Professora de Política de Comércio Internacional na Aston University (Reino Unido).
O acordo de livre comércio entre a União Europeia (UE) e a Índia, recentemente concluído, destaca-se por sua escala e ambição. Apelidado de “a mãe de todos os acordos” pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o acordo surge em um momento simbólico: a Índia ultrapassou o Japão e tornou-se a quarta maior economia do mundo.
O comércio bilateral de bens e serviços entre a UE e a Índia já movimenta cerca de € 180 bilhões. O acordo pretende dobrar as exportações europeias para o mercado indiano até 2032 e criar uma área de livre comércio que abarque aproximadamente um quarto da população mundial (quase dois bilhões de pessoas) e por cerca de 25% do PIB global.
Em um momento histórico no qual o sistema multilateral de comércio está sob pressão crescente, caracterizado por tarifas, rivalidades geopolíticas e fragmentação econômica, o acordo UE–Índia oferece uma forte mensagem: a era do comércio internacional não chegou ao fim.
O que se observa, na verdade, é uma adaptação às novas realidades globais. Em vez de abandonar o livre comércio, os países tornaram-se mais seletivos, priorizando acordos bilaterais com parceiros estratégicos. Um exemplo disso é o acordo comercial firmado pelo Reino Unido com a Índia em julho de 2025.
Tradicionalmente, acordos de livre comércio estabelecem regras sobre como dois ou mais países devem se relacionar no que diz respeito a importações, exportações, investimentos e outras atividades econômicas.
Porém, analisar o acordo UE–Índia sob a ótica do livre comércio clássico seria equivocado. Os acordos das décadas de 1990 e do início dos anos 2000, como o Nafta ou os primeiros acordos da UE, foram impulsionados por reduções tarifárias e ganhos de eficiência. O acordo UE–Índia, por sua vez, foi moldado por pressões geopolíticas e por preocupações crescentes com a resiliência diante de choques comerciais e crises sistêmicas.
O lento processo de negociação
As negociações comerciais entre a UE e a Índia começaram em 2007, mas só ganharam novo impulso em 2025, em meio à retomada das ameaças tarifárias por parte dos EUA durante o segundo mandato de Donald Trump.
Esse contexto aprofundou os desequilíbrios comerciais entre a UE e a China, em razão da estratégia chinesa de maior autossuficiência e da adoção de controles de exportação. Além disso, reforçou as preocupações quanto à vulnerabilidade das cadeias globais de suprimentos. A constituição do Conselho de Comércio e Tecnologia UE–Índia, em 2023, inspirado no modelo UE–EUA, ilustra assim como os acordos comerciais contemporâneos passaram a integrar objetivos econômicos, tecnológicos e estratégicos.
Em um momento de crescente protecionismo e intensificação da rivalidade geopolítica, o acordo UE–Índia representa uma oportunidade de recalibrar o alinhamento comercial. O acordo também abre espaço para repensar a arquitetura do comércio internacional, ao mesmo tempo em que fortalece a resiliência das cadeias de suprimentos na Ásia, na Europa e no Atlântico.
Para a UE, o acordo é um pilar central da estratégia de diversificação econômica. Por isso, tornou-se urgente reduzir a dependência em relação à China, atualmente o maior parceiro comercial do bloco.
Em 2024, mais de 21% das importações da UE tiveram origem na China, enquanto apenas 8,3% das exportações europeias foram para o mercado chinês. Esse desequilíbrio resultou em um déficit comercial de € 304 bilhões com a China.
Logo, o acordo com a Índia oferece à UE a possibilidade de mitigar sua dependência excessiva da China, reduzir riscos nas cadeias de suprimentos e garantir acesso a um mercado consumidor em rápida expansão. Para as empresas europeias, isto representa oportunidades de crescimento na Ásia em um período marcado pela desaceleração e estagnação da demanda interna no bloco.
O acordo também facilita a diversificação de fornecedores e a criação de bases produtivas alternativas em momentos de ruptura das cadeias globais. A posição estratégica da Índia no Indo-Pacífico reforça seu valor para a UE, dada a crescente importância das rotas marítimas e da interdependência econômica regional. Isso torna o país um parceiro-chave diante das incertezas sobre o futuro das relações transatlânticas com os EUA.
