Às vezes, filmes sobre romanos nos dizem muito mais sobre o mundo contemporâneo do que ousamos admitir. Em A Vida de Brian, do grupo de comédia Monty Python, há uma cena em que revolucionários anti-romanos indagam retoricamente: “O que os romanos fizeram por nós?”; e, apenas para listar, com crescente relutância: os aquedutos, o saneamento, as estradas, a irrigação, a medicina, a educação, o vinho, os banhos públicos e a segurança pública.
Por décadas, a União Europeia (UE) foi retratada – ao menos entre seus defensores – como uma força indiscutível do bem. Paz, prosperidade, democracia, progresso social – tudo embrulhado em um pacote tecnocrático bem organizado. Contudo, hoje, muitos cidadãos europeus estão internalizando sua “Frente Popular da Judeia”, resmungando: “O que a EU fez por nós?” Agora, o grande projeto de unidade e estabilidade é visto, em muitos setores, como um burocrata indiferente, cego às queixas daqueles que já não se sentem parte dele. Assim, o momento Romani ite domum (Romanos, voltem para casa), imortalizado por Monty Python, está se transformando em um grito continental crescente de Eurocrati ite domum: ou seja, burocratas de Bruxelas, voltem para casa.
Tal descontentamento não é apenas retórico. Está remodelando o cenário político europeu com uma rapidez alarmante. Os números falam por si sós. O apoio a partidos fortemente eurocéticos – aqueles que propõem o fim da UE ou questionam os princípios europeus fundamentais, como a primazia do direito europeu sobre o nacional – chegou a quase 15% dos votos nas eleições legislativas nacionais, em 2023. Neste sentido, se adicionarmos os partidos moderadamente eurocéticos, o total de votos, naquele mesmo ano, para legendas contrárias a uma maior integração europeia chegou a 28,5%. Hoje, é muito provável que esse número esteja em torno de um terço do total de votos. Em quatro países – Hungria, Itália, Polônia e França – os eurocéticos comandam ou estão próximos da maioria absoluta. Já governam ou participam do governo na Hungria, Itália, Eslováquia e Países Baixos, atuam como fiéis da balança na Suécia e são o maior partido na Áustria e na Polônia. Diante do cenário atual, é apenas uma questão de tempo até que tais partidos alcancem o poder em muitos outros países europeus. E o perfil dos seus eleitores importa. O crescimento mais forte do apoio ao euroceticismo vem da extrema-direita, cujo peso eleitoral agora chega a 25% do eleitorado – mais do que nos anos 1930; um paralelo histórico que exige atenção e reflexão.
O que explica tal descontentamento generalizado? Tradicionalmente, tal crescimento tem sido atribuído a elementos culturais (Norris; Inglehart, 2019); pela revolta dos indivíduos — frequentemente homens, idosos, brancos e com baixo nível de escolaridade — que se sentem cada vez mais deslocados em uma Europa muito mais cosmopolita e diversa do que aquela em que cresceram. São pessoas que, segundo a socióloga Arlie Hochschild (2018), sentem-se “estranhas em sua própria terra”. Há também explicações de natureza territorial. As linhas de conflito se estabelecem entre cidades globalizadas e prósperas, de um lado, e pequenas cidades, subúrbios e áreas rurais em estagnação, de outro. (Rodden, 2019, por exemplo). Logo, uma explicação que vem ganhando força é a estagnação e o declínio econômico de longo prazo. Muitos territórios da Europa estão presos no que vem sendo chamado de “armadilha do desenvolvimento”. Conforme definido por meus colegas e por mim (Diemer et al., 2022), um território está em “armadilha do desenvolvimento” quando não tem condições para manter seu dinamismo econômico em termos de renda, produtividade e emprego, ao mesmo tempo em que tem desempenho inferior a seus pares nacionais e europeus nestes mesmos aspectos. Cerca de 60 milhões de europeus vivem em lugares onde o PIB per capita real atual é inferior ao do ano 2000. Aproximadamente um terço da população da UE vive em territórios que estão estagnados, mas continuamente, ficando para trás. A incidência de tal “armadilha” é particularmente alta na França, Itália, Grécia e Croácia, embora esteja presente, de alguma forma, em quase todos os países da UE.
