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  • 19 de setembro de 2025
    Insights
    Na política econômica europeia, o novo mundo ainda não nasceu

    Na política econômica europeia, o novo mundo ainda não nasceu

    PALAVRAS-CHAVE Economia, Inovação, P&D, Política Econômica, Política Industrial

    Avatar de Sander Tordoir

    Sander Tordoir

    Economista-chefe do Centre for European Reform (Reino Unido).


    À medida que a Europa revisita a sua estratégia econômica – impulsionada por apelos para “tornar a Europa competitiva novamente” – é preciso ir além de polarizações forçadas e perguntar o que é necessário hoje para construir e ampliar a capacidade tecnológica. Isto exige uma agenda de pesquisa mais precisa: uma que explore como os setores de média e alta tecnologia se reforçam mutuamente, como funcionam os ecossistemas industriais e como a política de concorrência europeia se encaixa num mundo moldado por estratégias industriais em larga escala da China e dos EUA.

    Os produtores europeus prosperaram nas exportações industriais — automóveis, aviões, máquinas — apoiados por um mercado interno de bens sólidos e eficientes. O mercado único deu escala às empresas dentro da Europa, viabilizou cadeias de valor que vão da Alemanha e da Suécia até países-membros de menor custo salarial, possibilitando descentralizar a produção: design e engenharia ficaram nas regiões de alta qualificação, enquanto que componentes passaram a ser produzidos na Europa Central e Oriental. Nos serviços, em especial no setor digital, o desempenho foi bem diferente: a Europa ficou para trás. Como alerta Mario Draghi, o continente está preso numa “armadilha da tecnologia intermediária”. Enquanto as big tech americanas puxam os investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), a maior parte da P&D privada europeia permanece concentrada em automóveis, farmacêutica e maquinário — exatamente como há 20 anos. Além do mais, a abertura excessiva teve custos. A Europa vendeu joias industriais, como a fabricante de robôs Kuka, para a China, e deixou que empresas promissoras de TI fossem absorvidas por gigantes norte-americanas. Ainda assim, o problema mais profundo não está só nas aquisições estrangeiras, mas na fragmentação dos mercados europeus de serviços e de capitais.

    O debate sobre a resposta da Europa ainda é confundido por falsas escolhas. Há quem defenda que o continente não tem como competir com a China em setores intensivos em capital e escala, devendo, portanto, se limitar a nichos específicos de mercado. Outros acreditam que a “velha cartilha” continua válida: liberalizar os mercados de trabalho e de produtos, aprofundar os mercados de capitais e permitir que empresas intensivas em P&D surjam por conta própria. No entanto, em um cenário em que EUA e China distorcem os mercados com subsídios, proteção da demanda e vantagens de escala, a Europa não pode se manter neutra em relação à sua estrutura setorial. O continente precisa de uma política industrial – não apenas voltada para startups, mas também para setores estratégicos sob pressão – acompanhada de uma política de concorrência à altura dos desafios.

    Em primeiro lugar, a Europa precisa repensar sua política comercial e alinhá-la de forma clara à estratégia industrial. A União Europeia (UE) tem usado sua tradicional habilidade em negociar acordos para avançar com o Mercosul e até cogita aderir ao Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica (CPTPP). No entanto, os novos tratados de livre-comércio (sigla em inglês, FTAs) têm limites. Os EUA ainda concentram metade dos déficits comerciais globais e continuam sendo a principal fonte de demanda para economias com excedentes, como a europeia. Com Washington voltando-se cada vez mais para dentro, a Europa precisa fortalecer sua própria demanda interna para sustentar o crescimento – o que abre um debate sobre a melhor forma de usar os instrumentos fiscais.

    Já não vivemos em um mundo de comércio ricardiano. A teoria da vantagem comparativa parte do pressuposto de que os países migram para as áreas em que são relativamente melhores e deixam de produzir aquilo que outros fazem de forma mais eficiente. Porém, a China sobe a escada tecnológica ao mesmo tempo em que mantém a manufatura de baixo custo, fechando espaço para mercados emergentes. Atualmente, a vantagem comparativa decorre menos de dotação natural de recursos e mais de política industrial e investimento. A China aceita acumular perdas de longo prazo para desmantelar as vantagens alheias e construir as suas próprias. Além disso, os chineses não compartilham sua demanda com os parceiros comerciais: desde a sua entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001, as importações de bens manufaturados em relação ao PIB caíram, incentivadas por regras de conteúdo local e subsídios.