O acordo eliminará tarifas sobre têxteis e vestuário, oferecendo aos produtores indianos um parceiro comercial confiável quando entrar em vigor. Marcas europeias como Zara e H&M poderão diversificar sua produção, reduzindo a dependência da China e fortalecendo polos industriais indianos. Estima-se que os custos de produção na Índia sejam reduzidos, uma vez que o acordo isentará as peças de vestuário de tarifas.
O setor farmacêutico também se destaca como uma área promissora. Embora as tarifas da UE já sejam relativamente baixas, o acordo busca simplificar regulações e fortalecer os regimes de propriedade intelectual, o que integrará de forma mais eficiente os produtores indianos de medicamentos genéricos às cadeias de suprimentos de saúde europeias.
O escopo do acordo vai além de bens, serviços e investimentos. A cooperação em energia limpa alinha o Pacto Ecológico Europeu (estratégia do bloco para alcançar a neutralidade climática) à meta indiana de instalar 500 gigawatts de capacidade renovável até 2030. Isto abre caminho para uma liderança conjunta em áreas como energia solar, energia eólica, redes elétricas e hidrogênio verde.
Em síntese, o acordo UE–Índia não representa um retorno à ortodoxia do livre comércio, nem sinaliza seu declínio definitivo na atual ordem global fragmentada. Ele evidencia, antes, como o comércio internacional evoluiu para ser uma ferramenta estratégica de geopolítica e segurança econômica. Assim, os mercados continuam se abrindo – de forma seletiva, cautelosa e orientada por interesses estratégicos. Isto reflete uma nova geração de acordos comerciais moldados tanto pelo acesso a mercados quanto pela busca de resiliência e autonomia econômica.
Este texto está sob uma licença Creative Commons Atribuição-SemDerivações 4.0 Internacional. É permitida a reprodução total ou parcial do conteúdo sempre que a fonte original for citada.
Sociólogo e Doutor em Agronomia. Professor de Investigação (Catedrático) Aposentado do Consejo Superior de Investigaciones Científicas (Espanha).
Desde o começo das negociações, há 25 anos, o Acordo de Associação entre a União Europeia (UE) e o Mercosul tem sido, e continua a ser, um projeto louvável de cooperação transatlântica, cujo objetivo é criar uma ampla área de livre comércio (que pode representar quase 20% do PIB mundial) e desenvolver programas comuns de natureza não econômica, mas também política e social.
No entanto, como reflete o longo período de negociação, o processo não foi simples. Ao longo do tempo, o Acordo atravessou fases em que esteve prestes a ser aprovado e outras em que parecia ter sido abandonado, variando conforme as conjunturas políticas em ambos os blocos regionais.
A dificuldade associada a esse tipo de acordo – ambicioso em seus objetivos – reside em sua elevada complexidade, tanto política quanto econômica. Por um lado, são acordos de amplo alcance, que afetam uma vasta e diversificada gama de bens e serviços (não apenas agrícolas), muitos deles complementares, mas também outros que são concorrentes. Além do mais, incluem temas de cooperação política e cultural – relacionados a direitos humanos, migração, saúde, mudanças climáticas e bem-estar social – sobre os quais os governos nem sempre fecham consenso, em razão de sua evidente dimensão ideológica.
Por outro lado, a complexidade se intensifica quando há diferenças significativas no nível de desenvolvimento econômico entre os países ou blocos envolvidos, sobretudo quando uma economia é mais diversificada e a outra mais especializada. Nesses contextos, as reduções tarifárias implícitas nesses acordos podem gerar assimetrias na distribuição dos benefícios potenciais, alimentando uma narrativa de vitimização – com forte e eficaz carga emocional – entre os setores potencialmente afetados. Logo, tal narrativa costuma ser sintetizada no slogan “trocar vacas por carros” e instrumentalizada como uma espécie de “moeda de troca” no debate público.
