cruel e sombrio o mundo pode ser. Sem dúvida, a UE é imperfeita. Tem falhas e precisa de reformas. Entretanto, também é a tentativa mais bem-sucedida de alcançar paz, prosperidade e democracia que o continente já conheceu. E, todas as alternativas em cima da mesa são muito, muito piores. Por isso, devemos lutar pela UE. E, devemos agir rápido. Roma é a luz! A Europa é a luz!

    Referências

    • Diemer et al. (2022). The Regional Development Trap in Europe. Economic Geography, 98(5), 487–509.
    • European Commission (2024). Forging a sustainable future together – Cohesion for a competitive and inclusive Europe – Report of the High-Level Group on the Future of Cohesion Policy. Publications Office of the European Union.
    • Hochschild, A. R. (2018). Strangers in their own land: Anger and mourning on the American right. The New Press.
    • Norris, P.; Inglehart, R. (2019). Cultural backlash: Trump, Brexit, and authoritarian populism. Cambridge University Press.
    • Rodden, J. A. (2019). Why cities lose: The deep roots of the urban-rural political divide. Basic Books.
    • Rodríguez-Pose, A. (2018). The revenge of the places that don’t matter (and what to do about it). Cambridge Journal of Regions, Economy and Society, 11(1), 189–209.
    • Rodríguez-Pose, A., Dijkstra, L.; Poelman, H. (2024). The Geography of EU Discontent and the Regional Development Trap. Economic Geography, 100(3), 213–245.

    Este texto foi originalmente publicado no Intereconomics.
    Traduzido por Filipe Prado Macedo da Silva.

    Este texto está sob uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional. É permitida
    a reprodução total ou parcial do conteúdo sempre que a fonte original for citada.


    Insights nº 10 | Artigo em PDF

  • 18 de julho de 2025
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    Análise: Membros da UE na Otan

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  • 6 de junho de 2025
    Redes Sociais

    Novos Capítulos de Livros

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  • 20 de maio de 2025
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    Relações econômicas transatlânticas em um mundo trumpista

    Relações econômicas transatlânticas em um mundo trumpista

    PALAVRAS-CHAVE EUA, Política Comercial, Tarifas, Trump, União Europeia

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    Daniel Gros

    Diretor do Instituto de Políticas Europeias na Università Bocconi (Itália). Membro do Conselho e Membro de Honra do Centre for European Policy Studies (CEPS). E-mail institucional: danielg@ceps.eu


    Em 20 de janeiro de 2025, começou formalmente o mundo trumpista. Dada a personalidade de Donald Trump e seus recentes anúncios hostis, que vão de ambições com a Groenlândia a tarifas ameaçadoras até mesmo para os aliados mais próximos dos EUA, como o Canadá, é uma incógnita o que ele fará nos próximos meses.

    No entanto, a política comercial é uma questão que Donald Trump tem sido consistente ao longo de décadas. Ele é um autoproclamado “homem das tarifas” – cerca de 40 anos atrás, Trump tornou pública uma proposta de taxar as importações do principal concorrente na época, o Japão (CNN, 1987). Uma segunda consistência é seu desdém por sutilezas legais como as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).

    Isto, compreensivelmente, gerou ansiedade em Bruxelas. A União Europeia (UE) é a maior exportadora do mundo, até maior que a China. As exportações da UE representam cerca de 25% do PIB da UE, muito mais do que nos EUA. Os EUA também são o maior mercado de exportação da UE. Tudo isto parece sugerir que a Europa tem muito a temer no cenário comercial.

    Contudo, após uma análise mais detalhada, o governo Trump II pode, se bem conduzido, apresentar mais oportunidades do que ameaças para a Europa.

    A política comercial é uma das poucas áreas em que a UE pode atuar em bloco (isto quer dizer, pode atuar em nome dos 27 países-membros). Agora, a questão-chave é saber como a UE reagirá às ameaças de uma “enxurrada” de tarifas dos EUA. A análise econômica revela que reagir a uma tarifa estrangeira com uma tarifa própria só produz mais danos. As duas justificativas para uma estratégia de retaliação econômica são tradicionalmente a de que isto pode demover o outro lado de iniciar uma guerra tarifária e a de que é necessário mostrar aos grupos de interesses locais, que estão perdendo com as tarifas estrangeiras, que seus interesses estão sendo levados em consideração.

    A análise tradicional foi útil no passado, quando os países usavam o instrumento tarifário como estratégia para proteger indústrias específicas. No entanto, desta vez as coisas são diferentes. Parte da obsessão trumpista com tarifas é a de que os EUA estão perdendo no comércio global, já que outras nações têm tarifas muito mais altas. Se os EUA têm ou não tarifas mais baixas (especialmente depois das tarifas que o próprio Trump instituiu) do que a UE ou a China é algo muito controvertido. O que importa é que Trump tem a impressão de que as tarifas da UE são 50% mais altas do que as dos EUA (Trump, 2023). Logo, tarifas mais altas para a UE dão a impressão de um valor alto, mas os 50% são a diferença relativa entre uma média de 3,5% para os EUA e 5% para a UE (Puccio, 2015). Essas tarifas baixas foram normalmente aceitas como ponto de partida quando, algum tempo atrás, a UE e os EUA estavam negociando o acordo transatlântico de investimento e livre comércio (da sigla em inglês, TTIP).