    As empresas chinesas têm capacidade para produzir mais de 50 milhões de carros por ano, enquanto a demanda global gira em torno de 85 a 90 milhões. A demanda doméstica é de 25 milhões, e as exportações somam apenas 6 milhões – o que significa que a capacidade ociosa tende a ser direcionada ao exterior. E isto vai muito além dos automóveis. A China já domina a produção mundial de aço bruto, lâminas de silício para os painéis solares, químicos para baterias, construção naval e os insumos farmacêuticos ativos. Além disso, avança em passo acelerado em robótica, maquinário industrial e aeroespacial. Escalar a produção sem avaliar a demanda gera pressão deflacionária e acelera a desindustrialização prematura em outros países, ameaçando setores em que a Europa ainda se mantém à frente – e também os ecossistemas dos quais depende o seu futuro de alta tecnologia. A fabricante de equipamentos para chips ASML pode ser vista como uma “joia da coroa” europeia, mas depende de fornecedores como a Zeiss (lentes) e a Trumpf (lasers), cujos negócios vão além dos semicondutores. Se tais empresas perderem escala, transferirem parte da produção para a China ou sofrerem com margens menores, todo o ecossistema europeu de equipamentos para chips corre o risco de se desfazer.

    A Europa precisa de salvaguardas comerciais mais firmes. As exportações para os EUA e a China representam pouco mais de 4% do PIB da UE – um volume relevante, mas ainda menor que o peso do próprio mercado interno. Um aumento do investimento público por parte da Alemanha e de outros países com baixa dívida pode impulsionar a demanda, e a Europa, que exporta mais de € 300 bilhões em poupança por ano, tem condições de fazê-lo. O problema é que, sem salvaguardas, tal estímulo pode acabar beneficiando empresas chinesas. Com um superávit comercial de US$ 1,1 trilhão e exportações cada vez mais redirecionadas dos EUA para a Europa, o risco é crescente. Uma política industrial com preferências europeias pode elevar os retornos e reduzir riscos para as empresas do bloco, mas o desafio está em alcançar tal objetivo mantendo a concorrência interna e, ao mesmo tempo, preservando mercados e incentivos industriais abertos aos aliados.

    O segundo desafio é compreender melhor a interação entre os setores de média e alta tecnologia. Nas últimas duas décadas, a TI e a indústria manufatureira foram responsáveis pelo maior crescimento de produtividade na Europa, mas o debate costuma cair em uma falsa dicotomia: apostar apenas em startups de alta tecnologia ou aceitar o declínio da média tecnologia. Assim, a Europa carece de capacidade em áreas como design de chips, softwares corporativos e inteligência artificial – justamente onde a intensidade em P&D é maior. Ainda assim, a Europa mantém forças globais em setores de média tecnologia, como farmacêutico, automotivo, tecnologias limpas, aviação e maquinário, mesmo diante de concorrentes chineses apoiados pelo Estado. As exportações aeroespaciais superam € 100 bilhões anuais e as de tecnologias limpas representam 4% do PIB alemão. A ideia de que só empresas apoiadas por capital de risco impulsionam a inovação ignora como os ecossistemas funcionam. Até a Tesla dependeu fortemente de subsídios nos EUA. A P&D em maquinário, químicos e transporte pode gerar ganhos de produtividade mais amplos do que em TI ou finanças, pois a inovação na manufatura cria ferramentas concretas das quais outros setores dependem. Tais setores, por sua vez, dão origem à próxima geração: a ASML surgiu da Philips, que iniciou fabricando lâmpadas; a Airbus nasceu da união de campeãs nacionais da aviação; e a Siemens ajudou a consolidar a base de tecnologias limpas na Alemanha. Entender como “o velho gera o novo” deveria ser uma prioridade de pesquisa.

    O terceiro desafio é redesenhar a política concorrencial da UE. No modelo descentralizado da China, muitas empresas ganham apoio em setores emergentes, e a competição intensa seleciona os vencedores. No modelo centralizado dos EUA, o Estado apoia alguns poucos projetos emblemáticos, enquanto o capital privado ajuda os vencedores a ganhar escala. A Europa, porém, encontra-se em uma posição incômoda entre os dois: a ajuda estatal é descentralizada, sem prioridades claras nem recursos suficientes, e não há um esforço de pesquisa em nível europeu. Assim, corre o risco de dispersar demais os recursos e não alcançar impacto significativo. Para competir, a Europa precisa combinar o melhor dos dois modelos: foco estratégico e cooperação em escala europeia, mantendo ao mesmo tempo espaço para a experimentação nacional.