Além disso, a dificuldade é ainda maior quando os acordos não são bilaterais (entre países), mas multilaterais (entre áreas regionais). Nesses casos, sua viabilidade depende da existência de níveis relativamente semelhantes de integração política e econômica entre as partes, de modo a possibilitar um diálogo efetivo entre suas instituições representativas e viabilizar um verdadeiro acordo de cooperação inter-regional. Caso contrário, o resultado tende a ser uma fragmentação do processo em múltiplos acordos bilaterais, nos quais, sob o pretexto do multilateralismo, cada país negocia isoladamente para defender seus próprios interesses, relegando o interesse geral do acordo a um segundo plano.
No caso do acordo multilateral UE–Mercosul, sua elevada ambição, tanto política quanto comercial, sua complexidade (afetando quase uma centena de bens e serviços) e o nível desigual de integração interna em cada bloco – significativamente mais avançado no caso da UE, em razão de sua trajetória mais longa como espaço politicamente integrado – ajudam a explicar as vicissitudes enfrentadas pelo processo de negociação e o inegável atraso em sua concretização.
Do lado europeu, a complexa estrutura de governança da UE tende a retardar os processos internos de tomada de decisão, uma vez que exige a participação obrigatória de múltiplas instituições europeias – Comissão, Parlamento, Conselho e, quando pertinente, o Tribunal de Justiça da UE – o que tem contribuído para a postergação da conclusão do Acordo.
A esse quadro soma-se a instabilidade política crônica de alguns países do Mercosul, que também dificulta a previsibilidade e a continuidade do processo de negociação.
Um acordo controverso
Agora que o Acordo foi assinado na capital paraguaia, Assunção (no sábado, 17 de janeiro), a controvérsia manteve-se intensa, com diversas reações nos círculos de opinião da UE quanto à sua conveniência e oportunidade.
Alguns observadores encaram o Acordo de forma positiva, não apenas pelos benefícios econômicos que acreditam que ele poderá gerar para os países signatários (benefícios que superariam eventuais desvantagens), mas também pelo potencial fortalecimento dos laços culturais entre os dois lados do Atlântico. Além disso, destacam o significado do Acordo como uma demonstração do compromisso da UE com o multilateralismo em um contexto global marcado pelo avanço do protecionismo e por uma tendência a um sistema cada vez mais regido pela lógica da força e pelo interesse nacional.
Outros, por sua vez, opõem-se abertamente ao Acordo, argumentando que a entrada de produtos latino-americanos isentos de tarifas, cujos custos de produção são inferiores aos europeus e cujos padrões ambientais seriam menos rigorosos do que os exigidos pela UE, poderia causar prejuízos significativos a determinados setores sensíveis. Essa posição é particularmente defendida por segmentos do setor agrícola, sobretudo por produtores com propriedades e sistemas produtivos mais vulneráveis à concorrência do Mercosul (como a pecuária), que têm liderado mobilizações e protestos.
Por trás do compreensível temor em relação ao futuro dos agricultores que rejeitam o Acordo, encontra-se um discurso corporativista, receoso da abertura dos mercados e da globalização econômica, e facilmente associável a narrativas populistas de várias matizes políticas (na verdade, os protestos mais recentes envolvendo tratores parecem ter sido organizados por grupos situados fora das principais organizações agrícolas).
Mas, outros segmentos veem o Acordo como uma oportunidade. Alguns agricultores, por exemplo, consideram que pode ampliar o acesso a mercados para determinados produtos agrícolas (como azeite e vinho, sobretudo aqueles com denominação de origem protegida e forte vínculo territorial). Paralelamente, o setor industrial em geral, incluindo a indústria alimentícia, também tende a avaliar o Acordo de forma positiva, entendendo-o como uma via de entrada em um amplo mercado consumidor, no qual podem expandir a oferta de produtos manufaturados, além de serviços diversos, como os financeiros, jurídicos e de consultoria.
As divergências em torno do Acordo deslocaram-se para a esfera política da UE, o que se reflete no fato de ele ter sido aprovado por maioria qualificada, e não por unanimidade, no Comitê de Representantes Permanentes dos Estados-Membros (COREPER), em 9 de janeiro.
É verdade que, graças a um artifício jurídico já utilizado em outras ocasiões, que consistiu em separar o pilar comercial do conjunto do Acordo UE–Mercosul, a aprovação desse pilar não exigiu unanimidade. Como as questões comerciais são de competência da Comissão Europeia, foi suficiente a obtenção de uma maioria qualificada.
