A operação militar dos EUA contra o Irã demonstrou, de forma dramática, a necessidade de maior autonomia da União Europeia (UE) em assuntos globais. Em resposta, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, defendeu uma nova política externa capaz de orientar o bloco rumo à chamada “independência europeia”.
Porém, não basta que a UE simplesmente se oponha à administração Trump. É igualmente necessário enfrentar um confuso “liberalismo iliberal” que tem marcado a forma como o bloco passou a buscar essa autonomia. A UE parece ainda não ter decidido se deseja a independência para preservar a ordem liberal ou para superá-la.
O segundo mandato de Trump intensificou significativamente essa busca por autonomia. Os governos europeus passaram a investir com maior comprometimento na redução da dependência militar e de segurança em relação aos EUA, bem como na diminuição de vulnerabilidades comerciais externas. Esse movimento tornou-se a principal força motriz por trás das políticas externas e de segurança europeias.
A questão é que criticar a atual administração norte-americana não equivale, por si só, à formulação de uma visão clara para o papel da UE em uma ordem internacional em transformação. O debate tem se limitado, de forma indevida, à separação e à resistência em relação aos EUA. Isso cria uma falsa sensação de conforto: reagir aos excessos de Trump é mais fácil do que construir uma estratégia geopolítica coerente. A UE precisa perguntar não apenas contra o que se posiciona, mas também a favor de que projeto atua, e essa resposta permanece incerta, para além de clichês retóricos.
Ademais, a celebração excessivamente autossatisfeita da recente assertividade europeia – em temas como Irã, Venezuela, Groenlândia e disputas tarifárias – acaba desviando o foco da definição de um objetivo estratégico mais claro para a autonomia do bloco.
Nesse contexto, a UE demonstra sinais do que, na psicologia, se denomina “síndrome de comparação descendente”: uma tendência a sentir-se superior ao comparar-se com padrões extremamente baixos. Em outras palavras, a Europa parece avaliar seu próprio desempenho à luz da diplomacia predatória e das ilegalidades atribuídas ao governo Trump, o que reduz o nível de exigência sobre si mesma.
O discurso do presidente francês Emmanuel Macron na Conferência de Segurança de Munique, no qual enumerou as vantagens europeias em relação aos EUA, ilustra bem essa tendência. Da mesma forma, diversos comentaristas têm celebrado a superioridade da retórica europeia em torno de paz, liberdade, regras e democracia, em contraste com o chauvinismo do movimento Make America Great Again (MAGA). Contudo, tais comparações estabelecem um padrão excessivamente baixo e deixam de questionar se as políticas europeias, de fato, correspondem aos valores que proclamam.
Uma virada iliberal
Na prática, a própria UE vem se afastando de normas liberais que critica (com razão) nos EUA. Embora essa mudança seja mais sutil do que a observada na política externa norte-americana, ela levanta dúvidas sobre o uso que o bloco pretende fazer de sua crescente autonomia estratégica.
Multiplicam-se, assim, lógicas contraditórias. A UE firma parcerias com regimes iliberais, como Estados do Golfo e autocracias asiáticas, em nome da defesa do liberalismo. Busca diversificar relações externas com certo grau de urgência, ao mesmo tempo em que tenta demonstrar menor dependência de parceiros tradicionais. Recorre também a instrumentos coercitivos para conter o uso de coerção por outros atores. E adota práticas comerciais distorcivas sob o argumento de proteger o livre comércio.
Desse modo, ao resistir a potências iliberais, a UE passa, em certa medida, a espelhar condutas que critica, ainda que enquadre tal postura como defesa de sua identidade liberal. Com isso, confunde dois objetivos distintos: a autopreservação estratégica e a promoção de valores progressistas na ordem internacional.
Embora a capacidade militar seja essencial para dissuadir ameaças territoriais, a UE necessita também de instrumentos não militares para exercer influência global. Existe o risco de que a atual ênfase na dimensão militar-defensiva se torne predominante a ponto de obscurecer essas outras formas de poder. Caso a Europa opte por uma lógica de “ultra-realpolitik”, terá dificuldade em sustentar sua narrativa como defensora da ordem liberal, da paz e da democracia.
Essas tensões tornam-se evidentes nas respostas europeias à crise no Irã. Os governos europeus estão corretos ao defender o direito internacional frente a intervenções militares. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, destacou-se ao enfatizar tal posição. No entanto, faltam propostas concretas que preencham o espaço entre, de um lado, ações militares ilegais e, de outro, a inação diante de regimes repressivos. Reafirmar princípios jurídicos e adotar uma postura moralmente autossatisfeita pouco contribui para melhorar a situação de cidadãos sob regimes autoritários, como no Irã e na Venezuela. Logo, uma autonomia europeia verdadeiramente liberal exigiria um engajamento mais ativo em favor de mudanças democráticas, ainda que sem recorrer às ações militares dos EUA.
Diante de crises cada vez mais complexas, a UE precisa não apenas demonstrar firmeza frente a Trump, mas também exercer autocrítica. Os governos europeus devem definir se a autonomia estratégica será orientada pela construção de uma “potência alternativa”, com identidade própria, ou pela adesão à lógica tradicional da política de poder. Sem essa definição, a independência europeia corre o risco de se tornar um projeto sem direção, como um navio que parte sem destino.
Este texto foi originalmente publicado no The Conversation.
Traduzido por Filipe Prado Macedo da Silva.

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