Quando o Conselho Europeu – a instituição da União Europeia (UE) que reúne os Chefes de Estado e/ou de Governo dos 27 países-membros – confirmou politicamente a aprovação do Acordo UE-Mercosul, em 9 de janeiro de 2026, tornou-se evidente o ambiente paradoxal no qual a Europa passou a operar.
No plano interno (dentro das fronteiras da UE), as tensões geradas pela mobilização dos agricultores europeus intensificaram-se a partir de dezembro de 2025, culminando no maior protesto agrícola desde os anos 1990. Na França, os produtores rurais mantêm há mais de duas semanas bloqueios de vias e manifestações contínuas em Paris e em outras cidades, direcionadas contra o Acordo UE–Mercosul.
Em dezembro de 2025, parecia que o Acordo UE-Mercosul poderia fracassar. Emmanuel Macron, presidente francês, convenceu a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, de que era prematuro ratificar o acordo com os países sul-americanos. Na ocasião, Lula, à frente da presidência pro tempore do Mercosul, criticou o adiamento da conclusão do tratado comercial.
Porém, a virada do ano marcou uma inflexão: o cenário externo deteriorou-se rapidamente nos primeiros dias de 2026.
A captura de Nicolás Maduro na Venezuela e as ameaças de Trump à Groenlândia – parte do Reino da Dinamarca – apenas confirmam, como já argumentei em outro artigo, que os EUA passaram a atuar como parceiro constrangedor da UE e da ordem internacional.
Diante deste cenário, os líderes europeus optaram por relativizar as pressões internas de seus agricultores e priorizar as ameaças externas dos EUA, deslocando o eixo decisório do plano doméstico para o plano sistêmico. A mudança mais relevante foi no voto da Itália.
Assim, colocaram em prática o que a literatura de Relações Internacionais denomina de realismo neoclássico, segundo o qual o Estado – ou, no caso europeu, a UE enquanto ator político composto – formula suas escolhas estratégicas a partir das pressões do sistema internacional, ainda que tais escolhas impliquem custos políticos internos significativos.
Neste enquadramento, os conflitos domésticos não desaparecem, mas são tratados como variáveis de ajuste. Logo, a preservação da posição internacional, a autonomia estratégica e a capacidade de resposta a ameaças externas passa a constituir a prioridade central da ação política.
No caso europeu, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, já sinalizou a destinação de até € 45 bilhões adicionais em financiamento rural como forma de mitigar resistências e apaziguar a mobilização dos agricultores.
Trump como choque sistêmico e a lógica estratégica da diversificação
O realismo neoclássico sustenta que o sistema internacional impõe pressões estruturais que orientam o comportamento dos atores políticos, mas cuja tradução em política externa depende da interpretação das lideranças e dos filtros institucionais domésticos.
No caso europeu, a presidência Trump operou como um choque sistêmico: ao atacar o multilateralismo, instrumentalizar guerras tarifárias inclusive contra aliados e condicionar a cooperação internacional a ganhos imediatos. Dessa maneira, os EUA deixaram de atuar como parceiro estratégico e passaram a se comportar como um parceiro constrangedor, politicamente coercitivo e estrategicamente imprevisível.
Esse cenário alterou o cálculo estratégico da UE. A elevada dependência do mercado norte-americano passou a ser vista como vulnerabilidade. Em uma relação assimétrica, os EUA impunham custos, restando à UE responder racionalmente por meio da diversificação de parceiros estratégicos, reduzindo a barganha de Washington. Foi isso, em setembro de 2025, que acelerou a validação do Acordo UE-Mercosul.
O Mercosul emerge, neste sentido, como parceiro lógico. Mais do que um tratado comercial, o Acordo UE–Mercosul é um instrumento geopolítico, ampliando mercados, assegurando insumos estratégicos e projetando normas europeias nos países sul-americanos.
Ao aprová-lo, os líderes reunidos no Conselho Europeu concluíram que o custo estratégico da inação superava os custos políticos internos, admitindo que a pressão sistêmica externa passou a orientar a política comercial europeia, acima de interesses setoriais específicos.
Conflitos domésticos e a administração dos custos políticos
No realismo neoclássico, os conflitos domésticos não desaparecem: atuam como filtros, atrasos e custos políticos.
Assim sendo, a oposição dos agricultores europeus foi intensa e relevante, mobilizando protestos, pressionando parlamentos nacionais e fortalecendo discursos protecionistas. Em uma leitura liberal (ou até pluralista), tal resistência poderia bloquear o acordo.
O que se observa, porém, é um padrão distinto: a contestação interna não alterou a decisão estratégica, apenas condicionou sua implementação.
A resposta da UE seguiu três mecanismos clássicos. Primeiro, a dilatação temporal, com adiamentos e renegociações pontuais. Segundo, a compensação, por meio do reforço da Política Agrícola Comum (PAC), fundos de ajuste e cláusulas de salvaguarda. Terceiro, a reformulação discursiva, enquadrando o Acordo UE–Mercosul como um instrumento de defesa estratégica do projeto de integração europeu, e não só de liberalização comercial.
Tal dinâmica confirma que a política externa resulta da interação entre pressões sistêmicas e estruturas domésticas. Os agricultores não definiram o rumo da decisão, mas o custo político de sua execução.
Em suma, diante de um parceiro constrangedor – os EUA – recuar internamente sinalizaria fragilidade externa.
A aprovação do acordo, mesmo sob contestação, tornou-se parte de um jogo estratégico, no qual a UE busca preservar credibilidade, reduzir dependências e afirmar sua autonomia em um sistema internacional tensionado.
Este texto foi originalmente publicado no The Conversation Brasil.

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