Ainda assim, a rejeição por parte da França, Áustria, Hungria, Irlanda e Polônia, bem como a abstenção da Bélgica, refletem a divisão existente dentro da UE em relação a este Acordo.
O firme apoio da Espanha e o voto decisivo da Itália garantiram a aprovação do pilar comercial, com ambos os governos reforçando as cláusulas de salvaguarda e assegurando melhorias relevantes para os agricultores, especialmente, no que diz respeito aos auxílios previstos no âmbito da futura Política Agrícola Comum (PAC), cuja negociação coincidiu com a do Acordo com o Mercosul.
Na prática, o que foi assinado em 17 de janeiro, em Assunção, é o pilar comercial do Acordo, que ainda depende da aprovação do Parlamento Europeu para entrar em vigor.
Se passar por este filtro, como se prevê e salvo imprevistos, o pilar comercial com o Mercosul poderá ser implementado imediatamente. No entanto, sua vigência será provisória, uma vez que a plena entrada em vigor do Acordo depende da aprovação integral dos dois pilares, o político e o comercial, o que exigirá a ratificação por cada Estado-Membro da UE.
Em todo caso, e além de admitir sua inegável complexidade tanto em conteúdo quanto em procedimento, o Acordo UE-Mercosul se baseia em duas convicções e várias certezas, mas também levanta algumas dúvidas.
Duas convicções e várias certezas
A necessidade deste Acordo decorre da convicção, que partilho, de que, em uma economia de mercado, o comércio constitui a base da riqueza de uma nação e deve ser promovido em todos os setores econômicos. Logo, mercados abertos de bens e serviços funcionam como motores do desenvolvimento econômico e devem ser estimulados por meio de acordos que reduzam tarifas e permitam o livre fluxo de comércio entre os países.
O Acordo também tem sido elogiado por seu potencial de impulsionar a integração regional entre os países do Cone Sul da América Latina. Para aqueles que compartilham dessa perspectiva, esse impulso torna-se ainda mais relevante no contexto contemporâneo, diante da evidente estagnação do projeto de integração do Mercosul, que estabeleceu um arcabouço institucional limitado e, com exceção da Bolívia, não conseguiu despertar maior interesse entre outros países da região.
O acordo com a UE é visto, assim, como uma oportunidade para revitalizar esse projeto de integração regional, embora isso seja mais um desejo do que uma certeza , e não coincida com outras visões menos otimistas sobre o futuro do Mercosul, como discutirei mais adiante.
Em relação à questão econômica, é certo que, desde a sua criação no final da década de 1950, a vocação da UE sempre foi a de abrir as suas fronteiras ao comércio mundial, permitindo a entrada de produtos de outros países e a saída de produtos europeus para o mercado externo.
Além disso, todos reconhecem a importância real e inegável de criar um espaço comercial comum para mais de 740 milhões de consumidores entre países com raízes históricas compartilhadas e áreas econômicas complementares, o que se reflete nos estreitos laços culturais e comerciais entre as duas regiões. Vale lembrar que a UE exporta € 55 bilhões em bens e outros € 29 bilhões em serviços anualmente para os quatro países do Mercosul, o que representa quase 17% do comércio total do Mercosul.
Deste modo, convém salientar que o Acordo UE-Mercosul está em consonância com o compromisso da UE com o livre comércio, ao qual se deve acrescentar a certeza de fortes intercâmbios econômicos e os intensos laços de afinidade existentes entre muitos países de ambos os lados do Atlântico.
Algumas dúvidas
Mesmo diante das convicções e certezas mencionadas acima, a realidade é que, três décadas após o início do processo de negociação, o apoio ao Acordo UE–Mercosul está longe de ser unânime, como demonstra a já referida rejeição por parte de cinco Estados-Membros.
Com exceção do Brasil, que liderou o processo de negociação até seus momentos finais, o Acordo despertou pouco entusiasmo entre os governos dos países latino-americanos, que passaram a concentrar-se mais em como lidar individualmente com as políticas agressivas e divisivas do presidente Trump do que em promover a integração regional.
Diante desse cenário, alguns analistas avaliam que o Acordo UE–Mercosul chega tarde e em um momento particularmente complexo, sujeito a significativas pressões internas e externas. Isso levanta dúvidas quanto à sua viabilidade e ao impacto prático que poderá produzir nos países signatários.
