Nas últimas semanas, a Europa tem testemunhado uma onda de manifestações juvenis em diferentes cidades e países do continente.
Embora apresentem reivindicações distintas, as múltiplas manifestações convergem na expressão de um descontentamento crescente com as condições econômicas e sociais enfrentadas pelas novas gerações (especialmente, os menores de 25 anos).
Enquanto algumas mobilizações reivindicam melhorias na educação pública, no acesso à moradia e no custo de vida, outras questionam o funcionamento do sistema econômico e a capacidade do modelo social europeu de assegurar oportunidades e prosperidade aos jovens.
Ainda que não constituam um movimento unificado, as manifestações compartilham uma percepção central: o contrato social europeu já não garante às novas gerações as mesmas perspectivas de ascensão econômica e proteção social oferecidas às gerações anteriores (desde o pós-guerra).
A questão é que o problema ultrapassa as dificuldades conjunturais, ou de curto prazo.
Desde a crise financeira internacional de 2008, passando pela crise das dívidas soberanas europeias, pela pandemia em 2020-2021 e pela crise inflacionária de 2022-2023, os jovens enfrentaram sucessivos choques econômicos.
Seus efeitos acumulados ajudam a explicar, de certo modo, por que educação, habitação, salários e proteção social se tornaram temas centrais do descontentamento europeu.
Seis países, diferentes crises estruturais: as múltiplas faces do descontentamento juvenil na Europa
Na França, os protestos estudantis intensificaram-se em setembro de 2026, denunciando a falta de professores, a superlotação e a precariedade das escolas, além das dificuldades da educação pública em promover mobilidade social.
A questão é que o problema francês também possui uma dimensão fiscal. Com um déficit público projetado em 5,8% do PIB para 2026, o governo enfrenta pressões por contenção orçamentária.
Logo, essa crise estrutural francesa compromete investimentos educacionais, sendo que seus custos recaem desproporcionalmente sobre estudantes de famílias de menor renda, que dependem mais intensamente da escola pública.
Na Espanha, milhares protestam contra a crise habitacional e os elevados aluguéis. Com aumentos de aproximadamente 80% em uma década, a moradia tornou-se inacessível para muitos jovens trabalhadores, sobretudo, nos maiores centros urbanos.
A questão é que o problema espanhol não é só o preço dos imóveis – inflacionado pela especulação imobiliária e pela expansão dos aluguéis turísticos – mas o desequilíbrio entre os rendimentos do trabalho e os custos habitacionais.
Isto quer dizer que a crise estrutural espanhola apresenta duas dimensões interligadas: a precariedade salarial (os salários reais espanhóis permanecem 2% abaixo dos níveis de 2021), que limita o poder aquisitivo dos jovens, e a insuficiência da oferta de moradias (déficit habitacional estimado em 600 mil moradias), que pressiona os aluguéis.
Na Alemanha, as tensões sociais possuem características distintas, abrangendo desde os protestos contra a extrema-direita até os cortes na educação e o aumento do custo de vida. Logo, as mobilizações alemãs, envolvendo estudantes, sindicatos e diferentes movimentos sociais, não devem ser confundidas com um único protesto juvenil nacional.
A questão é que o problema alemão resulta da combinação entre desaceleração industrial, transformações tecnológicas e elevados custos habitacionais, que ampliam as incertezas sobre emprego, salários e perspectivas econômicas futuras.
Neste caso, a crise estrutural alemã decorre da perda de competitividade industrial diante da concorrência asiática e dos elevados custos energéticos, reduzindo empregos industriais e comprometendo as perspectivas profissionais e econômicas dos jovens.
Na Bélgica, a insatisfação assume uma dimensão diretamente relacionada às políticas de austeridade. Logo, sindicatos e movimentos sociais, em reivindicações intergeracionais, protestam contra os cortes orçamentários, as reformas trabalhistas e os limites à proteção social.
A questão é que o ajuste fiscal belga busca equilibrar as contas públicas, mas provoca preocupações quanto à redução dos direitos trabalhistas, ao financiamento dos serviços públicos e à segurança econômica das novas gerações.