E, ao contrário do que acontece, por exemplo, nos EUA, quando uma região europeia entra em uma “armadilha do desenvolvimento”, ela tende a permanecer lá por muito tempo. A estagnação econômica tornou-se uma característica estrutural em muitos territórios da Europa. As pessoas que vivem nestas áreas cada vez mais “invisíveis” (Rodríguez-Pose, 2018) estão impulsionando o crescimento do euroceticismo. Assim, o voto eurocético é uma reação das comunidades em que as perdas individuais são percebidas como perdas coletivas. Está ligado, de forma fundamental, à geografia do declínio (Rodríguez-Pose et al., 2024); a lugares que estão enfrentando perdas econômicas, de emprego e demográficas substanciais ao longo do tempo. A Grande Recessão de 2008 pode ter sido o estopim, mas o descontentamento tem raízes bem mais profundas.
Então, o que fazer? É possível conter o crescente euroceticismo – a ameaça mais grave ao projeto europeu desde sua criação? Muitos defendem que, se a causa for cultural, é preciso travar guerras culturais. Entretanto, entrar em um Kulturkampf (conflito de culturas) é um jogo perigoso, que pode aprofundar ainda mais as divisões já existentes nas sociedades europeias.
Uma resposta mais pragmática reside no combate ao declínio econômico de longo prazo. Muitos dos eleitores que migraram para posições eurocéticas vivem em locais que caíram no “vazio” das políticas públicas: são ricos demais para receber os fundos da política de coesão da UE; e, são estagnados e pouco “atraentes” para estarem no centro das políticas nacionais. No entanto, tais territórios ainda apresentam potencial econômico significativo, que segue inexplorado (European Commission, 2024). Os motores da Revolução Industrial e do crescimento no século XX não perderam sua relevância de forma repentina. O problema é, em grande parte, territorial, e exige uma resposta igualmente ambiciosa. Se o declínio econômico continuar sem controle, as consequências políticas serão sísmicas. Isso já não é um debate sobre economia. É uma questão de sobrevivência da própria UE.
Mesmo diante disso, os responsáveis pelas decisões políticas permanecem voltados para desafios como a perda de influência global, a competitividade, a defesa, as mudanças climáticas e a transição digital — todos, é claro, temas de grande urgência Sem dúvida, precisamos de uma Europa mais competitiva, capaz de se defender e de liderar a luta contra a mudança climática. Mas, não nos enganemos. Todas essas prioridades se tornarão secundárias se o euroceticismo continuar avançando até alcançar a hegemonia. Sem uma UE capaz de sobreviver em sua forma atual, não haverá uma Europa mais competitiva, mais segura ou mais verde; não haverá mercado único funcionando plenamente. Haverá apenas uma Europa muito diferente daquela que foi construída nos últimos 70 anos. Assim sendo, se os seguidores de Trump conquistarem ainda mais poder – ou mesmo se continuarem moldando o discurso político sem sequer vencer – voltaremos ao continente fragmentado do passado; marcado por rivalidades nacionais, regimes iliberais e irrelevância econômica crescente.
E assim, voltamos a Roma. No filme Gladiador, de Ridley Scott, um imperador frágil, porém sábio e triunfante – Marco Aurélio – pergunta ao seu general mais leal, Maximus Decimus Meridius, por que ele luta pelo Império. Maximus responde: “Eu vi o resto do mundo. Ele é brutal, cruel e sombrio. Roma é a luz!” Do outro lado do Atlântico, os eventos já estão mostrando quão brutal, cruel e sombrio o mundo pode ser. Sem dúvida, a UE é imperfeita. Tem falhas e precisa de reformas. Entretanto, também é a tentativa mais bem-sucedida de alcançar paz, prosperidade e democracia que o continente já conheceu. E, todas as alternativas em cima da mesa são muito, muito piores. Por isso, devemos lutar pela UE. E, devemos agir rápido. Roma é a luz! A Europa é a luz!
Referências
- Diemer et al. (2022). The Regional Development Trap in Europe. Economic Geography, 98(5), 487–509.
- European Commission (2024). Forging a sustainable future together – Cohesion for a competitive and inclusive Europe – Report of the High-Level Group on the Future of Cohesion Policy. Publications Office of the European Union.
- Hochschild, A. R. (2018). Strangers in their own land: Anger and mourning on the American right. The New Press.
- Norris, P.; Inglehart, R. (2019). Cultural backlash: Trump, Brexit, and authoritarian populism. Cambridge University Press.
- Rodden, J. A. (2019). Why cities lose: The deep roots of the urban-rural political divide. Basic Books.
- Rodríguez-Pose, A. (2018). The revenge of the places that don’t matter (and what to do about it). Cambridge Journal of Regions, Economy and Society, 11(1), 189–209.
- Rodríguez-Pose, A., Dijkstra, L.; Poelman, H. (2024). The Geography of EU Discontent and the Regional Development Trap. Economic Geography, 100(3), 213–245.
Este texto foi originalmente publicado no Intereconomics.
Traduzido por Filipe Prado Macedo da Silva.

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