    A política industrial da UE também deve refletir as dinâmicas globais e as lacunas do mercado interno. Nos setores em que a concorrência global tende ao oligopólio e o mercado único funciona bem, estimular campeões europeus pode fortalecer o bloco, permitindo que a política industrial apoie a escala sem comprometer a concorrência. Mas, isto não se aplica ao setor digital e a outros serviços, em que o mercado único continua fragmentado e, neste contexto, os campeões nacionais correm o risco de se transformarem em “grandes peixes em lagoas pequenas”.

    Em conclusão, a Europa sofre com a persistente ilusão de que ajustar o “ambiente macro e regulatório” será suficiente para aumentar a produtividade e a inovação, deixando que a própria composição setorial se ajuste sozinha – sem uma política industrial ativa. Mas, se a excessiva dependência de setores de baixa intensidade em P&D faz parte do problema, como resolvê-lo sem uma política setorial quando EUA e China distorcem ativamente os mercados globais? A Europa ainda tem tempo – mas, apenas se abandonar a ideia de que os mercados sozinhos entregarão bons resultados. A política industrial chinesa tem sido notavelmente bem-sucedida. Da mesma forma, a Europa pode proteger sua base de P&D em média tecnologia, modernizar a indústria e construir capacidade em alta tecnologia – porém, somente se agir decisivamente. Isto exige uma agenda de pesquisa mais precisa, capaz de mapear os ecossistemas setoriais, acompanhar os efeitos de transbordamento e de escala, e orientar as políticas industrial e de concorrência.

    Este texto foi originalmente publicado no Intereconomics.
    Traduzido por Filipe Prado Macedo da Silva.

    Este texto está sob uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional. É permitida
    a reprodução total ou parcial do conteúdo sempre que a fonte original for citada.


    Insights nº 17 | Artigo em PDF

  • 12 de setembro de 2025
    Insights
    Incêndios florestais na Europa: o caso espanhol

    Incêndios florestais na Europa: o caso espanhol

    PALAVRAS-CHAVE Emergência Climática, Espanha, Europa, Incêndios Florestais, Política Agrícola Comum

    Avatar de Eduardo Moyano Estrada

    Eduardo Moyano Estrada

    Sociólogo e Doutor em Agronomia. Professor de Investigação (Catedrático) Aposentado do Consejo Superior de Investigaciones Científicas (Espanha).


    As florestas espanholas arderam no mês de agosto. Em duas semanas, a área queimada ultrapassou 400 mil hectares – número que, provavelmente, continuará crescendo nos próximos dias, alcançando níveis jamais registrados no país.

    É estarrecedor ver campos e casas consumidos pelas chamas, e doloroso testemunhar a raiva e a impotência dos moradores diante de um drama sem precedentes, que já tirou a vida de quatro pessoas.

    Nem a UME (Unidade Militar de Emergências), nem as brigadas do MITECO (Ministério para a Transição Ecológica e o Desafio Demográfico), tampouco os serviços de combate das Comunidades Autônomas conseguem conter o avanço incontrolável do fogo. Isso apesar do esforço incansável, da dedicação sem limites e até mesmo do apoio de outros países da União Europeia.

    Trata-se de um fenômeno natural de força inédita, com incêndios que se retroalimentam e atingem alturas inimagináveis, distinguindo o que especialistas rotulam como “incêndios de sexta geração”.

    Vários especialistas já se manifestaram sobre o tema, com diagnósticos consistentes e, logo, com sugestões de medidas para evitar que tragédias desta magnitude se repitam.

    A seguir, destacam-se algumas destas propostas, fundamentadas em critérios científicos, em contraposição a análises que, ao atribuírem a culpa à Política Agrícola Comum (PAC) ou à Agenda 2030 sem base técnica, situam-se mais no campo da ideologia do que no da ciência.

    Algumas propostas e sua viabilidade

    Aponta-se, com frequência, o prolongado período de calor extremo, ventos fortes e baixa umidade (fenômenos associados ao aquecimento global). No entanto, tais fatores não são a causa direta dos incêndios, mas sim elementos que intensificam sua força e ampliam sua capacidade de propagação, uma vez deflagrados.

    Assim sendo, os especialistas alertam contra explicações simplistas: não basta reduzir as emissões de gases de efeito estufa para que os incêndios deixem de ocorrer. O problema é mais complexo e está relacionado, sobretudo, à deficiente gestão florestal.

    Entre as medidas propostas, destaca-se a utilização de todos os recursos disponíveis (hidroaviões, caminhões-pipa, tratores de esteira, escavadeiras, motosserras, etc.) aliados às novas tecnologias de detecção e monitoramento (como, por exemplo, drones, GPS e sistemas remotos). Ainda assim, o eixo central deve ser a prevenção, ou seja, o controle dos fatores que favorecem a propagação do fogo e que podem ser mitigados pela ação humana e por políticas públicas adequadas.