    Dada a obsessão de Trump na reciprocidade, ainda pode valer a pena oferecer a redução de algumas das tarifas restantes da UE, principalmente, o imposto de importação de 10% sobre veículos (European Commission, 2024). Assim, Bruxelas deveria oferecer a redução desta taxa para os 2,5% cobrados pelos EUA (Congressional Research Service, 2021), ou levar até zero.

    Os líderes da UE podem ter que “engolir o orgulho”. Desta maneira, devem seguir o exemplo da abordagem usada pelo antecessor de Ursula von der Leyen, que neutralizou com algum sucesso uma guerra comercial transatlântica no primeiro governo Trump (Gros, 2018).

    Se isto for feito, a Europa poderá se beneficiar substancialmente de um segundo governo Trump, que aumentará as tarifas sobre as importações da China. Tarifas de 60% sobre todas as importações chinesas (e cerca de 10-20% para outros países) foram discutidas durante a campanha eleitoral (Cass, 2024). Ninguém sabe ao certo quais tarifas Trump imporá. Mas, um elemento é claro! Embora Trump desdenhe a Europa e acredite que ela deva pagar pelo guarda-chuva de segurança americano, a hostilidade generalizada em relação à China é muito mais forte e bipartidária. Portanto, é provável que, em qualquer caso, as tarifas sobre a China sejam muito mais altas do que as tarifas sobre a Europa.

    Nesta conjuntura, os produtores da UE estariam entre os principais beneficiários das altas tarifas para a China, já que tais tarifas dariam uma vantagem sobre a concorrência chinesa no maior mercado do mundo. Isto já pode ser observado no mercado automobilístico dos EUA, em que as empresas da UE estão se saindo bem (ACEA, 2024), visto que os carros chineses já foram efetivamente excluídos do mercado norte-americano. Além disso, se o governo Trump II favorecer os carros com motor de combustão interna, isto daria algum alívio à indústria automotiva europeia, cujo ponto fraco são os veículos elétricos à bateria (os veículos elétricos chineses estão sujeitos a uma tarifa de 100% nos EUA).

    Outro elemento que torna as tarifas norte-americanas sobre os produtos da UE menos ameaçadoras é o fato de os fabricantes europeus terem grandes investimentos nos EUA. Isto se aplica em particular aos produtores europeus (principalmente alemães) de carros de alta qualidade. Assim sendo, as tarifas norte-americanas sobre carros da UE tornariam as operações das sucursais sediadas nos EUA mais lucrativas. Isto, é claro, prejudicaria o emprego na UE, mas os lucros mais elevados das operações das sucursais em território norte-americano compensariam, pelo menos em parte, as pressões sobre a lucratividade que os fabricantes europeus estão enfrentando no mercado chinês.

    Os formuladores de políticas da UE devem, portanto, manter a calma e se concentrar em apaziguar tensões inevitáveis em vez de ficarem pensando em retaliações.

    Manter as relações econômicas transatlânticas equilibradas teria pouco efeito se a maioria dos outros países seguissem o exemplo dos EUA. Há cerca de 100 anos, os EUA agravaram ainda mais a Grande Depressão aumentando suas tarifas – iniciando, assim, uma guerra tarifária global que levou a uma espiral descendente do comércio global. No entanto, desta vez, o cenário será muito diferente. A maioria dos outros países não tem interesse em seguir o exemplo dos EUA, já que isto não faz qualquer sentido para muitas das pequenas economias abertas que formam a espinha dorsal do comércio global. Até mesmo a China tem pouco incentivo para impor tarifas sobre importações da Europa ou de outros países. Portanto, é provável que a guerra tarifária que Trump ambiciona vencer continue sendo, principalmente, uma questão bilateral entre EUA e China. Embora estas sejam as duas maiores economias do mundo, o comércio entre elas representa apenas uma pequena porcentagem do comércio global. As importações norte-americanas de bens oriundos da China somam cerca de US$ 500 bilhões, o equivalente a 0,5% do PIB global e 2% do comércio global (World Bank Group, 2025; WTO, 2024).

    Assim sendo, os formuladores de políticas da UE deveriam parar de lamentar a morte do sistema comercial baseado em regras e, em vez disso, concentrar-se na “tarefa mundana” de apaziguar o conflito comercial com os EUA, permanecendo abertos ao resto do mundo.

    Referências

    • ACEA (2024). Fact sheet: EU-US vehicle trade.
    • Cass, O. (2024, Sep. 24). Trump’s Most Misunderstood Policy Proposal. The Atlantic.
    • CNN. (1987, Sep. 2). Donald Trump: “I don’t want to be president” – entire 1987 CNN interview (Larry King Live) [Video]. YouTube.
    • Congressional Research Service. (2021, Oct. 14). USMCA: Motor Vehicle Provisions and Issues.
    • European Commission (2024, Jun. 12). Questions and Answers on the pre-disclosure of duties on imports of subsidised electric cars from China.
    • Gros, D. (2018, Aug. 6). Europe’s Trade Coup. Project Syndicate.
    • Puccio, L. (2015). EU-US negotiations on TTIP: A survey of current issues. European Parliamentary Research Service.
    • Trump, D. (2023, Jun. 21). Agenda47: Cementing Fair and Reciprocal Trade with the Trump Reciprocal Trade Act [Video].
    • World Bank Group (2025). GDP (current US$) – United States, Euro area.
    • WTO (2024). Global Trade Outlook and Statistics.

    Este texto foi originalmente publicado no Intereconomics.
    Traduzido por Filipe Prado Macedo da Silva.

    Este texto está sob uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional. É permitida
    a reprodução total ou parcial do conteúdo sempre que a fonte original for citada.


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