Internamente, a UE de hoje é muito diferente do que era no início do século XXI, quando as negociações começaram. A maioria pró-europeia que impulsionou os principais projetos e a liderança que os orientou desapareceram; em vez disso, existe uma profunda divisão dentro da UE. Isso dificulta a obtenção de acordos entre os Estados-membros e, mesmo quando acordos são alcançados, como no caso do Acordo UE-Mercosul, eles são recebidos com a rejeição de países importantes, como a França (embora o fato de a unanimidade não ser exigida tenha permitido ao governo francês evitar o envolvimento em uma questão social altamente sensível na preparação para as próximas eleições presidenciais).
Tudo isso implica reconhecer que a busca por tal tipo de acordo, no contexto atual, acarreta um elevado custo político, na medida em que tensiona a vida política interna da UE e alimenta o populismo de diferentes matizes, enraizado na retórica antiglobalização e no recrudescimento do nacionalismo, fenômenos fortemente associados ao trumpismo. Reconhecer esse fato não significa interromper os projetos da UE, mas sim admitir a necessidade de conduzi-los com máxima cautela.
Além disso, a UE contemporânea está mais concentrada na ameaça proveniente do Leste (associada à Rússia de Putin), e mais preocupada com questões de defesa, especialmente após o distanciamento dos EUA de seu papel histórico como parceiro central da Otan. Isso ajuda a explicar o menor interesse dos países da fronteira oriental da UE em um acordo que tende a ser mais relevante para os países da fronteira ocidental. Com exceção da Espanha e de Portugal, por razões históricas, e em certa medida da Itália, os demais Estados-Membros não têm investido grande capital político em um acordo que percebem como periférico aos seus interesses estratégicos.
Do lado do Mercosul, a cooperação regional encontra-se enfraquecida e praticamente estagnada, limitada a quatro países (Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil), que pouco avançaram na construção da estrutura institucional necessária para tornar o projeto de integração uma realidade e torná-lo atraente para outros países da região (o desinteresse do Chile e da Colômbia, que não vão além do status de países associados, é emblemático, sobretudo em razão da relevância desses países no contexto regional).
Assim, alguns analistas, contrariamente às posições mais otimistas, sugerem se não seria mais conveniente estabelecer acordos bilaterais entre a UE e cada um dos países do Cone Sul.
Em termos de contexto internacional, o Acordo surge num momento em que a influência da China na América Latina é inegável e em que o imperialismo estadunidense volta a impor a sua presença no continente latino-americano.
É por isso que alguns analistas duvidam que um acordo regional como o UE-Mercosul possa contrariar tal presença. Talvez pudesse há 30 anos, mas acreditam que dificilmente conseguirá fazê-lo agora, com os países divididos por profundas diferenças ideológicas (basta pensar nas diferenças entre o governo brasileiro de Lula e o governo argentino de Milei), e sob as pressões rígidas de Trump e as pressões indiretas de Xi Jinping.
Em todo caso, considerando que a UE esteve empenhada por 25 anos no esforço hercúleo de viabilizar o Acordo, sua aprovação constitui uma boa notícia, uma vez que o fracasso teria transmitido uma mensagem negativa sobre o papel da UE no cenário internacional.
Considerações finais
Não há dúvida de que a UE precisa diversificar suas relações internacionais e ampliar sua abertura a outros espaços regionais, especialmente em um contexto global no qual muitos países tendem a se retrair em torno das fronteiras nacionais e a relativizar as regras multilaterais de comércio e cooperação.
No entanto, a UE não deve esquecer que o seu próprio espaço geopolítico, com quase 500 milhões de habitantes e um sistema de valores baseado na democracia, no respeito aos direitos humanos e no bem-estar de seus cidadãos, é suficientemente amplo e relevante para sustentar políticas estratégicas de autonomia. Essas políticas devem conciliar a cooperação com outras regiões e a preservação de seu modelo político, econômico e social.