    Uma das prioridades é conter o despovoamento rural. O abandono de vastas áreas, com consequente acúmulo de biomassa, favorece a propagação das chamas. Além do mais, se defende a participação ativa das comunidades locais na gestão dos espaços florestais, recuperando práticas tradicionais de convivência com o natureza, e incentivando o uso da biomassa como fonte de energia doméstica.

    Outra proposta é reativar a pecuária extensiva e o pastoreio, considerados procedimentos eficazes para reduzir a carga de material combustível acumulada nos bosques. Defende-se, ainda, um tratamento mais favorável a tal atividade nos programas de apoio da PAC e a adoção de uma visão integrada que reconheça os espaços agrícolas e florestais como partes de um mesmo ecossistema agroflorestal. Neste sentido, propõe-se a criação de mosaicos, nos quais áreas de vegetação vertical (arborizada) se intercalem com áreas de vegetação horizontal (cultivos agrícolas), dificultando a propagação do fogo.

    Além disso, recomendam-se incentivos fiscais à silvicultura, de modo que as florestas deixem de ser vistas só como patrimônio ecológico e passem também a ser valorizadas por seu potencial produtivo e comercial (madeira, resina, entre outros produtos).

    Embora sensatas, tais medidas enfrentam diversos entraves: sua implementação é lenta, exigindo mudanças de hábitos e comportamentos, e a revisão de marcos normativos que estão inspirados em lógicas de proteção e conservação.

    Não é fácil, por exemplo, repovoar as zonas rurais da chamada “Espanha vazia”, quando o êxodo das populações mais jovens para as áreas urbanas mostra-se, de forma evidente, irreversível – e não somente por razões econômicas que, de fato têm grande peso, mas também por motivos culturais, em um modelo de desenvolvimento fundamentado no uso e consumo de bens e serviços que se concentram nas cidades.

    Quanto à população que ainda permanece nas áreas rurais, é evidente que está cada vez mais envelhecida, o que dificulta a sua participação nas tarefas essenciais de gestão e conservação dos espaços florestais.

    Ainda, parte dos novos habitantes que se fixam nestas regiões vem de centros urbanos e, por isso, está pouco familiarizada com as práticas tradicionais de manejo e convivência com o ambiente florestal circundante.

    Isso não significa, porém, associar a chamada “Espanha vazia” ao abandono e conformar-se com essa realidade, pois o cuidado das florestas pode ser garantido por meio de planos de gestão que independem da participação direta de populações locais.

    Tampouco é tarefa simples reorganizar um território rural tão fragmentado como o atual, em que a urbanização ocorreu de maneira caótica e sem qualquer planejamento prévio de ordenamento. Muitas destas áreas já se tornaram territórios perdidos e irrecuperáveis para uma futura reordenação, restando só a preparação de planos de evacuação para situações de emergência.

    No que se refere ao incentivo à pecuária extensiva e ao pastoreio – atividades cada vez menos rentáveis e, por isso, em declínio – seria necessário contar com criadores que, hoje, praticamente não existem ou, alternativamente, recorrer a novas tecnologias de controle do gado no campo. Contudo, em muitos territórios, o acesso a tais tecnologias ainda é limitado devido às deficiências da rede elétrica e de telecomunicações.

    Já a proposta, bastante conexa, de introduzir novas variedades florestais mais adaptadas às atuais condições de mudança climática exige investimentos em programas de pesquisa, cujos resultados só se tornam concretos no longo prazo.

    Entretanto, todas essas iniciativas terão impacto limitado se não forem acompanhadas por planos consistentes de gestão florestal, uma tarefa especialmente desafiadora em um país como a Espanha, em que 70% da superfície florestal pertence a proprietários privados. Isto exige modelos de governança público-privada, ainda pouco difundidos, devido à constante desconfiança mútua entre a administração pública e o setor privado.

    Acrescenta-se ainda, como notam os especialistas, a necessidade de corrigir as evidentes falhas de coordenação entre o Governo Nacional, as Comunidades Autônomas e as várias representações locais – como Ayuntamientos, Diputaciones Provinciales, Cabildos e Consejos Insulares, Comarcas, entre outros – um desafio difícil de superar em um cenário tão polarizado e marcado pela escassa cooperação política multinível que caracteriza o país neste momento.

