A situação econômica na Alemanha é precária. Assim como no começo deste século, a Alemanha entrou em uma fase de estagnação de longo prazo. O crescimento flutuou perto de zero desde o fim da pandemia do coronavírus. Isto contrasta fortemente com a maioria das outras grandes economias, que conseguiram se recuperar mais ou menos do impacto da pandemia nos últimos anos. A Alemanha está, portanto, ficando para trás. A imagem da Alemanha como o “homem doente da Europa” está de volta!
Logo, o que está ocorrendo com a economia alemã? Que medidas de política econômica prometem os partidos políticos na próxima campanha eleitoral para superar a persistente fraqueza do desempenho econômico naquela que ainda é a economia europeia mais forte?
A principal fraqueza da economia alemã é a falta de investimentos. Isto se aplica mais ou menos a todos os setores econômicos. O investimento público, particularmente no nível local, tem sido completamente inadequado durante anos em relação às necessidades. A falta de investimento levou a uma deterioração gradual da infraestrutura que, agora, está em colapso total. No nível dos estados federativos, o investimento no sistema educacional e na habitação social, que também estão por anos inadequados, produziu deficiências perceptíveis na qualidade da educação e, em alguns casos, a aumentos generalizados de aluguéis, colocando uma forte pressão sobre o poder de compra das famílias. Embora o governo federal tenha aumentado aparentemente seus investimentos, isto ainda não é satisfatório para contrabalançar os déficits dos últimos anos, muito menos para garantir às necessidades da política climática.
O mesmo se pode dizer do investimento privado, que vem encolhendo significativamente nos últimos anos. Tal fragilidade pressiona o modelo alemão de uma economia fortemente orientada para a indústria e para suas exportações. Os conflitos geopolíticos e a estratégia chinesa de inundar os mercados globais com os seus produtos industriais mais baratos, a fim de compensar a sua própria fragilidade econômica interna, desempenham um papel significativo. Isto é agravado pelas incertezas acerca do futuro, pela estratégia de comércio externo (potencialmente carregada de conflitos diplomáticos) dos EUA e pela carência de informações sobre as conversões necessárias para atender aos requisitos da nova política climática. Assim sendo, a incerteza e a ambiguidade são um “veneno” para o investimento industrial.
Apesar de todas as tendências negativas, há uma diferença basilar entre a estagnação do início do século e o estado atual da economia. Enquanto mais de cinco milhões de pessoas estavam desempregadas naquela época, o número atual é de “apenas” 2,5 milhões. Neste aspecto, a situação do mercado de trabalho é muito melhor.
É contra esse cenário, usualmente bastante sombrio, que a disputa sobre os conceitos de política econômica para superar a condição de estagnação será um ponto fundamental da campanha eleitoral entre os partidos. Em termos práticos, os partidos SPD (Partido Social-Democrata Alemão), CDU (União Democrata-Cristã), Verdes e FDP (Partido Democrático Liberal) conflitam em três áreas que se sobrepõe: política fiscal, política climática e política social.
O governo atual se dissolveu por causa da política fiscal. Enquanto o FDP e, dos assentos da oposição, a CDU insistiram na adesão irrestrita ao controle da dívida, o SPD e os Verdes defenderam relaxar a política fiscal para investimentos e, possivelmente, também para ajuda militar à Ucrânia. Logo, os investimentos teriam como objetivo principal modernizar a infraestrutura dilapidada e atender aos requisitos das mudanças climáticas. Porém, essa necessidade é contestada por outros grupos políticos, pelo menos no que diz respeito às mudanças climáticas e, assim, lança luz acerca da fundamental disputa sobre a direção estratégica da política climática. De um lado estão a CDU e o FDP que, essencialmente, acreditam no mercado como o impulsionador dos investimentos necessários. Nesta visão, os pré-requisitos já foram criados com a cobrança de impostos sobre as emissões de CO2, tornando o uso de tecnologias poluentes cada vez mais caro. Este aumento esperado nos preços relativos dos bens propensos a emissões desencadearia, de forma automática e eficiente, o investimento privado, que, ao longo do tempo, resultaria na transição para uma economia sustentável. Nesta abordagem, um maior investimento público ou uma política industrial ativa seriam em grande parte desnecessários. Tais fundos poderiam, portanto, ser economizados e, logo, uma dívida pública maior poderia ser evitada.
Já o SPD e, em menor medida, os Verdes estão buscando uma estratégia diferente. Eles querem adicionar investimentos ativos e uma política industrial aos sinais de preços. Desta forma, espera-se que a velocidade da transição energética aumente. Isto não deve apenas melhorar mais rapidamente a pegada de carbono, mas ainda criar vantagens tecnológicas, sobretudo, na indústria. Logo, o atual modelo de exportação da economia alemã poderia perdurar de uma forma renovada. Isto resulta em um grande afastamento da proposta dos outros grupos políticos, em que o mercado sozinho decidiria se o modelo econômico atual prosseguiria. A esperança é que isto resulte numa transição sustentável sem má alocação de recursos. O receio é de que isto possa estar associado a um aumento significativo do desemprego estrutural ou a uma perda de qualidade nos empregos recém-criados.
Existe um outro conflito, principalmente, entre o SPD e os demais partidos sobre a política social adequada no cenário em questão. Para muitos, a ideia que prevalece é a de que deve ser feita uma escolha entre mais investimentos e os benefícios sociais existentes. Sendo assim, existem apelos para cortar ou pelo menos congelar os benefícios sociais. O SPD quer mais investimentos e maior seguridade social durante o processo de transição. Isto só será possível se o limite da dívida for liberado, ao mesmo tempo, para os investimentos, sendo uma das exigências do SPD.
Na Alemanha, como em outros países, não é incomum que discursos controversos entre partidos estabelecidos sejam ofuscados pelo debate dos partidos populistas, sobretudo, dos partidos populistas mais à direita. Eles deliberadamente “colonizam” as fraquezas da situação econômica e atribuem a culpa aos migrantes, ao apoio à Ucrânia, às elites reais ou supostas, e aos partidos do establishment como um todo. É, assim, que eles tratam os temas dos aluguéis elevados e da infraestrutura dilapidada no discurso público.
Além do mais, os partidos populistas de direita agarraram-se a uma questão que os outros partidos até agora só abordaram de forma inadequada: a inflação ou, mais especificamente, os preços mais elevados. Embora o ímpeto inflacionário tenha em grande parte estagnado, os preços permanecem num nível significativamente mais elevado. Este é, particularmente, o caso dos preços dos alimentos que, na Alemanha, estão mais de 30% acima do nível de 2021. As famílias de rendimentos médios e baixos são fortemente afetadas. Logo, o poder de compra foi visivelmente reduzido pelo aumento dos preços. E, tal movimento dos preços não foi equilibrado pelas políticas compensatórias do governo federal. Embora o peso do aumento dos preços dos alimentos tenha sido de maior importância para as famílias com baixos rendimentos, o alívio fiscal tem pouco efeito sobre elas, uma vez que pagam poucos ou nenhum imposto. Se forem empregadas em uma base precária, ou seja, sem acordos coletivos, geralmente não se beneficiam da compensação inflacionária livre de impostos acordada pelas partes – empregados e empregadores – na negociação coletiva de muitos setores.
Isto significa que amplas camadas da população estão, na verdade, em pior situação do que três anos atrás. Resta saber qual linha de argumentos prevalecerá entre os eleitores em 23 de fevereiro.
*Este texto foi originalmente publicado no Intereconomics – Review of European Economic Policy.
Traduzido por Filipe Prado Macedo da Silva.

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