O pilar comercial do Acordo com o Mercosul, que ainda requer a aprovação do Parlamento Europeu, cumpre um propósito relevante, em consonância com o compromisso da UE com o livre comércio. O pilar de cooperação política é igualmente valioso, pois está alinhado com o histórico compromisso europeu de contribuir para o fortalecimento de espaços de liberdade e democracia em outras regiões do mundo.
A assinatura do Acordo representa, portanto, uma mensagem ao mundo de que a UE segue comprometida com a cooperação entre países e áreas regionais, ainda que isso envolva riscos. Por essa razão, e para minimizar os prejuízos que tal tipo de acordo sempre acarreta para certos setores da população (neste caso, os agricultores, embora não exclusivamente), sua implementação deve ser acompanhada das devidas precauções.
Nesse sentido, destacam-se as cláusulas de salvaguarda incluídas no texto final para mitigar eventuais quedas de preços de certos produtos, consideradas as mais abrangentes já adotadas pela UE. Da mesma forma, a exigência do cumprimento obrigatório das normas de saúde e segurança alimentar para produtos provenientes do Mercosul, assim como da legislação trabalhista, constitui uma garantia fundamental para preservar condições de concorrência equitativas entre os produtores das duas regiões.
O fato de o Acordo se tornar uma boa oportunidade para avançar nas relações entre a UE e os países do Mercosul, e não uma fonte de discórdia que prejudique a já frágil coesão interna da Europa, depende da conciliação entre, por um lado, a abertura comercial e, por outro , a autonomia estratégica , as exigências ambientais e a segurança e saúde alimentar.
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Sociólogo e Doutor em Agronomia. Professor de Investigação (Catedrático) Aposentado do Consejo Superior de Investigaciones Científicas (Espanha).
Desde que Donald Trump venceu a eleição no ano passado, seu retorno à presidência dos EUA tem sido amplamente analisado pela imprensa internacional. O interesse aumentou, sobretudo, depois da posse em 20 de janeiro, em um ato impecável de transferência de poder por parte de Joe Biden e da liderança do Partido Democrata (PD), deixando evidente o vergonhoso e criminoso ataque que aconteceu, quatro anos atrás, ao Capitólio pelos seguidores de um Trump então incapaz de aceitar sua derrota.
Tal interesse é compreensível, não apenas pela personalidade única de Trump, mas, acima de tudo, pelos possíveis efeitos políticos, sociais e econômicos que seu segundo mandato pode ter dentro e fora dos EUA.
No âmbito social e político, tais efeitos já são aparentes nas polêmicas nomeações de sua equipe de governo e no enorme número de decretos assinados sobre tais questões, poucos dias após sua posse. Porém, é mais difícil prever o que acontecerá em questões econômicas já que, nesta área, as decisões são tomadas em um ritmo diferente e seus efeitos demoram algum tempo para se tornarem visíveis.
No entanto, o anúncio inesperado de um aumento nas tarifas sobre o México, o Canadá e a China já é um indicador do que pode acontecer.
Populismo conservador em ascensão
Com a volta de Trump à Casa Branca, surge uma segunda onda de populismo conservador, se é que a primeira onda deixou de existir após sua derrota na eleição de 2020.
É fato que, ao longo da presidência de Biden, o trumpismo permaneceu ativo, dada a incapacidade do PD de mobilizar os eleitores democratas na medida satisfatória para neutralizá-lo (prova disso são os mais de sete milhões de votos perdidos por Kamala Harris nas eleições de 2024, em comparação aos obtidos por Biden quatro anos antes).
Agora, com Trump e o Partido Republicano (PR) no controle dos três poderes – judiciário, executivo e legislativo – é muito provável um expurgo das autoridades não-simpáticas ao trumpismo; existe uma regressão em termos de direitos e de liberdades civis; os valores essencialistas da cultura americana original (branca e ocidental) são novamente exaltados; a ordem interna e a segurança nacional são priorizadas; os interesses norte-americanos são colocados antes das regras globais das organizações multilaterais (como a OMS ou a COP das Nações Unidas); a imigração ilegal voltou a ser acuada (as primeiras deportações para os seus países de origem já foram efetuadas); a expansão do discurso de negação climática (reativação de políticas de apoio aos combustíveis fósseis e medidas favoráveis ao fracking); as políticas identitárias e de diversidade são demonizadas (como o próprio Trump fez após o trágico acidente de avião em Washington, alguns dias atrás); etc.