    Neste contexto, em que muitas das propostas apresentadas, embora necessárias, apenas produzem efeitos no médio e longo prazo, é preciso reconhecer a realidade: os incêndios florestais voltarão no próximo verão e terão a mesma virulência registrada agora, se não forem enfrentados com medidas imediatas e urgentes.

    A profissionalização dos serviços de prevenção e combate

    Uma dessas medidas, a meu ver, a mais urgente, refere-se à necessária profissionalização do setor responsável pela prevenção e pelo combate aos incêndios.

    Atualmente, como denunciam os sindicatos, o setor de bombeiros florestais trabalha em condições muito precárias, não apenas no que se refere à temporariedade dos contratos (em geral de maio a setembro), mas também quanto à baixa remuneração recebida pelos trabalhadores e ao limitado nível de qualificação exigido (inferior às rigorosas exigências impostas aos bombeiros urbanos).

    A situação varia muito entre as Comunidades Autônomas, já que as competências nesta temática estão descentralizadas. Em alguns casos, os trabalhadores são registrados nas empresas públicas da própria Comunidade (como na Andalucía, em que, desde 2023, os profissionais do plano de Servicio de Extinción de Incendios Forestales de Andalucía – INFOCA – passaram a integrar a Empresa de Emergências da Andalucía). Em outros, são contratados por empresas públicas da administração central (por exemplo, TRAGSA), ou ainda prestam o serviço de forma terceirizada por meio de empresas privadas.

    A conhecida expressão de que “os incêndios florestais se apagam no inverno” – ainda que seja no verão que muitos deles sejam controlados, graças à eficiência dos serviços de detecção – adquire pleno sentido quando há um corpo profissionalizado de bombeiros florestais. Contratados ao longo de todo o ano, tais profissionais estariam preparados não somente para o combate direto às chamas, mas igualmente para desempenhar tarefas preventivas, como limpeza, desbaste, corte de árvores, construção de aceiros e detecção precoce, ações fundamentais para evitar incêndios ou, ao menos, reduzir seus impactos.

    Neste cenário, é igualmente fundamental a coordenação entre o corpo de bombeiros florestais e os “agentes do meio ambiente” (ou análogos), que em muitas Comunidades Autônomas desempenham funções de vigilância nas áreas rurais, garantindo assim, a preservação dos espaços naturais.

    Também é essencial a integração com o Servicio de Protección de la Naturaleza (SEPRONA) da Guarda Civil, e com os serviços de proteção civil dos ayuntamientos e diputaciones, em um esforço conjunto para enfrentar um dos maiores desafios ambientais do nosso tempo.

    Reflexões finais

    O desafio que os incêndios florestais colocam aos espanhóis é de magnitude formidável, além de complexo e oneroso. No entanto, deve ser enfrentado como uma política de Estado, entendendo-se por Estado não apenas a administração central, mas também as Comunidades Autônomas e as representações locais.

    Diante disso, faz sentido propor pactos de Estado, não sobre questões genéricas, que soam bem, porém são difíceis de levar à prática, e sim sobre temas concretos, prontamente identificáveis e capazes de gerar consenso social e político.

    Um dos pactos seria pela “gestão sustentável das florestas”, cuja carência é reconhecida por todos como uma das principais causas da expansão e da elevada virulência dos incêndios florestais.

    Trata-se de um tema bem delimitado, cujo diagnóstico convergem muitas das propostas dos especialistas, além de ser uma demanda antiga das associações de silvicultores (veja, neste sentido, a Carta de Valladolid de 2022) e de grande parte das associações agrárias e ambientalistas. Por isso, não seria difícil encontrar pontos de consenso.

    Tal pacto deveria abranger não apenas o aproveitamento e a conservação das florestas (considerando critérios tanto econômicos quanto ecológicos), mas também tudo o que se refere às atividades de prevenção e combate aos incêndios florestais, incluindo também a necessidade de contar com profissionais qualificados, bem remunerados e em condições de estabilidade laboral.

    É um pacto que implica, sem dúvida, custos econômicos significativos, mas cujo preço é menor do que enfrentar, a cada verão, ondas de incêndios florestais sem as ferramentas adequadas de gestão.

    Este texto foi originalmente publicado na Plataforma Tierra.
    Traduzido por Filipe Prado Macedo da Silva.

    Este texto está sob uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional. É permitida
    a reprodução total ou parcial do conteúdo sempre que a fonte original for citada.


    Insights nº 16 | Artigo em PDF

  • 10 de setembro de 2025
    Redes Sociais

    Publicação no IRICE

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  • 8 de setembro de 2025
    Redes Sociais

    Publicação no Nexo Jornal

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  • 6 de setembro de 2025
    Redes Sociais

    Publicação no O Globo

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