Bastou uma única noite em Ceuta para interromper um verão até então relativamente tranquilo na fronteira sul da Europa. Entre os dias 30 e 31 de julho, mais de 70 mil pessoas cruzaram a fronteira entre o Marrocos e o enclave espanhol, a maioria delas pelo mar, contornando a nado as cercas fronteiriças fortemente vigiadas.
Para efeito de comparação, no auge da crise migratória de 2015–2016, a Itália recebeu mais de 180 mil migrantes irregulares ao longo de um ano inteiro. O número registrado em Ceuta correspondeu, deste modo, a aproximadamente um terço do total do ano de maior fluxo migratório para a Itália, concentrado em um único dia.
Desde então, a maioria das pessoas que atravessou a fronteira retornou ao Marrocos. No entanto, o episódio já se transformou em uma crise política que envolve toda a União Europeia (UE). Ao final daquele dia, a Itália havia suspendido a aplicação do acordo de livre circulação de Schengen em relação à Espanha.
Essa decisão foi essencialmente política, mas também pouco prudente. Ela ignorou o fato de que a maioria das pessoas que atravessou a fronteira em Ceuta tem pouco interesse em seguir para a Itália. Além disso, justamente no momento em que entram em vigor as novas regras migratórias da UE, que estabelecem a “solidariedade flexível”, a decisão cria um precedente para que os Estados-membros deixem de apoiar os países situados na linha de frente – inclusive a própria Itália – quando estes voltarem a enfrentar pressões migratórias.
Quem é responsável pelo que aconteceu em Ceuta?
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, atribuiu o fluxo migratório repentino a redes internacionais de contrabandistas, que teriam explorado uma decisão recente da Suprema Corte espanhola que impede as autoridades de devolver sumariamente os migrantes que forem interceptados no mar.
Políticos e comentaristas de direita, por sua vez, apontaram para a recente anistia dada pela Espanha a quase um milhão de pessoas. Estudos acadêmicos, contudo, são céticos quanto à ideia de que políticas desse tipo funcionem como fatores de atração para os migrantes.
De qualquer maneira, uma travessia dessa magnitude dificilmente teria sido possível sem a cooperação de Marrocos. Surgiram relatos de que autoridades marroquinas permitiram a passagem de pessoas em pontos nos quais, apenas um dia antes, elas estavam sendo impedidas de prosseguir.
O governo marroquino não emitiu uma declaração oficial, mas a mensagem parece clara: as autoridades do país podem permitir ou impedir a passagem de pessoas pela fronteira, em grande medida, conforme sua própria conveniência. É isso que estudiosos denominam como “instrumentalização” ou “uso da migração como arma”.
Neste caso, a situação provavelmente está relacionada à divergência política em torno do Saara Ocidental, antiga colônia espanhola anexada pelo Marrocos na década de 1970.
Dias antes da travessia em massa na fronteira, Sánchez havia visitado a Argélia, onde foi discutida a controversa questão da independência do Saara Ocidental. A sinalização de que a Espanha busca estreitar suas relações com a Argélia, que apoia a Frente Polisário, movimento favorável à independência do Saara Ocidental, é vista como uma ameaça à reivindicação marroquina sobre a região.
Essa tática possui diversos antecedentes na Europa. Em 2020, o presidente da Turquia, Recep Erdoğan, advertiu que a UE “pagaria o preço” por não ampliar a ajuda financeira e o apoio às operações militares turcas na Síria. Em poucos dias, cerca de 13 mil pessoas tentaram entrar na Grécia atravessando o rio Evros.
Uma década antes, o então líder da Líbia, Muammar Gaddafi, advertiu que a Europa iria “se transformar na África” caso a UE não pagasse bilhões de euros ao seu país, demonstrando como a migração pode ser utilizada como instrumento de pressão para alcançar outros objetivos políticos.