É crível ainda que, surfando nesta onda de populismo conservador, haja uma consolidação de partidos alinhados ao trumpismo em outros países, como já está acontecendo na Itália, na Alemanha e na Hungria (e em menor grau na Espanha) e ocorreu nas últimas eleições europeias (com o forte aumento do voto de extrema direita), ou como poderá acontecer na França nas próximas eleições.
Um cenário econômico ainda incerto, mas preocupante
Todavia, no campo econômico, ainda é cedo para mensurar o alcance do segundo mandato de Trump como presidente dos EUA, já que é provável que as ações de seu governo sejam tomadas com mais cautela, dados os efeitos que podem ter em uma economia tão aberta como a norte-americana.
Veremos o que acontecerá com a contemplação dos três grandes nomes das empresas de tecnologia (Musk, Bezos e Zuckerberg) prestando homenagem a Trump. Por enquanto, a chegada do programa de inteligência artificial chinês Deep Seek aos mercados é um aviso para todos.
O movimento MAGA (Make America Great Again), que Trump utilizou para ativar o senso patriótico de seu eleitorado, é mais eficaz no nível das emoções do que no das práticas políticas.
De fato, quando se trata de políticas econômicas específicas, a Casa Branca tem muito mais autonomia para implementar suas ações protecionistas do que seu discurso populista na esfera social e cultural.
O poder e a influência dos grandes grupos empresariais (não apenas os de tecnologia), que precisam competir em mercados abertos e globais, são sempre um fator que limita a ação dos governos, embora no que diz respeito ao governo Trump, tão seguro de si, ainda não se sabe até que ponto a lógica econômica será capaz de colocar limites a uma lógica política tão ideologizada.
Por enquanto, o aumento das tarifas sobre o México, China e Canadá mencionado acima e o anúncio de que fará o mesmo com a UE mostram que as intenções políticas de Trump escapam de qualquer lógica econômica.
De qualquer forma, e embora o cenário econômico futuro ainda seja incerto, existe uma preocupação lógica fora dos EUA sobre a possibilidade (bastante real) de o governo Trump aumentar as tarifas sobre produtos que entram no mercado norte-americano.
E tal preocupação é ainda mais compreensível dado que o governo Trump, em sua corrida protecionista, está disposto a se afastar de alguns órgãos reguladores, como a OMC, para justamente violar acordos comerciais multilaterais.
No entanto, e relembrando o que aconteceu durante sua primeira presidência, parece que o possível aumento das tarifas seria feito de forma gradual e focado em países e produtos específicos (como já mencionado para produtos específicos mexicanos ou canadenses); se isto ocorrer de forma generalizada e abrupta, poderá sair pela culatra em uma economia tão aberta como a dos EUA, causando, por exemplo, uma forte inflação interna.
Além disso, a resposta dos países afetados por um aumento das tarifas pelo governo Trump poderia ser o de aumentar as suas próprias, dificultando assim, a entrada dos produtos norte-americanos nos mercados destes países, o que levaria a uma guerra comercial com efeitos geopolíticos ainda inimagináveis em uma economia mundial tão globalizada como a atual.
Em qualquer caso, a imprevisibilidade do governo Trump significa que o mesmo deve ser analisado diariamente, mesmo sob o risco das análises se tornarem obsoletas assim que forem publicadas.
O valor da integração europeia
Neste ponto, porém, vale ressaltar o valor da integração supranacional para lidar com os efeitos de um possível cenário desregulamentado e intensamente competitivo. Em um mercado sem regras, como o promovido por Trump, países médios e pequenos não podem se defender sozinhos, mas apenas por meio de algum tipo de estratégia de integração entre eles.
No caso europeu, a UE deve ser o “guarda-chuva” dos países que a compõem diante das ameaças tarifárias de Trump, já que nenhum deles isolado (nem mesmo a França ou a Alemanha) teria capacidade de enfrentar uma guerra comercial de tal magnitude.
Daí o interesse de Trump em dividir a UE ao fragmentar o diálogo com alguns governos com ideias semelhantes (por exemplo, abordando separadamente a Itália de Meloni ou a Hungria de Orbán).
