Já estamos em julho, e a Europa já enfrentou duas ondas de calor extremo em apenas dois meses. Em algumas regiões do continente, as temperaturas ultrapassaram os 44°C. Alertas de calor foram emitidos em diversos países, sendo que seis deles atingiram o nível máximo de alerta vermelho.
A França colocou 72 de seus 96 departamentos sob alerta vermelho, e pelo menos 40 pessoas morreram afogadas ao tentar escapar do calor.
Na Espanha, as temperaturas atingiram 45,1°C, com 101 mortes relacionadas ao calor apenas no mês de maio, o maior número já registrado para esse período.
O Reino Unido bateu seu recorde histórico de temperatura para o mês de junho. Cidades fecharam escolas, redes elétricas enfrentaram sobrecarga e hospitais registraram um aumento expressivo nas emergências relacionadas ao calor.
Nada disso deveria causar surpresa. A Europa é o continente que mais aquece no planeta, com uma taxa de aquecimento aproximadamente duas vezes superior à média global. Há décadas, cientistas alertam que as mudanças climáticas provocadas pela ação humana tornariam os episódios de calor extremo mais frequentes e mais intensos. As projeções atuais indicam que os próximos cinco anos deverão quebrar ainda mais recordes, consolidando esse cenário como o “novo normal”.
Os verões que as gerações anteriores de europeus conheceram já não existem mais. O calor extremo deixou de ser uma anomalia para tornar-se o novo padrão climático. Assim, a questão já não é mais se novas ondas de calor ocorrerão, mas se as cidades europeias conseguirão suportá-las.
Um desastre climático que ainda não é tratado como tal
O calor extremo mata mais europeus do que qualquer outro risco climático.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 175 mil pessoas morrem todos os anos no continente em decorrência de causas relacionadas ao calor.
Apesar desses números, as temperaturas extremas não têm sido tratadas com a mesma urgência atribuída a outros desastres, como as tempestades, os incêndios florestais ou as enchentes. A maioria dos governos ainda reage de forma improvisada, e não existe uma resposta coordenada para enfrentar o calor extremo, que continua sendo encarado mais como um inconveniente meteorológico do que como uma ameaça à vida.
Entretanto, essa percepção começa a mudar. Durante a COP30, a Estratégia Internacional das Nações Unidas para a Redução de Desastres (UNDRR) lançou um novo Marco de Governança para o Risco de Calor Extremo. O documento reconhece formalmente o calor extremo como uma das ameaças climáticas mais letais e menos administradas. Embora represente um avanço importante, décadas de políticas fragmentadas, decisões voltadas apenas para o curto prazo e o subfinanciamento crônico dos serviços públicos deixaram a Europa perigosamente vulnerável.
Como resultado, cada verão que passa sem avanços significativos representa mais um verão em que vidas serão perdidas.
A Europa não foi construída para isso
Um relatório recente do Comitê sobre Mudanças Climáticas do Reino Unido argumenta que o país foi planejado para um clima que já não existe mais, alertando que temperaturas superiores a 40°C estão se tornando cada vez mais comuns. O mesmo pode ser dito de praticamente todos os países europeus. As cidades foram projetadas para outra realidade climática, com estradas, calçadas e edifícios de concreto que absorvem e retêm calor, em vez de refleti-lo, transformando as áreas urbanas em verdadeiras ilhas de calor, com temperaturas entre quatro e seis graus superiores às de seu entorno.
Algumas cidades já estão reagindo. Paris, por exemplo, comprometeu-se a plantar 170 mil árvores em espaços públicos, enquanto Marselha vem substituindo pisos impermeáveis em praças históricas e mapeando rotas de caminhada com sombra.
Outros países também adotaram medidas, substituindo pavimentos convencionais por superfícies de menor absorção térmica e pinturas refletivas nas vias, revisando códigos de construção e redesenhando espaços públicos com soluções de resfriamento passivo. Mesmo assim, nenhuma dessas iniciativas enfrenta o problema estrutural. A Europa continua amplamente dependente dos combustíveis fósseis, e seus sistemas de produção de alimentos, habitação e transporte ainda apresentam elevada intensidade de emissões de carbono.
A pegada de gases de efeito estufa da União Europeia (UE) corresponde a quase nove toneladas de CO₂ por pessoa ao ano, bem acima da média global, estimada em cerca de cinco toneladas.
Há progresso, mas ele não ocorre na velocidade necessária. Em muitas rotas, viajar de trem continua sendo mais caro do que voar. Os códigos de construção ainda permitem novas edificações que poderão tornar-se inadequadas para habitação em um futuro próximo. Além do mais, centros de resfriamento, corredores urbanos sombreados e programas de atendimento preventivo a idosos que vivem sozinhos continuam sendo exceções, e não a regra.
Planos de ação para enfrentar o calor existem em algumas cidades, mas poucos possuem caráter legalmente vinculante e menos ainda dispõem de recursos financeiros compatíveis com suas metas.
As ações individuais são importantes, mas não podem substituir as mudanças estruturais que apenas governos e instituições têm capacidade de implementar. Consumir menos carne ou reduzir viagens aéreas produz efeitos positivos em larga escala, porém o relógio continuará avançando enquanto as emissões não forem reduzidas em sua origem.
Adaptação e mitigação precisam ocorrer simultaneamente, e nenhuma delas pode ser adiada.
A janela de oportunidade está se estreitando
A UE prepara uma estratégia de resiliência climática para o final de 2026, com o propósito de introduzir normas juridicamente vinculantes e instrumentos de monitoramento para coordenar as ações entre os Estados-membros. Trata-se de um passo na direção correta. Contudo, como deixou evidente a onda de calor das últimas semanas, a distância entre o que está sendo planejado e o que já acontece na prática aumenta rapidamente.
A questão já não é apenas como responder à próxima onda de calor, mas como governar, financiar e reconstruir um continente que já vive em um futuro climático diferente.
Este texto foi originalmente publicado no The Conversation.
Tradução revisada por Filipe Prado Macedo da Silva.

Este texto está sob uma licença Creative Commons Atribuição-SemDerivações 4.0 Internacional. É permitida
a reprodução total ou parcial do conteúdo sempre que a fonte original for citada.

Deixe uma resposta