Rotas migratórias no Mediterrâneo
Para além deste último aumento repentino, o número total de travessias pelo Mediterrâneo é, na realidade, comparativamente baixo. Entre janeiro e junho de 2026, aproximadamente 49 mil pessoas atravessaram irregularmente as fronteiras externas da UE, uma redução de 37% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Essa queda dá continuidade a uma tendência observada há vários anos: em 2025, foram registradas 178 mil travessias, número que já representava o menor nível desde 2021 e só uma fração dos níveis registrados em 2015.
Entre as três principais rotas marítimas utilizadas por migrantes que se deslocam da África para a Europa, as rotas do Mediterrâneo Oriental, em direção à Grécia, e do Mediterrâneo Central, em direção à Itália, continuam sendo as mais movimentadas. Juntas, essas rotas representaram mais de 60% das detecções: respectivamente, 16.643 e 14.340 no primeiro semestre de 2026.
A rota do Mediterrâneo Ocidental, em direção à Espanha, foi a única com crescimento neste ano, aumentando 17%, com cerca de 7.860 chegadas. Esse avanço foi impulsionado, principalmente, pelo aumento das partidas da Argélia em direção às Ilhas Baleares. O reforço dos controles em Marrocos e nas rotas da África Ocidental e do Mediterrâneo Central levou as redes de contrabandistas para o litoral argelino.
A redução mais ampla dos fluxos também reflete a melhora das condições na Síria: em toda a Europa, os pedidos de asilo apresentados por sírios diminuíram de quase 360 mil, em 2015, para menos de 40 mil, em 2025.
Essa tendência também foi influenciada pelo aumento da cooperação entre os países da UE e os países de origem e trânsito dos migrantes, incluindo os acordos entre a UE e a Turquia, em 2016; entre a Itália e a Líbia, em 2017; e acordos mais recentes entre a UE e a Mauritânia, o Egito e o Senegal.
Tal redução, contudo, não tornou as viagens mais seguras. Somente em 2026, pelo menos 1.545 pessoas foram registradas como desaparecidas ou morreram ao tentar atravessar irregularmente o Mediterrâneo.
O que determina para onde as pessoas vão
Três fatores tendem a influenciar a escolha dos países de destino pelos migrantes. O primeiro, e geralmente o mais decisivo, é a disponibilidade e a natureza das oportunidades econômicas, como as possibilidades de emprego e os níveis salariais, seja no mercado de trabalho formal, seja na economia informal.
O segundo fator são as conexões sociais: ou seja, a presença de familiares, amigos ou de uma comunidade mais ampla da diáspora. Essas conexões funcionam como uma rede de proteção, oferecendo um abrigo e contatos para conseguir um trabalho, além de ajudar os recém-chegados a lidar com a burocracia – fatores que reduzem os custos práticos da chegada e da integração.
O terceiro fator é o idioma e os laços culturais. Isso ajuda a explicar por que migrantes francófonos frequentemente se dirigem à França, enquanto migrantes anglófonos tendem a buscar o Reino Unido.
Além desses três fatores, há ainda um componente considerável de acaso e coincidência. Muitos migrantes partem sem um destino definido. Assim, o local que pretendem alcançar frequentemente muda durante a viagem, influenciado por encontros com contrabandistas, alterações nas condições das fronteiras ou informações transmitidas por outros viajantes.
Em resposta aos acontecimentos em Ceuta, líderes políticos defenderam novas medidas restritivas. No entanto, a própria lógica do espaço Schengen – uma Europa sem controles nas fronteiras internas – significa que o local por onde uma pessoa entra inicialmente é, em grande medida, irrelevante.
Nesse sentido, as fronteiras se comportam como balões. Quando se aperta uma parte, o ar não desaparece; ele simplesmente se desloca e cria uma saliência em outro ponto.
A fronteira do Mediterrâneo funciona da mesma maneira. O fluxo de pessoas pode ser deslocado de um ponto de entrada para outro – da Itália e da Grécia para a Espanha, ou das Ilhas Canárias para Ceuta. Todavia, considerando as evidências da última década, não se trata de um fenômeno que possa simplesmente desaparecer.
Este texto foi originalmente publicado no The Conversation.
Tradução revisada por Filipe Prado Macedo da Silva.

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