Contudo, as ameaças de Trump também são uma oportunidade para avançar o processo de integração europeia de forma realista, e sem cair em devaneios federalistas que não levam a lugar nenhum e que só causam divisões dentro da UE.
Neste contexto, os governos dos países-membros da UE devem preparar-se para responder de forma coordenada a tais ameaças, aproveitando a força do mercado interno europeu (mais de 500 milhões de consumidores), bem como a força de alguns dos seus setores produtivos, como o agroalimentar, o financeiro, o automobilístico, o turismo, a indústria cultural, etc.
A UE também deve aproveitar a possibilidade de estabelecer alianças alternativas com outros países (por exemplo, China, Mercosul, Canadá, países do Golfo e da costa sul do Mediterrâneo, etc.), transformando sua capacidade de diversificar as relações econômicas em uma força.
Neste meio tempo, enquanto esperamos para ver como o novo cenário econômico global se desenvolverá com o segundo mandato de Trump, as instituições da UE e as empresas europeias como um todo deveriam estar se preparando para lidar com tal desafio.
No nível político da UE, existe a oportunidade de fortalecer ainda mais o mercado único, de abordar a questão da autonomia estratégica (em relação à energia, suprimentos médicos e alimentos) e de promover a reindustrialização em setores-chave como, por exemplo, o das tecnologias digitais e o da segurança e defesa (em linha com o Relatório Draghi e o documento Competitiveness Compass apresentado em 29 de janeiro pela presidente da Comissão Europeia).
E tudo, conciliando o objetivo da descarbonização com o da competitividade e adaptando os próximos alargamentos da UE ao novo cenário internacional, bem como às reformas políticas em curso ou a concretizar (incluindo a Política Agrícola Comum); além do mais, é importante avançar na assinatura dos acordos comerciais (como o Mercosul, que ainda aguarda ratificação).
No que diz respeito às empresas, cujo impacto das políticas tarifárias será – na prática – muito desigual entre os setores, elas deveriam ver o cenário que se abre com o retorno de Trump não como uma ameaça, mas como uma oportunidade – a necessidade obriga – para abordar ajustes internos que reduzam os custos de produção, que avancem em matéria de digitalização, que promovam uma maior integração em termos de estratégias comerciais, que apostem na qualidade como fator de competitividade, que diversifiquem os mercados internos e externos, entre outros.
Seria também uma oportunidade para consolidar algumas cadeias de valor, fortalecendo sua posição com estruturas interprofissionais mais eficientes, e aproveitando melhor o potencial das indicações geográficas, a fim de ganhar força nos mercados internacionais.
O caso da Espanha
Sendo um país de médio porte com uma economia aberta, a Espanha deve se preparar, em linha com a UE, para enfrentar os novos desafios da segunda era Trump, especialmente em setores como o alimentício, em que é forte, mas também vulnerável.
Em primeiro lugar, e a nível governamental, seria necessário ter um diagnóstico claro e real da situação, identificando as possíveis ameaças, mas também avaliando as oportunidades que se abrem para a economia espanhola.
No que se refere à questão alimentar, o documento da Estrategia Nacional de Alimentación (ENA), elaborado pelo MAPA (Ministério de Agricultura, Pesca e Alimentação da Espanha), é uma oportunidade para fazer um bom diagnóstico da situação do setor e estabelecer o caminho a seguir no novo cenário internacional.
Em segundo lugar, a nível empresarial, e para além das orientações gerais emitidas pelo governo, as empresas, com o apoio das associações setoriais nas quais baseiam os seus interesses, devem elaborar os seus relatórios de impacto, analisando as dificuldades que se avizinham nos setores correspondentes, mas ainda os ambientes favoráveis que podem explorar.
Neste contexto, vale destacar que a escala importa e, por isto, será fundamental integrar estratégias comerciais entre os setores mais vulneráveis.
Ainda mais importante, é a qualidade e a capacidade de penetrar não apenas no mercado norte-americano, mas também em outras áreas regionais e, claro, aumentar a presença no sempre seguro mercado interno da UE, um mercado que ainda não é satisfatoriamente explorado por algumas das produções espanholas.
Este texto está sob uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional. É permitida a reprodução total ou parcial do conteúdo sempre que a fonte original for citada.