Nesse contexto, a crise estrutural belga revela o conflito neoliberal entre sustentabilidade fiscal e proteção social, colocando em xeque o futuro econômico dos jovens.
Na Itália, as manifestações denunciam os elevados custos de vida, os baixos salários e as dificuldades habitacionais. Em Roma, os universitários protestaram contra os aluguéis e o insuficiente financiamento do ensino superior.
A questão é que a precariedade econômica compromete a autonomia dos jovens italianos, que deixam a casa dos pais, em média, aos 30,2 anos, uma das maiores idades da União Europeia (UE). Em agosto de 2026, o desemprego juvenil alcançou 20,3%.
Assim, a crise estrutural italiana combina estagnação salarial, precariedade ocupacional e desigualdade intergeracional, incentivando a emigração de jovens qualificados para outros países, especialmente, da UE.
Por fim, em Portugal, milhares de manifestantes protestaram contra os baixos salários e os elevados custos habitacionais. Assim como em outros países europeus, as mobilizações confirmam as dificuldades dos jovens portugueses em conquistar independência.
A questão é que a valorização imobiliária supera a capacidade financeira das famílias. De acordo com a Comissão Europeia, os preços das habitações portuguesas aumentaram, no 2º trimestre de 2026, 16,5% em relação ao mesmo período de 2025, a maior variação da UE.
Nesse contexto, a crise estrutural portuguesa combina baixos salários e insuficiência da oferta habitacional, dificultando o acesso à moradia e comprometendo as perspectivas de autonomia econômica das novas gerações.
Por que a juventude europeia perdeu a confiança no futuro?
Os indicadores econômicos revelam a dimensão estrutural do descontentamento juvenil. Em agosto de 2026, aproximadamente 2,95 milhões de jovens estavam desempregados na UE, correspondendo a 15,3%, diante de uma taxa geral de 6%.
Além disso, as disparidades nacionais são expressivas: França (19,4%), Espanha (25%), Alemanha (7%), Bélgica (18,4%), Itália (19,3%) e Portugal (18,9%). Embora distintas, essas realidades evidenciam múltiplas dificuldades na inserção profissional dos mais jovens.
No entanto, o problema ultrapassa o desemprego. Observa-se uma crescente perda da perspectiva de prosperidade, já que salários insuficientes, contratos precários e elevados custos habitacionais dificultam a independência financeira em relação aos pais, mesmo entre os mais qualificados.
A valorização imobiliária, fruto da especulação financeira e da massificação do turismo, agrava tal situação. Segundo a Comissão Europeia, os preços das habitações aumentaram aproximadamente 62% desde 2015, ampliando a distância entre os rendimentos nominais do trabalho e o acesso à moradia.
Essas restrições ajudam a explicar a saída tardia da casa dos pais. Segundo o Eurostat, em 2025, os europeus saíam, em média, aos 26,3 anos; espanhóis e italianos, aos 30,2 anos, e portugueses, aos 28,8.
A precariedade habitacional reforça esse quadro: 26,9% dos jovens europeus entre 15 e 29 anos viviam em domicílios superlotados em 2025, diante de 16,8% da população total.
Além disso, a educação também deixou de assegurar, por si só, mobilidade social. Mesmo com qualificação profissional, muitos jovens europeus enfrentam dificuldades para obter rendimentos compatíveis com os custos de uma vida independente.
Nesse cenário, a crise fiscal europeia pressiona o financiamento do Estado de bem-estar social. As políticas de austeridade, quando comprometem educação, habitação e proteção social, ampliam a vulnerabilidade e o desamparo juvenil.
Logo, as manifestações na França, Espanha, Alemanha, Bélgica, Itália e Portugal revelam diferentes dimensões dessa crise estrutural.
A principal ameaça ao modelo social europeu reside na deterioração da promessa de progresso intergeracional. Quando o trabalho, a educação e a proteção estatal deixam de assegurar perspectivas de prosperidade, o desamparo da juventude Z transforma-se em contestação política.

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