Agravando a preocupação provocada pela invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022, a imprevisibilidade do segundo mandato de Donald Trump tornou evidente a necessidade de uma maior autonomia europeia em matéria de segurança. Em diversas ocasiões ao longo do último ano, Trump insinuou, ainda que de forma vaga, a possibilidade de reduzir ou mesmo abandonar os compromissos dos EUA com a aliança de defesa da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
A recente decisão de Washington de retirar 5.000 soldados da Alemanha, somada às preocupações geradas pelas ações dos EUA no Irã, reforçou a urgência da busca por uma independência estratégica europeia. O anúncio da retirada ocorreu depois que o chanceler alemão, Friedrich Merz, criticou o que classificou como o “aventureirismo de Trump” no Oriente Médio.
O rearme europeu já está em andamento. Embora os governos ainda precisem cumprir suas promessas de elevar os gastos militares até a nova meta da Otan, correspondente a 5% do PIB, os membros europeus da aliança, juntamente com o Canadá, destinaram US$ 574 bilhões (£ 422 bilhões) à defesa em 2025 – um aumento de quase 20% em relação ao ano anterior. Trata-se do maior crescimento anual em sete décadas.
O debate sobre segurança precisa agora entrar em uma nova fase, na qual os governos europeus reconheçam as complexas implicações políticas do processo de rearmamento. Algumas delas já começam a se tornar evidentes, como a difícil escolha entre ampliar os gastos militares ou preservar programas sociais, além da possibilidade de a Alemanha consolidar não apenas sua liderança econômica, mas ainda uma posição de superioridade militar.
Há ainda o risco de partidos populistas de direita chegarem ao poder dispondo de arsenais militares significativamente ampliados. Atualmente, essas forças políticas lideram as pesquisas de opinião na França, na Alemanha, no Reino Unido e em diversos outros países, defendendo agendas que nem sempre são compatíveis com a tradição de cooperação europeia em matéria de segurança.
A militarização da Europa também contribui para o já preocupante aumento dos gastos militares em escala global, elevando o risco de grandes conflitos. Soma-se a isso o impacto ambiental do rearmamento e o perigo de uma excessiva militarização obscurecer a tradicional visão europeia de segurança, historicamente baseada no desenvolvimento socia e na prevenção de conflitos.
Esses desafios demonstram que o rearme representa uma transformação estrutural da ordem europeia. Incorporar o fortalecimento militar às atuais estruturas da União Europeia (UE) e da Otan, sem uma revisão de sua arquitetura institucional, tende a aprofundar desequilíbrios políticos e estratégicos.
A UE corre o risco de comprometer sua identidade como projeto de paz caso se transforme em uma união voltada prioritariamente para a segurança, sem que esse processo seja acompanhado por um novo acordo político mais equilibrado e abrangente.
Abordando as consequências
Em diversos países europeus cresce a preocupação com a necessidade de integrar e, ao mesmo tempo, limitar o futuro poderio militar alemão dentro de uma UE profundamente integrada. Os apelos pela criação de um “exército europeu” voltam a ganhar força – mais recentemente por iniciativa do governo espanhol – embora ainda careçam de definição política concreta.
Os investimentos em defesa estão crescendo não somente por meio dos orçamentos nacionais, mas também por meio de instrumentos da UE voltados ao fortalecimento da segurança coletiva. Paralelamente, muitos governos europeus buscam adotar um modelo de defesa inspirado nos países nórdicos, no qual recursos civis e militares são mobilizados de forma integrada. A Estratégia de Preparação para a UE, lançada em 2025, também segue essa lógica.
Essas mudanças demonstram que uma Europa cada vez mais orientada pela segurança precisa ser sustentada por um amplo debate político e por mecanismos efetivos de responsabilização democrática. À medida que os cidadãos são chamados a participar de uma estratégia de defesa mais abrangente, também devem exercer maior influência sobre as decisões relacionadas ao aumento dos gastos militares e sobre questões sensíveis, como a crescente predominância militar da Alemanha.
Entretanto, o processo de rearmamento vem sendo conduzido de maneira que reforça o caráter pouco transparente e altamente emergencial do processo decisório da UE. Nos últimos anos, foram justamente essas características que alimentaram o crescimento de partidos populistas iliberais. A Europa terá dificuldades para legitimar sua nova agenda de segurança sem revitalizar sua arquitetura institucional política e ampliar significativamente a participação da sociedade.
As principais potências europeias procuram agir de forma mais assertiva na defesa de seus interesses geopolíticos imediatos, sem abandonar completamente os princípios da ordem liberal internacional, como a cooperação baseada em regras e a abertura econômica.
Contudo, os governos europeus ainda não conseguiram definir com clareza os objetivos estratégicos desse processo de rearmamento. Não há consenso sobre se o fortalecimento militar europeu deve limitar-se à dissuasão e à defesa do território continental ou se também deverá servir para projetar poder militar e defender interesses europeus além de suas fronteiras.
Nos últimos anos, as operações europeias de segurança e prevenção de conflitos em outras regiões do mundo foram reduzidas. A retirada das missões militares da UE no Sahel, na África, talvez seja o exemplo mais emblemático. Ainda não está claro se a atual mudança de rumo pretende reverter essa tendência ou aprofundá-la.
O rearme também suscita questionamentos sobre a arquitetura institucional da ordem europeia. A nova dinâmica de segurança altera o equilíbrio de poder entre os diferentes organismos regionais. Ao mesmo tempo em que aproxima novamente o Reino Unido dos assuntos europeus, também estimula debates sobre formas mais flexíveis de cooperação entre os países do continente.
É urgente aperfeiçoar a divisão de responsabilidades e a coordenação entre os países europeus no âmbito da Otan. No entanto, é improvável que a aliança, sozinha, seja suficiente para estruturar a autonomia europeia de segurança no cenário pós-Trump. Novos formatos de cooperação serão imprescindíveis para oferecer maior flexibilidade temática e geográfica.
As discussões sobre defesa e segurança ocorridas na cúpula da Comunidade Política Europeia, realizada na Armênia em 4 de maio, ilustram essa tendência. Além dos Estados-membros da UE, participaram o Reino Unido e outros países europeus não pertencentes ao bloco. Os recentes esforços de coordenação em torno da segurança da Ucrânia e da proteção da navegação no Estreito de Ormuz podem indicar uma evolução em direção a coalizões funcionais e flexíveis entre países europeus.
Logo, as questões de segurança não se ajustam perfeitamente ao espaço econômico e regulatório da UE, o que abre espaço para a criação de novos formatos institucionais. Excluído dos atuais planos de defesa da UE, o Reino Unido, em particular, precisará apresentar propostas que contribuam para uma reorganização da segurança europeia muito além das negociações atualmente em curso com Bruxelas.
À medida que a UE conclui sua nova estratégia de segurança e o Reino Unido implementa sua revisão estratégica de defesa, os governos europeus precisam enfrentar os efeitos políticas do rearme. Esses desafios são mais profundos e estruturais do que o simples aumento dos orçamentos militares. Ainda assim, permanecem sendo sistematicamente adiados.
Enquanto tais questões permanecerem sem resposta, o rearme europeu estará assentado sobre bases frágeis e tenderá a produzir novas tensões e dificuldades ao longo de seu desenvolvimento.
Este texto foi originalmente publicado no The Conversation.
Tradução revisada por Filipe Prado Macedo da Silva.

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