A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA inaugura uma mudança substantiva e, também, desconfortável no modo como Washington enxerga a relação transatlântica com Bruxelas. As novas orientações geopolíticas revelam que a relação transatlântica deixa definitivamente de ser descrita como uma parceria entre iguais, e coloca a União Europeia (UE) como um projeto que necessita ser corrigido, disciplinado e instrumentalizado aos interesses norte-americanos. Assim, sob o segundo mandato de Trump, consolida-se uma inflexão profunda na política externa: os EUA assumem, em relação à Europa, o papel de parceiro constrangedor, cada vez menos disposto a reconhecer legitimidade estratégica e autonomia do outro lado do Atlântico.
Essas novas orientações norte-americanas não são meramente retóricas. Elas refletem a projeção global do “corolário Trump à Doutrina Monroe”, segundo o qual nenhuma região considerada estratégica deve desenvolver autonomia geopolítica efetiva fora da órbita decisória da Casa Branca. Embora idealizado para o Hemisfério Ocidental, o princípio que estrutura o “corolário Trump à Doutrina Monroe” – baseado na primazia estratégica, na exclusividade de influência e na recusa à emergência de polos autônomos – projeta-se, de forma implícita, sobre o sistema internacional como um todo.
Aplicada à Europa, tal “corolário” redefine os termos da aliança secular: agora, a UE pode ser forte, desde que não independente; a UE pode ser soberana, desde que não autônoma; a UE pode ser relevante, desde que alinhada à agenda da Casa Branca. Logo, ao transformar aliados em zonas de influência, os EUA convertem a parceria transatlântica com a Europa em uma relação marcada por assimetria estrutural (como o desequilibrado acordo sobre tarifas), vigilância política (como interferências secretas em alguns dos países-membros da UE) e constrangimento estratégico (como a alegação de que “a Europa precisa corrigir sua trajetória atual” para restaurar sua grandeza).
É, neste contexto, que Washington se torna, para Bruxelas, um parceiro constrangedor no sentido pleno do termo. Em termos gerais, a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA não reconhece a integração europeia como um projeto político legítimo e bem-sucedido, mas como um arranjo responsável pela “erosão civilizacional” do continente e cuja trajetória supranacional seria incompatível com a estabilidade do Ocidente. Assim, a Casa Branca recomenda explicitamente que a Europa “volte a ser europeia”, recuperando uma suposta identidade perdida e abandonando aquilo que o governo Trump define como excessos regulatórios (sobretudo, das big techs), ilusões multilaterais e fragilidades civilizacionais. Do ponto de vista diplomático, trata-se de uma exigência profundamente assimétrica, que desloca o eixo da cooperação/parceria para uma lógica de tutela política e econômica.
Diante deste cenário adverso, a UE precisa ficar de pé e erguer a cabeça – não para romper com os EUA, mas para recusar o papel de aliado coadjuvante.
Quando a aliança deixa de ser confortável
O conceito de embarrassing partner – parceiro constrangedor – descreve situações em que um aliado formal passa a gerar custos políticos, simbólicos, econômicos e estratégicos para seus próprios parceiros. Este tem sido o papel dos EUA desde a posse de Trump em janeiro de 2025. A publicação da Estratégia de Segurança Nacional ratifica formalmente que a Casa Branca – sob administração de Trump – abandonou qualquer preocupação em preservar consensos coletivos, sensibilidades institucionais ou narrativas discursivas que historicamente sustentaram a relação transatlântica.
A crítica dirigida à UE é frontal, sistemática e diplomaticamente deselegante. Bruxelas é retratada como uma engrenagem burocrática que carcome soberanias nacionais, limita liberdades políticas e sufoca o dinamismo econômico do continente. Políticas migratórias, regulações ambientais, digitais e industriais, restrições à liberdade de expressão e a crise demográfica são apresentados como os “sintomas” de uma civilização que teria perdido autoconfiança e vitalidade histórica. O problema é que nos corredores da diplomacia tal percepção norte-americana não decorre somente de divergências políticas, mas de uma deslegitimação moral e civilizacional do modelo europeu contemporâneo. A afirmação de que o continente se tornaria “irreconhecível em 20 anos ou menos” carece de sustentação analítica sólida e de evidências empíricas.
Neste contexto, os EUA deixam de ser um aliado colaborativo e assumem uma postura que expõe publicamente fragilidades europeias (buscando minar a UE e os países-membros), instrumentaliza divisões internas (incentivando partidos patrióticos de extrema-direita e, logo, eurocéticos) e redefine unilateralmente os termos da cooperação (impondo tarifas comerciais e obrigações de investimentos ao bloco europeu). Neste sentido, a guerra da Ucrânia é paradigmática: a administração trumpista aponta a UE e os governos europeus de sustentar expectativas irreais, bloquear soluções diplomáticas e dificultar processos democráticos internos para manter políticas impopulares.
