Quando milhares de tratores bloqueiam estradas e cercam capitais europeias, como Madrid, Paris ou Bruxelas, a interpretação imediata tende a reduzir essas mobilizações à expressão de um mero “lobby” ou de um corporativismo defensivo diante das regulações ambientais (como o Pacto Ecológico Europeu) ou dos acordos de livre comércio (como o Acordo UE-Mercosul).
No entanto, as recentes revoltas agrícolas na União Europeia (UE) podem ser entendidas, com maior rigor teórico-analítico, como um indicador e, simultaneamente, como uma manifestação empírica do capital social em ação.
A mobilização agrícola como reflexo de capital social em ação
Robert Putnam, em Comunidade e Democracia: a experiência da Itália moderna (1996), define o capital social como um conjunto de estruturas em redes, vínculos de confiança e normas de reciprocidade que facilitam a ação coletiva.
Assim, em uma perspectiva mais ampla, o capital social não reside apenas nos indivíduos, mas nas redes densas e relativamente institucionalizadas – associações, cooperativas, organizações e sindicatos agrícolas – que estruturam a cooperação e reduzem os custos da ação coletiva.
É por isso que as revoltas e mobilizações agrícolas devem ser compreendidas não apenas como um fenômeno econômico, mas como expressões de uma estrutura social territorial consolidada.
O ciclo de revoltas agrícolas iniciado no final de 2023 evidencia, de forma explícita, essa densidade relacional. A capacidade de coordenar deslocamentos massivos de tratores, bloquear infraestruturas estratégicas e articular reivindicações de maneira simultânea em diversos países da UE revela a existência de redes sociais multiescalares – do nível local ao nível europeu – sustentadas por confiança, normas compartilhadas e trajetórias históricas de cooperação.
Além disso, o capital social pode ser entendido a partir de quatro dimensões fundamentais: integração (laços intracomunitários); conexão (laços extracomunitários); sinergia (laços das redes institucionais); e integridade organizacional (credibilidade e eficácia).
Em termos práticos, as recentes revoltas agrícolas europeias ativaram simultaneamente essas quatro dimensões: reforçaram a coesão comunitária nos espaços rurais, ampliaram sua articulação em escalas nacional e transnacional, conectaram múltiplas redes sociais a várias instituições agrícolas e projetaram legitimidade política no âmbito das instituições da UE.
O ápice desse processo verificou-se em dezembro de 2025, quando Bruxelas – a capital da UE – se tornou o epicentro do maior protesto agrícola desde a década de 1990 (com mais de 10 mil agricultores europeus ocupando o chamado “quarteirão europeu”).
A magnitude dessa mobilização evidenciou não apenas uma insatisfação de natureza conjuntural, mas a presença de um capital social densamente estruturado ao longo de décadas, caracterizado por elevados níveis de integração, múltiplas conexões, intensa sinergia institucional e significativa integridade organizacional.
E, em um processo de retroalimentação cumulativa, as revoltas não se limitam a expressar o capital social em ação, mas contribuem ativamente para o seu reforço, reprodução e institucionalização.
Política Agrícola Comum (PAC) e a construção do capital social europeu
O capital social agrícola europeu não é um fenômeno recente ou espontâneo. Na realidade, é o produto de um longo processo de construção territorial, profundamente vinculado à Política Agrícola Comum (PAC).
Desde sua criação em 1962, a PAC consolidou-se como a maior e mais importante política pública e orçamentária da UE. Mais do que um instrumento econômico, ela funcionou (e segue funcionando) como um mecanismo de organização social e territorial, incentivando a formação de redes, a institucionalização da participação e a articulação contínua entre agricultores, países-membros e instituições europeias (com destaque para a Comissão Europeia, o Comitê Econômico e Social Europeu e o Comitê das Regiões).
Nesse sentido, o capital social não emerge apenas “desde baixo”, mas também é produzido e moldado por políticas públicas “desde cima”.
Logo, a PAC contribuiu para a formação de territórios com “conteúdos sociais densos”, nos quais a cidadania ativa e o capital social sedimentado permitem que os agricultores sejam protagonistas de suas dinâmicas endógenas de desenvolvimento.
A noção de cidadania ativa é central nesse processo. Ela implica não apenas participação formal, mas engajamento comunitário em estruturas de governança territorial. Na UE, a multiplicação de cooperativas, associações, organizações, conselhos e redes territoriais fortaleceu as dinâmicas bottom-up, nas quais a sociedade civil organizada participa da formulação e da implementação de políticas públicas.
Além disso, o capital social possui uma dimensão simbólica. Como argumenta o sociólogo francês Pierre Bourdieu, os territórios são espaços de disputa simbólica, nos quais vários grupos buscam impor suas visões de mundo e legitimar seus interesses.
Nesse contexto, mais uma vez, as revoltas agrícolas não são apenas econômicas, mas também simbólicas: expressam disputas sobre o significado da produção agrícola, da sustentabilidade e da equidade socioeconômica.
Essa dimensão simbólica ajuda a explicar o papel político dos agricultores europeus. Seu capital social não deriva apenas da organização, mas também da capacidade de construir narrativas legítimas sobre seu papel na sociedade europeia desde o pós-Segunda Guerra Mundial, como guardiões da segurança alimentar, do território e das tradições rurais.
Contudo, esse capital social também pode apresentar limitações. Ao mesmo tempo em que reforça os laços intracomunitários (bonding), ampliando a capacidade de mobilização e de pressão política, pode igualmente criar barreiras em relação a outros grupos sociais, a desafios contemporâneos e a perspectivas não rurais (como a visão urbana-industrial).
Alternativamente, pode então assumir formas de bridging, construindo pontes e ampliando sua legitimidade social para além do mundo rural.
Os resultados institucionais recentes – flexibilizações na PAC, recuos regulatórios do Pacto Ecológico Europeu e as salvaguardas agrícolas no Acordo UE-Mercosul – evidenciam como tal capital social se converte em poder político concreto.
Não obstante os avanços políticos alcançados, as revoltas agrícolas revelam uma tensão estrutural persistente entre as dinâmicas top-down (emanadas das instituições europeias) e bottom-up (derivadas da mobilização social), típica da governança da UE.
Em última instância, as revoltas agrícolas europeias refletem mais do que uma reação conjuntural. Elas revelam territórios em que capital social, cidadania ativa e políticas públicas – especialmente a PAC – coevoluíram ao longo dos últimos 60 anos.
A questão central não reside na existência do capital social, mas em sua orientação: se será acionado como mecanismo de veto do setor agrícola ou como fundamento para a construção de novos pactos territoriais entre transição ecológica, segurança alimentar e desenvolvimento sustentável.

Este texto está sob uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional. É permitida
a reprodução total ou parcial do conteúdo sempre que a fonte original for citada.

Deixe uma resposta