O problema é que tal constrangimento não se limita ao plano discursivo. Na prática, isso se traduz em pressões materiais concretas como, por exemplo: exigências de aumentos acelerados dos gastos militares, abertura dos mercados europeus a bens e serviços norte-americanos, alinhamento econômico orientado à contenção da China e restrição direta ao alcance regulatório da UE.
Observa-se, assim, uma tensão estrutural na relação transatlântica: a UE é chamada a responder como um ator soberano, mas desde a posse de Trump é tratada como se não dispusesse de legitimidade política, econômica e social plena.
Quando erguer a cabeça vira imperativo estratégico
A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA afirma desejar uma Europa mais forte, soberana e capaz de se defender. Os EUA não descartam os europeus… Mas, tal autonomia deve ser cuidadosamente condicionada ao “corolário Trump à Doutrina Monroe”.
Por exemplo, os países-membros da UE e, também, da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) devem gastar mais em defesa, mas dentro de um ecossistema industrial, tecnológico e doutrinário alinhado aos EUA. Isto quer dizer comprar armas e equipamentos dentro do complexo militar-industrial norte-americano. É, dentro da Otan, que o caráter constrangedor da parceria transatlântica se aprofunda. Ou seja, a Otan sob influência trumpista deixa de ser apresentada como comunidade política e de cooperação militar para funcionar como instrumento de cobrança e disciplinamento dos países aliados.
Além disso, a integração europeia – por meio da UE – longe de ser fortalecida, é relativizada por meio do incentivo a relações bilaterais seletivas, sobretudo, com países da Europa Central, Oriental e Meridional. Inclusive, documentos de inteligência vazados sugerem que os EUA querem persuadir quatro países (Áustria, Itália, Hungria e Polônia) a deixarem a UE. Neste momento, Washington parece preferir uma Europa fragmentada, mais permeável à influência externa, do que uma União coesa, integrada e politicamente assertiva.
No plano das políticas e das regulações, o desconforto é ainda mais agudo. A crítica aberta às políticas ambientais, industriais e climáticas europeias coloca a UE em uma posição defensiva permanente. A questão é que alinhar-se aos EUA implica contradizer consensos internos – em nível europeu – arduamente construídos. Divergir, por sua vez, acarreta riscos de isolamento estratégico, militar e econômico.
O que está em jogo é o clássico dilema das alianças: ao se distanciar dos EUA, a UE incorre no risco de enfraquecer um vínculo estratégico; ao preservá-lo sem reservas, assume os custos do constrangimento político e simbólico associados à conduta do aliado.
Erguer a cabeça, portanto, não é um gesto simbólico nem um recurso retórico, mas um imperativo estratégico para que a UE não se torne um quintal dos EUA. Assim, a UE precisa urgentemente de uma estratégia própria que dê conta dos dilemas das alianças, em que a decisão é permanecer acomodada a um papel subalterno – no qual sua legitimidade política é permanentemente posta em dúvida – ou avançar, ainda que de forma gradual e pragmática, na construção de uma autonomia estratégica efetiva, capaz de sustentar divergências legítimas sem comprometer a aliança transatlântica.
Entre o constrangimento e a maturidade política
A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA sinaliza que a relação transatlântica entrou numa fase de desconforto estrutural. Os EUA tornaram-se, para a Europa, um parceiro constrangedor: indispensável, porém difícil; aliado, mas normativamente intrusivo; protetor, mas politicamente instável.
Vozes de liderança dentro da UE já indicam, com clareza e firmeza, a direção estratégica que a União pretende seguir. Kaja Kallas, chefe da política externa da UE, rejeitou as críticas de Trump à UE, sublinhando que os EUA continuam “o maior aliado da Europa” e que, apesar das divergências, os dois continentes devem “manter-se unidos” frente a desafios globais, enfatizando a necessidade de cooperação em vez de confrontação aberta.
De forma semelhante, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, advertiu que ninguém – incluindo os EUA – deve interferir nos processos democráticos europeus, afirmando que é prerrogativa dos povos europeus escolher seus líderes e que a soberania deve ser respeitada sem interferências externas.
Portanto, ficar de pé e erguer a cabeça diante de Trump não significa hostilidade aos EUA, mas afirmação política. Assim, autonomia estratégica não é antiamericanismo, é condição mínima de maturidade. Sem ela, a UE corre o risco de permanecer relevante apenas como instrumento geopolítico, e irrelevante como projeto histórico próprio.
A UE não é quintal. E quanto mais cedo essa posição for afirmada com clareza, coerência e continuidade política, maiores serão as chances de desencadear e acelerar mudanças materiais concretas.
Este texto foi originalmente publicado no The Conversation Brasil.

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